12 de set de 2011

PÃO DE QUEIJO SEM QUEIJO

Ingredientes:4 xícaras de purê de mandioquinha
2 xícaras de polvilho azedo
2 xícaras de polvilho doce
1 colher (sopa) de sal marinho
1/2 xícara de óleo de canola ou girassol
1 xícara de água

Ervas aromáticas a gosto

Modo de Preparo:Cozinhe a mandioquinha e reserve 1 xícara da água usada no cozimento. Numa vasilha, faça o purê e acrescente o óleo, misturando bem. Em outra vasilha, misture o polvilho (doce e azedo) com o sal. Escalde o polvilho com 1 xícara de água quente, proveniente do cozimento da mandioquinha. Esfarele bem o polvilho e misture com o purê. Se desejar, adicione ervas aromáticas. Amasse bem e prepare bolinhas. Leve ao forno médio alto pré-aquecido até dourar.

Observação: a massa dura 7 dias na geladeira.


Fonte: Clinica Adventista Vida Natural

EMPADINHA DE PALMITO E TOFÚ



Ingredientes:

3 colheres de sopa de leite de soja em pó 
2 xícaras de água
1 colher de chá de sal marinho
1 colher de chá de alho
1 colher de sopa de cebola ralada
1 1⁄2 xícara de farinha de trigo
1⁄2 xícara de azeite de oliva
1 colher de fermento biológico instantâneo

Recheio:

1 xícara de molho grosso de tomate temperado
1⁄2 xícara de tofú esmagado
1⁄2 xícara de palmito picadinho
1 colher de sopa de azeite
1 colher de chá de alho
1⁄2 xícara de azeitonas pretas

Modo de Fazer:

Bata todos os ingredientes da massa no liquidificador. Coloque em forminhas de empada untadas até o meio. Acrescente o recheio e cubra com a massa. Coloque as forminhas dentro de uma assadeira e leve ao forno médio até dourar.

Fonte: Clinica Adventista Vida natural

BIFE DE BATATA


Ingredientes:

2 xícaras de purê de batatas 
1⁄2 lata de carne vegetal moída Superbom ou PVT (proteína vegetal)
2 colheres de sopa de cebola ralada 
1 colher de chá de alho amassado 
2 colheres de castanhas ou nozes trituradas 
1 colher de chá de sal marinho

Modo de preparo:

Misturar ao purê com os demais ingredientes. Untar um tabuleiro. Formar os bifinhos com a ajuda de uma colher. Levar ao forno médio e deixar dourar.

Fonte: Clinica Adventista Vida natural

RUI MARTINS A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JOVEM GUARDA

 

RUI MARTINS 

A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JOVEM GUARDA

Publicado pela Editora Fulgor em 1966 


PREFÁCIO DE: FERNANDO DE AZEVEDO 

FULGOR 
ÍNDICE 

Capítulo I: As rebeliões juvenis contemporâneas   
Capítulo II: Os adultos e sua integração no mundo juvenil
Capítulo III: Razões do declínio da bossa nova  
Capítulo IV: O papel da propaganda na criação de imagens
Capítulo V: Uma música que satisfez a todos  
Capítulo VI: A rebelião romântica da juventude nacional
Capítulo VII:  Apoio e reserva dos adultos aos movimentos juvenis
Capítulo VIII: Os traços conservadores do líder juvenil
(clique aqui para ler os oito capítulos desta obra)

Texto interno da capa
Impressionado com a transformação de um cantor em ídolo de considerável parcela da juventude urbana brasileira, o autor, que é jornalista do Estado de São Paulo, quis saber as determinantes desse comportamento. Depois de uma série de entrevistas com sociólogos e psicólogos da Universidade de São Paulo, publicou, na imprensa paulista, o primeiro trabalho que procurava interpretar a reação juvenil e adulta diante do que se começava a chamar «fenômeno Roberto Carlos». 
Na reportagem, que recebeu o título de «Juventude vive a rebelião romântica», o autor apresentou as diferentes opiniões colhidas, mantendo uma unidade geral. Omitiu, porém, sua própria interpretação para conservar-se fiel aos depoimentos. 
Neste livro, Rui Martins amplia seu primeiro trabalho e, utilizando-se de todo material inicial, enriquecido com novas pesquisas e consultas, expõe, também, sua própria opinião, concluindo pela existência no País de uma rebelião juvenil que não conduz a caminho algum e que, por isso, conta com o apoio dos adultos conservadores. 
Os fatores determinantes dessa rebelião romântica estariam Intimamente ligados com a atual situação social e política brasileira, que não favorece a participação efetiva da mocidade no desenvolvimento nacional. 

Texto da contra-capa
"Mas, quando em torno se faz o vazio e nada convida para lutas... a mocidade tende a procurar, em seus sonhos, o meio de fugir à mediocridade e pasmaceira reinantes. Volta-se a si mesma, sem objetivo e com espírito conservador senão reacionário, para viver sua vida à parte. Nem os adultos se integram na vida das gerações jovens, nem estas se preocupam com a sua participação na dos adultos e velhos. Daí, a "rebelião romântica da jovem guarda", que tão admiravelmente analisa Rui Martins, em poucos capítulos, com a lucidez e segurança de suas observações de fatos, e de suas reflexões sobre ele". 
FERNANDO DE AZEVEDO
Comentários do Barbieri
Eu comprei este livro num sêbo perto da Praça da Sé em São Paulo lá pelo princípio de 1980. Acabei trazendo este livro para Londres onde vivo e, agora faz parte da minha bibliotéca. Para colocá-lo aqui neste site, usando um scanner "escaneei" todas as 79 páginas do livro, mais a capa e, depois usei um programa OCR (optical caracter recognizer) para checar todas as páginas usando um programa de inteligêcia artificial e assim transformar os "scans gráficos" em documentos Microsoft Word. Como o texto do livro foi encrito nos anos 60, com o Word fiz a correção hortográfica. O texto então foi reeditado e colocado neste web site. Todo cuidado foi tomado para evitar problemas hortográficos e de compreenção de  texto. Se o caro leitor encontrar algum problema ficarei feliz em ser comunicado para que possa fazer a devida correção.

Direitos Autorais
Queremos deixar claro que não estamos tendo nenhum benifício econômico com a publicação online deste livro. Nosso intuito é puramente educacional uma vez que este livro está esgotado. Estamos dando os devidos créditos tanto do autor como à editora. Entretanto, se o autor ou a editora tiver alguma objeção quanto a publicação onlide deste material, peço-lhes que comuniquem-se  conosco imediatamente  ( rock@celsobarbieri.co.uk ) para que, com pesar, seja providenciada a retirada deste web site deste documento que consideramos ser de grande importância para aqueles interessados na história da música brasileira.

A história do advogado e quase pastor, que decidiu ser jornalista

Rui Martins 
Rui Martins
A história do advogado e quase pastor, que decidiu ser jornalista
Nascido em Torre de Pedra, próximo a Tatuí, em São Paulo, Rui recebeu esse nome em homenagem a Rui Barbosa e, coincidência ou não, acabou tornando-se também um «homem das letras». Por pouco não se tornou «pastor».  Criado dentro da Igreja Presbiteriana, participava ativamente na comunidade e foi um dos líderes da mocidade na época. Com a ditadura, Rui desligou-se por completo da Igreja Presbiteriana. Ele compartilhava das idéias marxistas, enquanto a igreja uniu-se aos militares e expulsou os seminaristas de esquerda.
Rui decidiu estudar Direito na USP e, enquanto fazia faculdade à noite, trabalhava de dia no Citibank. A seguir, foi assistente de direção do SESC, Serviço Social do Comércio.  «Tive três chefes que eram simpatizantes da esquerda e aprendi muito na convivência e bate-papo com eles», diz o escritor.  Mas o que ele queria mesmo era trabalhar num jornal.  Por meio de um amigo, conseguiu fazer um mês de estágio no jornal Estado de São Paulo. Terminado o período, prometeram lhe chamar. Isso não aconteceu. Teimoso, Rui foi até o jornal levar o convite para sua formatura e fez mais uma tentativa.  Deu certo, recebeu uma oferta. Sem pensar duas vezes, Rui pediu licença no SESC e nunca mais voltou. «Fui para o jornal ganhando 1/3 do meu salário, mas era isso que eu queria fazer», lembra.
Rui estava dois anos no jornal quando publicou o livro «A rebelião romântica da Jovem Guarda» (Fulgor, 1966).  Publicado em plena ditadura, o livro defendia a tese de que Roberto Carlos surgiu para preencher um vazio que havia no país. Músicas como «Quero que vá tudo pro inferno», pregavam uma forma de fugir do real. O jeito de ser da Jovem Guarda contaminou o país e os meios de comunicação ajudaram a criar o fenômeno musical. Essa forma de expressar as frustrações, cassações políticas e incertezas passou a ser um fenômeno sociológico. A análise de Rui sobre o tema foi publicada em uma página no Estadão e o editor da Fulgor (que era ligada ao PC) propôs que ele publicasse um livro a respeito. «Em um mês o livro estava pronto», disse Rui, que marcou assim sua estréia como escritor.  Sua atuação no jornal sempre teve uma pitada de contestação à realidade. Como jornalista que cobria a área estudantil, abrigou em sua casa o líder da União Nacional dos Estudantes, José Luis Guedes e sua família, que estavam sendo perseguidos. Mais tarde foi demitido do jornal por ter comemorado a reação dos vietcongs aos Estados Unidos na Guerra do Vietnam. Assumiu a chefia de redação paulistana do jornal Última Hora do Rio. Perdeu novamente o emprego, em dezembro de 68, ao participar de uma suposta greve de jornalistas. Rui lembra do caso com certo humor: «O Reali Junior, na época no Jornal da Tarde, veio à minha redação pedir apoio para uma greve de jornalistas em São Paulo, que na verdade não acontecia, mas eu acreditei e escrevi para a sede: a imprensa de São Paulo está em greve e nós, como correspondentes em São Paulo também estamos». A resposta veio rápida e curta: «Está demitido!» Numa época em que «ser do contra» dava punição, alguns amigos se preocuparam com a segurança de Rui, temendo que ele fosse preso. Foi quando recebeu uma proposta irrecusável da Embaixada da França: uma bolsa de estudos para Paris para sair do Brasil. Arrumou tudo, saiu do Brasil, deixou a mulher, e se exilou na França. «Saí uma semana antes do seqüestro do embaixador americano, que levou à prisão todo mundo», conta.
Na França, que considera sua segunda pátria, fez seu Mestrado em Jornalismo no Institute Français de Presse e dois anos de doutorado com especialidade em Ciência da Comunicação. «Escrevi algum tempo para o Pasquim e, durante uma época cheguei a ter três bolsas ao mesmo tempo para poder sobreviver», relata. Nas horas vagas, dava aulas de português.
Veio para Genebra, em 1970, pegar uma carta de apresentação de Paulo Freire, que lhe garantiu uma uma bolsa de estudos da CIMADE, em Paris. Ia ser professor de jornalismo em Constantine, na Argélia, mas o contrato furou na última hora. Inscreveu-se para um posto na UNESCO (órgão das Nações Unidas responsável pela área da Educação, Ciência e Cultura), por indicação de Eber Ferrer, mas chegou em segundo lugar e não entrou. Foi uma época difícil em Paris, onde criara nova família e onde nasceram suas duas filhas mais velhas. Era uma vida de restrições e pouco dinheiro.  Por sorte, começou a escrever para a revista Manchete.
Em 1975, em plena administração Geisel, voltou para o Brasil, pois sua esposa tinha muitas saudades. O retorno durou somente nove meses. Como sua esposa tinha sido tesoureira da União Estadual dos Estudantes, um dia os militares do DOI-CODI bateram à sua porta às cinco horas da manhã e a levaram para ser interrogada. Alguns dias de prisão com tortura, acabaram com a perspectiva de uma vida normal em São Paulo e exigiram uma nova saída discreta para começar tudo de novo em Paris. Um amigo lhe conseguiu um emprego pela Abril e, a seguir, Rui trabalhou como correspondente para a Rádio Guaíba, de Porto Alegre.
Em 1980, com um contrato na Rádio Suíça
Internacional, Rui veio morar em Berna, aqui na Suíça. Nessa época conheceu o deputado e escritor Jean Ziegler. «Premiado ou azarão», como ele mesmo diz, ao chegar perto dos cinco anos de trabalho, soube que seu contrato não seria renovado e terminaria no meio do ano letivo das crianças.  Rui foi o primeiro estrangeiro a não ter mais contrato definitivo com a Rádio Suíça, que, em 1985, mudou as regras para os estrangeiros.
Depois de um ano e meio na Holanda, voltou à Suíça para ser correspondente do que seria a CBN e do Estadão.  Seus boletins de rádio tinham, desde a época da Guaíba, um estilo diferente, começando sempre com uma brincadeira, uma frase de efeito e transmitindo muita emoção. O jornalista procurou sempre manter uma interatividade com o ouvinte. Para muitos retransmitia seus boletins por E-mail.  Do tempo na Rádio Suíça Internacional ficou um ressentimento, que custou a desaparecer. «A Suíça me rejeitou e eu rejeitei a Suíça. Tudo o que eu podia, escrevia contra a Suíça. Mudei a imagem de cartão postal que a Suíça tinha no Brasil e contei um lado que não se conhecia », revela o escritor. Rui só venceu esse problema quando abraçou uma nova bandeira: a luta pelas classes bilíngües no cantão de Berna. Tudo começou quando se tornou presidente da Comissão de Pais na escola de suas duas filhas do terceiro casamento. Quando veio a decisão da cidade de Berna de cortar a subvenção para a Escola Cantonal de Língua Francesa (ECLF) ele agitou a imprensa e «dizem que foi por isso que as autoridades bernesas voltaram atrás».
No processo de luta pela escola Rui conheceu os representantes do parlamento da cidade, viu que tinha apoio e que «era possível o diálogo com essa gente que eu antes não queria nem ver». Por isso mesmo ele não cansa de repetir que «a experiência de dirigir uma comissão de pais, lutar para serem ouvidos e o atual projeto de classes colegiais bilíngües com a criação do grupo Francophones de Berne foi a minha integração». «Passei tanto tempo não querendo me integrar que quero salvar os outros disso, no caso os filhos de imigrantes como eu. Precisamos fazer a nossa parte, esperamos que as autoridades correspondam ao nosso desejo de integração», afirma o jornalista. Infelizmente o momento atual não parece muito promissor: «agora vejo que a situação se degringola e o país adota leis racistas contra os estrangeiros».
Essa decepção acaba transparecendo no livro sobre Maluf. «Fui duro nos ataques a essa Suíça. Estou desenterrando de uma outra forma a revolta antiga», conclui.  Mesmo assim, continua ativo na defesa da bandeira das classes bilíngües em Berna e algumas vitórias já estão a caminho. É quase certo que a primeira classe colegial bilingue francês-alemão comece a funcionar a partir de agosto de 2007. «É preciso sempre ousar para transformar uma idéia em realidade», festeja.
Rui acredita que se a imigração nos trouxe até aqui, precisamos nos integrar, para participar mais ativamente da vida no novo país e transmitir as nossas idéias de sociedade.
Mas essa integração deve ser consciente «para que a Suíça, graças aos estrangeiros, possa descobrir o caminho da abertura ao mundo». Pensando no exemplo do futebol, Rui lembra que a grande vitória da França na Copa do Mundo foi a vitória do antiracismo. Para o jornalista, «a Suíça só poderá ter ambições nessa área quando tiver uma seleção colorida».
Outra luta é para que o Brasil reconheça os filhos de pai e/ou mãe brasileiros nascidos no Exterior como brasileiros natos. Seu último artigo a respeito (ver página 16) está sendo republicado nos EUA e foi lembrado nas discussões de Boston sobre imigração brasileira. Seu objetivo é criar um ponto central, um site, que reúna imigrantes brasileiros da Europa, Ásia e EUA para forçar o Brasil a rever sua política com relação à diáspora basileira. (I.Z.)
  CIGA-Brasil - Centro de Integração e Apoio
ANO 7 - NÚMERO 37 - OUTUBRO 2005 - TIRAGEM: 1500 EXEMPLARES
www.cigabrasil.ch

CAPÍTULO VIII OS TRAÇOS CONSERVADORES DO LÍDER JUVENIL

A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JOVEM GUARDA
Escrito por Rui Martins
Publicado pela Editora Fulgor em 1966

CAPÍTULO VIII 
OS TRAÇOS CONSERVADORES DO LÍDER JUVENIL 

a) A suposta liberalidade 
Roberto Carlos, o líder da juventude «ié-ié-ié» nacional, embora tenha um modo próprio de se vestir e deixe crescer seus cabelos, agindo numa e noutra forma em desacordo com as convenções sociais, é, no fundo, um jovem conservador. O conhecimento de suas impressões sobre diversos assuntos e de seu comportamento em determinadas circunstâncias especiais não revelam nenhum inconformismo e nenhuma interpretação mais arrojada para os problemas que a sociedade julga já ter dado a última palavra. 
A suposta liberalidade diante dos tabus mantidos pelas gerações passadas não existe. Ele guarda os mesmos preconceitos preservados pelos adultos e, nas entrevistas que concedeu aos mais diversos órgãos de difusão, jamais revelou possuir um espírito renovador ou reformador. Há nele concordância com o pensamento dos mais velhos em todos os assuntos importantes. 
Talvez alguém argumente que essa posição favorável ao pensamento da sociedade constituída seja uma autodefesa. Isto é, para não provocar uma reação que poderia frustrar-lhe o sucesso. Entretanto, essa atitude de autodefesa - se houvesse - confirmaria seu caráter conservador. Nenhum jovem possuidor de interpretações novas, colocado em situação de liderança e crendo em suas idéias, iria preocupar-se em mascarar seu pensamento. Pelo contrário, o desafio e o quixotismo são a característica marcante da mocidade. Há um certo prazer para o jovem rebelde em violentar os esquemas que considera superados. 
Isso não significa que o jovem, pelo simples fato de ser contrário ao convencional, tenha razão. Mas o fato de ele ser contra e de não fazer segredos disso revela a sua juventude. Todos os grandes movimentos de jovens quer na literatura, pintura ou política sempre significaram o rompimento com o que era aceito, dogmàticamente, como verdadeiro. O posterior amadurecimento permitia uma reavaliação da decisão inicial. Entretanto, foi sempre o impulso rebelde da juventude o revitalizador da sociedade que, de tempos em tempos, é assim submetida a um reexame geral. 
A aquiescência aos padrões do mundo em que vive não é,porém, o traço marcante da juventude sadia. Não há dúvida de que essa aceitação satisfaz aos responsáveis pelos destinos da sociedade. Os adultos julgam já ter encontrado a explicação definitiva para as questões da existência e para o comportamento social do homem. Sentem-se seguros quando a geração moça os entende, pois a apresentação de outras explicações sempre lhes é dolorosa. 
Entretanto, o mundo encontra-se em fase de constante transformação pelo que é impossível a manutenção de fórmulas rígidas de comportamento. Dia a dia, novos conhecimentos obrigam a revisão de fatos anteriores, quer no campo da ciência, da técnica ou da própria moral. Verdadeiros tabus das gerações passadas são discutidos abertamente em nosso tempo. Até mesmo a religião reformula suas crenças e <;e readapta para não envelhecer nesse mundo dinâmico. 
Roberto Carlos, porém, não traz nada de novo para a juventude brasileira. Nenhum protesto e nenhuma nova posição, aceitando e enquadrando-se docilmente na estrutura social em funcionamento. Não faz uma crítica, foge delas. E para a juventude desorientada das grandes cidades oferece apenas uma alternativa: cantar e dançar o «ié-ié-ié». 

b) A manutenção dos tabus 
Suas preocupações são todas de ordem externa. Para deixar-se fotografar, demora bem uns dez minutos ajeitando os cabelos, enquanto revela um desusado requinte no trajar. Nas questões de ordem interna suas posições são retrógradas, refletindo, exatamente o pensamento da geração passada. 
Suas expectativas diante da mulher não têm nada em comum com o pensamento moderno. Para ele, a mulher deve ser feminina e simples, não sendo essencial a. inteligência. Ora, por ser feminina se entende fragilidade, fraqueza e capacidade de sujeição; ser simples, significa ser de manejo fácil, com muita docilidade e por achar que a mulher deve ter pouca inteligência entende-se ser ele partidário da velha escola que não exigia da mulher grandes dotes intelectuais, pois o homem é quem deveria resolver sempre pelos dois. 
Sobre a igualdade dos direitos da mulher, Roberto Carlos tem duas atitudes. Pela teórica, não ergue qualquer obstáculo a essa conquista. Mas na prática, é bem diferente. Respondendo a uma jornalista sobre a questão, o jovem rebelde demonstrou estar comprometido com todos os preconceitos que tolhem e marginalizam a mulher. Sua posição sobre a virgindade feminina é tão conservadora e convencional como a de qualquer respeitável senhor. 
Não enfrenta o problema, e embora afirme que, na nossa época, virgindade não é mais importante, continua achando que as moças bem educadas casam virgens. Entretanto, não mais existindo a virgindade (no sentido físico), não há mais necessidade de preocupar-se com ela (no sentido moral). Ele é, portanto, um defensor das teorias de nossos avós, embora pareça liderar posições mais evoluídas. Por último, parece achar que o homem é polígamo por natureza, pelo que as mulheres devem se conformar com essa realidade. 
Quanto aos problemas gerais da humanidade, o líder juvenil não demonstra maior interesse. Está feliz no seu universo familiar e mais ainda com o sucesso que lhe tem proporcionado uma sensação de realização pessoal. Pobreza, miséria, injustiça, insegurança, ameaça de guerra são preocupações que, às vezes, lhe vêm à cabeça quando lê jornais. Não é, porém, seu costume ler muitos jornais. E como não se demora na análise desses temas não tem qualquer opinião formada sobre eles. 
Sobre os nossos próprios problemas tem reação idêntica. Em síntese, não tem qualquer interesse pelas questões que chama, para se justificar, de problemas de adultos. Não sabe direito quem é o seu homônimo Roberto Campos, nem quem é governador em Minas ou o que seja Congresso Nacional. 
Informado apenas por revistas infantis, não se interessa por saber e não sabe o que se passa no Vietnã, guardando sérias reservas quanto à possibilidade de o homem chegar à Lua. É contudo, o líder de uma grande parcela da geração que assiste o desenvolvimento da técnica e que poderia ser a primeira a interessar-se pela extraordinária conquista do nosso século, como será o desembarque do homem na Lua. 
Deixa, inclusive, de ter semelhanças com o conjunto dos «Beatles», ao demonstrar seu desinteresse pelo mundo em que vive. Isto porque o conhecido conjunto inglês, em recente entrevista concedida em Tóquio, tomou posição numa das mais controvertidas questões internacionais. Interrogados sobre o que achavam da política norte-americana no Vietnã, os «Beatles» afirmaram que os Estados Unidos nada têm a fazer naquela região do sudeste asiático, tendo John Lennon - um dos quatro afirmado que eles pensam todos os dias nisso e que não concordam com o que está acontecendo. 

c) Lideranças sem perspectivas 
Na realidade, Roberto Carlos surgiu porque, à semelhança da disponibilidade - de liderança existente entre os adultos, ocorre outra entre os jovens. Há um desacerto, uma insegurança e uma falta de perspectiva para a juventude brasileira, ainda sofrendo as restrições de má formação cultural e sujeita aos choques familiares, pois os adultos insistem em manter padrões superados de comportamento, diante de uma nova realidade social. 
Escasseiam os líderes juvenis capazes, porque só se é líder quando se tem segurança. Apesar de sua ingenuidade diante da existência e de sua irresponsabilidade, Roberto Carlos está seguro nos padrões familiares que lhe foram legados. Os demais jovens, mesmo os intelectualizados, têm dúvidas e por isso não lideram. Outros são líderes apenas para grupos reduzidos, porque sua mensagem é muito elevada para ser entendida pela maioria. 
A conclusão de que Roberto Carlos encarna o espírito conservador e, por isso, exerce uma liderança aceita como benéfica pela sociedade constituída, chegou também o juiz da 12.a Vara Criminal de São Paulo, ao julgar o episódio em que o cantor teve de fazer alguns disparos para se livrar da ameaça de malfeitores. 
Citando inclusive alguns trechos de nossa reportagem «Juventude vive a rebelião romântica», publicada no jornal O Estado de São Paulo, e outros do jornalista Roberto Freire, foi o seguinte o despacho do meritíssimo juiz: 
«O moço, ao qual grande parte dos adolescente dedica intensa veneração, é fenômeno no momento, merecendo um estudo profundo dos entendidos. É claro que não é nos limites de uma sentença que se há de estudar sua personalidade. Psicanalistas e conhecedores das manifestações e relações sociais afirmam que este rapaz e todos os seus seguidores são jovens que adotaram a rebeldia do protesto. Eles têm nos «Beatles» um símbolo maravilhoso de rebelião contra a sociedade dos adultos. Esclarecem ainda que uma das causas dominantes do processo é o choque das gerações. Os mais velhos estão sempre em oposição ao que é novo, pois não querem abrir mão do que têm, sobre o que fundamentaram e justificaram toda a sua existência. Os antigos repelem tudo o que foge aos padrões tradicionais. 
Mas para ser o líder de uma parcela da mocidade, Roberto Carlos revelou-se possuidor de uma simpatia cativante. Para as moças o seu olhar triste, um ar de desamparado, mais o fato de ter sofrido um acidente e de parecer muito bom para seus colegas, provocam sempre uma atitude maternal. A música que interpreta pessoalmente assinala um espírito de revolta da juventude. Mas esta manifestação, pela sua falta de agressividade efetiva à sociedade estruturada, adquire feições típicas de uma rebelião romântica, consentida, permitida e até estimulada pelo mundo dos adultos. 
A influência que exerce sobre os que o seguem passa a ser benéfica. Pelo menos, até o presente momento, nota-se grande afabilidade de todos os que o cercam em torno de suas ações. Isto se poderá verificar facilmente. Em todas as manifestações de personalidades marcantes na vida social e política, a tônica é a da amizade e apreço pelo cantor. O Cardeal D. Agnelo Rossi o recebeu com muita cordialidade. A Câmara Municipal de São Paulo já lhe concedeu o título de Cidadão Paulistano. 
Sem dúvida, tais fatos revelam uma pessoa orientada para o bem. E, agora, a campanha que realiza em benefício dos pobres, conseguindo-lhes agasalho, alcança intensa repercussão pública.» 
Entretanto, apesar de todas as manifestações favoráveis ao jovem cantor parece que num ponto há concordância geral: sua liderança não apresenta quaisquer perspectivas para a mocidade. Talvez pelo fato de ele mesmo não se ter convencido da influência que poderia desempenhar entre uma juventude urbana que procura se encontrar. Ou ainda pela simples circunstância de não estar preparado para essa responsabilidade, pelo que seu movimento adquire feições apenas comerciais.

CAPÍTULO VII APOIO E RESERVA DOS ADULTOS AOS MOVIMENTOS JUVENIS

A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JOVEM GUARDA 
Escrito por Rui Martins
Publicado pela Editora Fulgor em 1966 
CAPÍTULO VII 
APOIO E RESERVA DOS ADULTOS AOS MOVIMENTOS JUVENIS 

a) Autocrítica mostra desejo de convivência 
Para a melhor compreensão da mocidade «ié-ié-ié» brasileira, não deve ser desprezado o significado da letra de uma composição que alcançou grande êxito. Isto porque ela constitui uma verdadeira autocrítica de seu cantor e de seus admiradores, de modo geral. Trata-se da música «Mexerico da Candinha». 
Nela, Roberto Carlos comenta os defeitos que lhe atribuem e apresenta sua justificativa. Naturalmente, a autocrítica foi feita inconscientemente e é, por isso mesmo, mais válida. Ela também confirma que a juventude por ele liderada está interessada em obter a aprovação dos adultos. 
A Candinha funciona, no caso, como representação da opinião geral da sociedade. A composição responde às principais críticas feitas à juventude moderna com o objetivo evidente de romper as reservas de certos adultos, para que tolerem os moços se não for possível estimulá-los. 
Há também na composição o interesse de formar a imagem do pseudo-rebelde, isto é, aquele que faz e usa uma série de coisas extravagantes mas que está, plenamente, integrado na sociedade comandada pelos adultos. O jovem aceita os valores estabelecidos pela sociedade e deixa bem claro ser, no fundo, um bom rapaz. Esse temor de desagradar aos adultos confirma o caráter romântico da rebelião juvenil e demonstra de modo cabal a inconseqüência do movimento. 
A letra da composição «Mexerico da Candinha», que enseja um melhor entendimento do espírito juvenil, é a seguinte: 
A Candinha vive a falar de mim em tudo. 
Diz que eu sou louco, 
esquisito e cabeludo 
e que eu não ligo para nada, 
que eu dirijo em disparada, 
acho que a Candinha gosta mesmo de falar; 
ela diz que eu sou maluco 
e que o hospício é o meu lugar, 
mas a Candinha quer falar. 
A Candinha quer fazer 
da minha vida um inferno, 
já está falando do modelo do meu terno, 
e que a minha calça é justa, 
e de ver ela se assusta 
e também da bota que ela acha extravagante. 
Ela diz que eu falo gíria 
e que é preciso maneirar, 
Mas a Candinha quer falar. 
A Candinha gosta de falar de toda gente. 
Mas as garotas gostam 
de me ver bem diferente, 
a Candinha fala mas no fundo me quer bem
e eu não vou ligar 
pra mexericos de ninguém. 
Mas a Candinha agora já está falando até demais, 
porém, ela no fundo 
sabe que eu sou bom rapaz 
e sabe bem que essa onda 
é uma coisa natural 
e eu digo que viver assim é que é legal. 
Sei, que um dia, 
a Candinha vai comigo concordar 
mas sei que ainda vai falar. 
Como se vê, ao apresentar suas explicações, Roberto Carlos diz que vivem a falar dele em tudo: que é louco, esquisito e cabeludo, que dirige em disparada e que o hospício é seu lugar. Lembra as críticas ao modelo de seu terno, à sua calça justa e às suas botas tidas como extravagantes, para depois apresentar suas justificativas. 
O primeiro argumento do cantor contra esses falatórios torna claro a necessidade da diferenciação sentida pela juventude. A alegação de que as garotas gostam de vê-lo bem diferente revela a oposição dos moços à possibilidade de parecerem iguais aos adultos, cuja maneira de ser e atitudes são tidas como «quadradas». 
o segundo argumento é o de que, apesar de suas esquisitices, ele é um bom rapaz. O fato de ele declarar ser um bom rapaz traduz o seu engajamento à sociedade com o conseqüente reconhecimento da validade das regras por ela estabelecidas. Por outras palavras: «Não precisam se preocupar comigo, pois minhas manifestações exteriores de oposição não revelam uma convicção íntima e nem descrença nos valores morais aceitos pela sociedade». 
Daí, a complacência da sociedade para com o comportamento dos moços, pois os adultos sabem que, na realidade, todos querem ser bons, não passando a revolta deles do desejo de deixar crescer o cabelo, usar roupas diferentes ou ter uma gíria própria. 
Prova disso, é o prestígio que o movimento vai recebendo das mais diversas organizações. Entidades de assistência, a fim de conseguir mais fundos para suas obras de benemerência, promovem «shows» com o ídolo «ié-ié-ié», convictas de que estão dando à juventude o melhor em matéria de recreação. Até o próprio clero procura falar a linguagem «ié-ié-ié», preocupado em mostrar à juventude que não condena a nova música e que considera o jovem Roberto Carlos um modelo para a mocidade. Assim, entre promoções filantrópicas e ofícios religiosos celebrados ao ritmo da nova música, os adultos vão assumindo paternalmente a direção do movimento juvenil, encantados com a docilidade dos jovens. 
E a juventude torna-se, simplesmente, barulhenta mas boazinha. Alguma coisa assim como uma criança peralta que gosta de chamar a atenção. Pena que seja também irresponsável e, à escassa cultura, junte uma dose de indiferença pelas questões mais sérias.  

b) Restrições aos movimentos sérios
Entretanto, a juventude brasileira não é toda ela constituída de adeptos do «ié-ié-ié». Há mesmo um movimento, em franca expansão, cuja finalidade é reunir jovens para ouvir a música clássica. É constituído de milhares de estudantes secundários ou universitários que freqüentam teatros e até auditórios de emissoras de televisão para ouvir orquestras sinfônicas e música de câmara. 
Trata-se da Juventude de São Paulo que procura melhorar o gosto artístico da mocidade e que apresenta, com grande freqüência, ótimas orquestras interpretando os mais famosos compositores. E, embora poucos saibam, em todas essas apresentações os auditórios ficam repletos de jovens. 
Há, também, um grande interesse entre os moços pelo teatro. Apesar das dificuldades, quase toda escola superior tem o seu grupo teatral. Entre eles destaca-se o Teatro da Universidade Católica, o conhecido TUCA, cujos componentes foram, recentemente, premiados em festival promovido na França. Para participar do festival, esses estudantes dependeram de contribuições de amigos e empresas, pois não possuíam o necessário para pagar as passagens e não contavam com o apoio oficial. 
Estes movimentos, porém, não recebem os mesmos estímulos que favoreceram a Jovem Guarda. Lutam com dificuldades financeiras e não conseguem despertar o entusiasmo dos adultos que chegam a recebê-lo com reservas. No caso típico dos teatros universitários, paira sobre eles a eterna desconfiança de que prestigiam tendências ideológicas contrárias às tradições nacionais. 
Assim, entre movimentos sérios, que exigem «background» cultural e que abrem novas fronteiras para os jovens, ou movimentos inofensivos e assinalados por uma total pobreza de conteúdo, a sociedade prefere ficar com estes últimos. Partidária da filosofia que defende a marginalização da juventude, a sociedade brasileira olha com restrições quaisquer manifestações juvenis que pretendam submeter à uma análise suas estruturas. 
Acham os adultos, de uma forma geral, que os moços devem se divertir e não se preocupar com as coisas mais sérias. Confiam que o seu amadurecimento lhes trará, conseqüentemente, o engajamento na sociedade, sem a exigência da realização das transformações que o idealismo da juventude julga imprescindíveis. Essa resistência é perfeitamente compreensível numa sociedade conservadora como a nossa, cuja organização já arcaica passa pelo período de crise de ajustamento aos novos padrão exigidos pela realidade atual. 
Ora, o movimento «ié-ié-ié», patrocinado por uma bem montada máquina publicitária, conseguiu mobilizar grande parte dos adolescentes e jovens que vivem nos centros urbanos, desviando-os do debate de temas julgados perigosos. Formou, inclusive, um contingente de jovens totalmente alheio aos acontecimentos nacionais e preocupado apenas em imitar seu ídolo nos mínimos pormenores. 
Talvez, por isso, tenha recebido tanto apoio. A última manifestação de aprovação dada aos jovens «ié-ié-ié» pela sociedade foi a entrega do título de Cidadão Paulistano ao cantor Roberto Carlos, capixaba de Cachoeira do Itapemirim. Por expressiva maioria, tendo sido contrários apenas quatro vereadores, a Câmara Municipal de São Paulo outorgou ao cantor uma honraria que só é concedida a personalidades de grande destaque que tenham prestado serviços de alta significação para a metrópole. Houve, naturalmente, uma dose de imitação, pretendendo reeditar o episódio em que os «Beatles» foram agraciados com um honraria pela Coroa britânica. Não faltou, também, o interesse simplesmente político de agradar os novos e futuros eleitores juvenis. 
O principal, porém, está na formalização da aprovação já tàcitamente dada pela sociedade adulta à figura do jovem líder e a tudo quanto ele significa. Enquanto isso, a propaganda insiste na apresentação do ídolo, junto aos adultos, como figura de elevados dotes morais e de austeros princípios. A atitude mais explorada é a de ter negado a marca de sua propriedade a uma fábrica de bebidas, demonstrando assim - dizem - ótima formação e preocupação pelo resguardo da juventude. A atitude não deixa de ser comovedora, entretanto, não será com medidas idênticas que se diminuirá o consumo de bebidas. Nem será com tais desprendimentos que salvará a Pátria. O povo porém é vulnerável a tais estímulos e se emociona com apelos sentimentais. 
Para a campanha do agasalho valem as mesmas críticas. Foi uma promoção bem planejada, semelhante à «(Quanto vale uma criança», que deu bastante destaque a Moacir Franco. Tais promoções, embora tenham alguma utilidade, pecam pelo exagerado personalismo, enquanto desenvolvem no povo um conceito já superado de assistência social. 
Comentários do Barbieri
Eu comprei este livro num sêbo perto da Praça da Sé em São Paulo lá pelo princípio de 1980. Este livro acabou vindo para Londres onde vivo e agora faz parte da minha bibliotéca. Paara colocá-l aqui neste site, com um scanner "escaneei" todas as páginas do livro, incluindo a capa e, depois usei um programa OCR (optical caracter recognizer) para checar todas as página usando um programa de inteligêcia artificial e assim transformar os "scans" num documento em Microsoft Word. Como o texto do livro foi encrito nos anos 60, com o Word fiz a correção do texto. O texto então foi reeditado para este web site. Todo cuidado foi tomado para evitar problemas horotgráfico e de compreenção de  texto. Se o caro leito encontrar algum problema ficarei feliz em ser comunicado para poder fazer a correção.
Direitos Autorais
Queremos deixar claro que não estamos tendo nenhum benifício financeiro com a publicação online deste texto. Nosso intuito é puramente educacional uma vez que este livro está esgotado. Se o autor ou a editora tiver alguma objeção quanto a publicação onlide deste material, peço-lhes que se comuniquem conosco imediatamente para que, com pesar, retiremos este documento do nosso site.

CAPÍTULO VI A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JUVENTUDE NACIONAL

A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JOVEM GUARDA
Escrito por Rui Martins
Publicado pela Editora Fulgor em 1966   

CAPÍTULO VI 
A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JUVENTUDE NACIONAL 

a) A falta de agressividade e o ideal de pureza 
O que mais chama atenção na juventude «ié-ié-ié» é a sua falta de agressividade e a plena aprovação que lhe dão os adultos, os quais chegam mesmo a incentivá-la. Embora essa falta de agressividade possa ser motivo para elogios, torna-se bastante curiosa, pois a nota marcante da juventude sempre tem sido a de colocar em dúvida as conquistas das gerações passadas e agredi-la com a apresentação de novos valores. 
Entretanto, excetuadas as mostras de rebeldia relacionadas com vestimenta e uso de cabelos longos, essa juventude não agride, não ameaça e nem coloca em dúvida o nosso tipo de organização social. No máximo, os jovens «ié-ié-ié» retiram os esguichadores de água do pára-brisa dos automóveis de determinada marca (brucutus) para com eles fazeres anéis que imitem os usados pelos seus líderes. 
Sucedendo um movimento musical que era comandado por jovens preocupados com questões sociais, a Jovem Guarda confessa-se desvinculada de tais problemas e animada apenas pelo desejo de ser alegre. Essa alegria terr., porém, traços de inconseqüência por demonstrar um total alheamento dos moços diante de problemas ligados à sua existência e à sua participação dentro da sociedade. 
Assim, embora essa juventude fale muito em amor e cante letras inocentes em ritmos alegres, a sua falta de qualquer objetivo não constitui um bom indício. A própria adesão dos adultos conservadores parece indicar não trazer o movimento aquele sopro renovador próprio da mocidade. 
Pode-se argumentar que, depois da Jovem Guarda, decresceu a ocorrência de desordens, arruaças e violências praticadas por jovens. A maioria adquiriu um instrumento musical, transformando-se as antigas «gangs» em estridentes conjuntos musicais. Pode-se ainda acrescentar ser essa mocidade portadora de bons propósitos e de ideais puros, na medida em que demonstra uma prévia disposição para um ajustamento indolor à estrutura social. 
Entretanto, o desinteresse dessa juventude por questões mais sérias e a sua superficialidade não são animadores, exceto para os que pretendem manter os jovens marginalizados. Na velha Inglaterra o aparecimento dos «Beatles» coincide, pràticamente, com um renascimento comandado pela juventude. Hábitos, tradições e convenções seculares estão sendo rompidos e derrubados por uma juventude culta e saudável que deseja mudar a fisionomia velha e austera do país para outra, .alegre e juvenil. 
O Brasil, porém, é um país novo em que tudo ainda está em formação. Portanto, um movimento juvenil, sem propósitos e sem quaisquer ideais transforma-se num hiato nada salutar para o desenvolvimento nacional. Satisfaz, entretanto, aos conservadores, sempre contrários a mudanças e, por isso, animados com a inconseqüência juvenil que não põe em perigo a estrutura social. 
Daí, ser bastante correta a designação de rebelião romântica para o atual movimento de adolescentes e jovens. É uma rebelião, no sentido da oposição natural dos moços aos adultos, externada na adoção de novos padrões de roupas e de apresentação pessoal. Entretanto, o uso de toda energia juvenil apenas em músicas movimentadas e o desinteresse por coisas mais objetivas faz dela uma simples rebelião romântica, que não é contra e nem a favor de ninguém. 
Surpreendentemente, os líderes dessa juventude parecem aspirar, inclusive, ideais de pureza que os adultos se revelaram incapazes de manter. Senão vejamos. A cantora Wanderléia, em artigo escrito para determinada revista, deixou claro uma certa irritação para com os que procuram interpretar o comportamento da juventude, afirmando que com o canto e a dança apenas dão vazão às energias. Acrescenta que os jovens não destroem nada, cantam músicas puras e dançam sem sensualidade. E conclui com uma mensagem em que fala em um mundo novo. 
Embora negando a existência de uma rebeldia no seio da mocidade, não consegue a cantora esconder uma certa indisposição para com os adultos. Depois de enumerar os hábitos das juventudes passadas, aos quais critica, ela procura demonstrar que a mocidade atual é alegre e viva mas sem maldades. Percebe-se, -então, existir entre a mocidade uma prevenção contra os adultos que lhes fixam as normas de comportamento e que, contudo, não as observam. A desagregação familiar das grandes cidades não passou despercebida aos jovens. Eles assistiram e assistem com desgosto que seus mentores não praticam os preceitos que lhes querem impingir. 
Esse comportamento falso de pais ou de mestres, provoca nos moços a aspiração por ideais nobres e a descrença no mundo adulto. Contudo, enredados pela moral pregada pelos que não foram capazes de praticá-la, os jovens têm uma reação paradoxal e querem provar ser muito mais superiores. Assim, embora tenham atitudes mais ousadas, fazem questão de cercar o seu mundo de um clima de sinceridade não existente entre os adultos. 
Essa reação, porém, satisfaz aos adultos que não percebem a sua sutileza e julgam tratar-se da manifestação de um simples espírito sadio entre os jovens. Dão, então, todo apoio ao movimento pela tranqüilidade que ele traz, pois consideram toda a juventude inofensiva. Os ritmos, gritos, pulos e cabelos longos são entendidos como tendência natural para extravasar energias e parecer diferente. 
Dessa forma o protesto não atinge seu objetivo, ao mesmo tempo que os jovens, inconscientemente, enquadram-se, de modo precoce, dentro de todo complexo social.

b) Conseqüências da emancipação da mulher 
Há, porém, outra hipótese para explicar esse surto de pureza ou nostalgia de pureza entre a juventude. Seria uma conseqüência da gradual emancipação da mulher, que, hoje, nos centros urbanos equipara-se ao homem, determinando isso um equilíbrio de convivência que parece retardar a maturidade. Em razão desse 
equilíbrio, os jovens passam a apresentar um comportamento típico de adolescentes em disponibilidade amorosa. 
A moda masculina e feminina revelam, realmente, uma tendência mundial para uniformização, diminuindo gradualmente as diferenças marcantes que existiam entre as roupas para moços e moças. Outro fato interessante refere-se ao uso dos cabelos, com os rapazes passando a usar cabelos longos, enquanto as mulheres os encurtam. 
Essa uniformização de indumentária, que não distingue mais os grupos sexuais, parece estar muito relacionada com a mudança da situação da mulher. Durante muitos séculos, a mulher viveu segregada. Era o homem quem providenciava a manutenção da família, enquanto a mulher permanecia em casa cuidando das coisas domésticas. A situação dela era pouco superior à de um objeto. 
Não tendo tarefas a cumprir e sendo mantida pelo homem, podia esmerar-se no realce de sua beleza. Seus vestidos eram bastante ornamentados, seus cabelos exibiam penteados complicados, ao mesmo tempo que a pintura realçava sua beleza. 
A gradual libertação da mulher que também passou a trabalhar ao lado do homem, exigiu dela indumentária mais prática. Assim, os trajes que possuía apenas para se apresentar tiveram de ser substituídos por outros que lhe dessem maior mobilidade no trabalho. Logo, surgiu o «tailleur», a versão feminina do terno masculino. 
À medida que a mulher foi ingressando no mundo do homem, as diferenças foram se tornando mínimas, principalmente nos trajes esportivos. Isso poderia, então, indicar que estivéssemos a caminho de uma civilização in diferenciada ou andrógina. No momento, porém, ocorre uma pequena e inexplicável inversão. 
As mulheres aderiram aos saltos baixos, cortam os cabelos e usam calças. Entretanto, os homens passaram a adotar o cabelo comprido, usam camisas esporte parecidas com blusas femininas e gostam do colorido preferido pelas mulheres. 
Tudo parece indicar que o homem, acostumado a exercer o domínio sobre a mulher, sente-se agora receoso. Obrigado a aceitá-Ia como companheira e sua igual, apenas com as diferenças do sexo, o homem vacila. Na Europa, embora a liberdade sexual seja muito grande entre a mocidade, o ajustamento homem e mulher torna-se doloroso. 
Os próprios filmes dos «Beatles» demonstram esse clima. Apesar de surgirem mulheres nas cenas, não há o desejo ou a relação erótica, sàmente companheirismo, como se todos fossem adolescentes. Muitos críticos viram alguma relação entre os «Beatles» e os Irmãos Marx, notaram, contudo, nos primeiros, a falta de agressividade e sensualidade que sobrava nos Irmãos Marx. 
O sexo masculino estaria vivendo, portanto, um período de digestão difícil, que seria este da emancipação da mulher. Em síntese, a mulher, no momento em que deixou de ser objeto, tornou-se má companheira para o homem. Isto porque passou a ter desejos, vontades e consciência de si mesma, rompendo aquele equilíbrio antes mantido pela liderança autoritária masculina. 
A nova realidade tem dupla conseqüência: o aparecimento das sociedades matriarcais, nas quais o homem cede ante a nova mulher; e a multiplicação do homossexualismo, que demonstra o retraimento do homem e a sua incapacidade de juntar-se com uma mulher em condições de igualdade. 
Sentindo esse impacto, a juventude retarda sua maturidade e se fixa num amor platônico porque, no fundo, teme a realização sexual. Esse comportamento é parecido com a atitude das adolescentes para com os ídolos cabeludos. Receosos ainda da idéia do sexo elas preferem amar criaturas não bem definidas, que parecem masculinas mas conservam características femininas. Sentem-se, assim, mais seguras.

CAPÍTULO V UMA MÚSICA QUE SATISFEZ A TODOS

A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JOVEM GUARDA 
Escrito por Rui Martins
Publicado pela Editora Fulgor em 1966   

CAPÍTULO V 
UMA MÚSICA QUE SATISFEZ A TODOS 

a) A reação dos adultos ao «vá tudo pro inferno» 
Uma música em especial exerceu influência decisiva na aceitação do cantor Roberto Carlos pelos diversos grupos etários, tornando-o suficientemente conhecido e consolidando seu sucesso. «Quero que vá tudo pro inferno» chamou a atenção dos adultos para o cantor predileto de seus filhos, pelo fato de ter incorporado à sua letra uma imprecação, bastante usada, mas ainda recebida com certa reserva pelos mais velhos. 
Passada, porém, a primeira impressão dos adultos, foram eles mesmos os principais divulgadores da composição que lhes possibilitava uma válvula de escape. O estribilho «e que tudo o mais vá pro inferno» deixou de ser apenas o encontro de uma boa rima para sintetizar o desinteresse da geração moça ante os padrões da sociedade constituída e o desencanto dos adultos diante de uma situação política que não evoluiu na medida de suas expectativas. 
A composição, naturalmente, não foi intencional, contudo, incluiu uma frase que todos estavam pensando. A aceitação foi rápida porque todos reconheceram na letra da nova música um pouco de sua autoria, sentindo-se também co-autores. 
O mandar alguma coisa para o inferno já faz parte das expressões brasileiras usadas normalmente e expressa bem a atitude de quem, impossibilitado ou cansado de fazer alguma coisa, dela se desinteressa. Tem força de imprecação e sempre revela um descontentamento ou desânimo. 
Para os jovens, a expressão representou o retorno a uma posição individualista, de simples defesa dos próprios interesses. Contraposta, portanto, à precedente atitude de preocupação coletiva da «bossa nova», caracterizada por uma oposição construtiva. «Vá tudo pro inferno» sintetizou a posição do jovem que diante de problemas que lhe são apresentados, reage com um «que me importa?», numa demonstração de uma precoce acomodação, de um desinteresse por tudo aquilo que ultrapasse seu desejo de ser «aquecido no inverno», ou seja, de ter suas necessidades individuais satisfeitas. 
Para alguns, os versos «quero que você me aqueça neste inverno e que tudo o mais vá pro inferno» revelam, também, uma irresponsabilidade ética diante do amor, considerado como uma simples aventura temporal e inconseqüente. Nesta interpretação, a atitude imediata, é uma outra demonstração do revigoramento do individualismo entre a juventude «ié-ié-ié». 
Entre os adultos, todavia, o motivo determinante da aceitação da música, está ligado à necessidade de desabafo e, de algum modo, a frustrações de ordem política. A classe média, principalmente, que desempenhou papel relevante no movimento contrário ao governo Goulart, não se considera satisfeita com a situação atual e não esconde suas decepções. Isto porque esperava, de imediato, uma atitude mais drástica do governo para com os corruptos e porque se vê atingida, em cheio pela política econômica, responsável pela redução do seu poder aquisitivo. 
Assim, os adultos juntaram-se aos jovens no cântico -da melodia que lhes permitiu externar um pouco do seu sentimento. A questão da disponibilidade de liderança aqui também Se aplica, pois os seguidores dos líderes esvaziados unem-se aos" demais e também desejam que «tudo o mais vá pro inferno»,' numa demonstração de desinteresse. 

b) Desafogo e solidão 
Depois, há problemas de outra ordem. A população urbana, contida em apartamentos pequenos, apertada nos coletivos, posta em filas de cinemas e teatros e, ainda sofrendo as conseqüências da falta de planejamento das grandes cidades, precisa desabafar para poder sobreviver. O desabafo do «vá tudo pro inferno», embora nada solucione, traz um certo alívio da tensão diária para aquele que, mesmo em casa, não pode se- descuidar para não incomodar o vizinho que vive sob o seu apartamento. 
Acrescentam-se ainda, os problemas próprios do trabalho, o trânsito que congestiona, a água que falta, o telefone que não dá linha ou o ônibus que não pára e passa lotado, tudo num desafio constante ao habitante da cidade grande. Para a juventude, além desses problemas, há o da dificuldade de diálogo com a geração de seus pais.
Criados numa fase em que o mundo se desenvolve abruptamente no campo da tecnologia e da ciência, os jovens têm uma nova compreensão da vida, bem diferente da que tiveram e ainda têm os adultos. Daí, sentirem-se incompreendidos e sozinhos na cidade que tem excesso de população. 
A mesma composição que manda «tudo pro inferno» fala, também, na existência dessa solidão entre os jovens. «Onde quer .que eu ande tudo é tão triste» e o lamento de que a «solidão me dói» certificam a existência na juventude de um vazio, nascido da incompreensão. Parece que a mocidade não tem recebido a atenção, a assistência e o carinho devidos pelos pais e adultos a ela mais achegados. 
Procuram, então, chamar a atenção sobre sua tristeza, enquanto explicam que de pouco lhes vale as vantagens de uma vida de «play-boy» e as facilidades proporcionadas pela posse de um carro, se a solidão lhes acompanha e torna a sua existência fria, como um inverno. O inverno não seria, portanto, a estação do ano em que o jovem deseja ser aquecido, mas a metáfora encontrada para designar a sua situação solitária e a frieza conseqüente da falta de afeto. 
A composição que exerceu o papel preponderante na ascensão e êxito de Roberto Carlos parece ter resumido, de forma bastante feliz, as diversas tendências e anseios da juventude e da maioria dos adultos. O verso rebelde e irreverente, o desinteresse, o individualismo, a acomodação, o lamento e a petição de afeto e carinho coexistem na mesma melodia. 
Comentários do Barbieri
Eu comprei este livro num sêbo perto da Praça da Sé em São Paulo lá pelo princípio de 1980. Este livro acabou vindo para Londres onde vivo e agora faz parte da minha bibliotéca. Paara colocá-l aqui neste site, com um scanner "escaneei" todas as páginas do livro, incluindo a capa e, depois usei um programa OCR (optical caracter recognizer) para checar todas as página usando um programa de inteligêcia artificial e assim transformar os "scans" num documento em Microsoft Word. Como o texto do livro foi encrito nos anos 60, com o Word fiz a correção do texto. O texto então foi reeditado para este web site. Todo cuidado foi tomado para evitar problemas horotgráfico e de compreenção de  texto. Se o caro leito encontrar algum problema ficarei feliz em ser comunicado para poder fazer a correção.
Direitos Autorais
Queremos deixar claro que não estamos tendo nenhum benifício financeiro com a publicação online deste texto. Nosso intuito é puramente educacional uma vez que este livro está esgotado. Se o autor ou a editora tiver alguma objeção quanto a publicação onlide deste material, peço-lhes que se comuniquem conosco imediatamente para que, com pesar, retiremos este documento do nosso site.

CAPÍTULO IV O PAPEL DA PROPAGANDA NA CRIAÇÃO DE IMAGENS

A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JOVEM GUARDA 
Escrito por Rui Martins
Publicado pela Editora Fulgor em 1966 
CAPÍTULO IV 
O PAPEL DA PROPAGANDA NA CRIAÇÃO DE IMAGENS 

a) Futebol e queda de audiência na televisão 
Os aficionados de Roberto Carlos preferem, evidentemente, ignorar os motivos apresentados por sociólogos, psicólogos ou psiquiatras para explicar o êxito alcançado por seu ídolo. Basta-lhes o fato de o cantor ser hoje um sucesso sem precedentes. Têm mesmo uma certa antipatia por todos aqueles interessados em encontrar as prováveis causas, pois há um certo mistério no seu ídolo que deve ser preservado. 
De certa forma possuem alguma razão, pois as condições de ordem social ou psíquica existentes no instante do aparecimento do ídolo não seriam suficientes para explicar seu êxito. Boa parte deveu-se à associação de Roberto Carlos com técnicos de publicidade dotados de grande poder criador. 
Naturalmente, entre a juventude nacional dos centros urbanos existia predisposição para a aceitação de um líder que atendesse determinados anseios. Roberto Carlos surgiu porque na sua pessoa eram atendidos esses anseios. Entretanto, tudo parece indicar que qualquer outro jovem, possuidor de personalidade semelhante à de Roberto Carlos, poderia alcançar o mesmo êxito se fosse bem lançado pela publicidade. 
À criação· do ídolo Roberto Carlos estão vinculados o Canal 7, Paulo Machado de Carvalho e a empresa de publicidade Magaldi, Maia & Prosperi. Apesar de parecer meio absurdo, na criação de condições favoráveis ao aparecimento do cantor do «ié-ié-ié», papel preponderante foi desempenhado pelos clubes de futebol de São Paulo. 
Tudo começou quando os clubes de futebol, alegando crescente queda na arrecadação, proibiram a transmissão dos prélios esportivos pela televisão. Todos os telespectadores paulistanos já estavam habituados ao seu programa esportivo domingueiro e a proibição deixou-os sem ter o que assistir. A televisão perdeu, assim, um grande número de te1espectadores que, religiosamente', acompanhavam as transmissões das partidas futebolísticas. 
As pesquisas que setores especializados realizam, sistemàticamente, para saber da audiência dos diversos canais de televisão entre a população, passaram a revelar um grande número de televisores desligados durante as tardes de domingo, enquanto as pessoas que mantinham seus aparelhos ligados não demonstravam interesse específico por nenhum programa existente naquele horário. No lugar das transmissões esportivas ficara, então, um hiato, cuja audiência era mínima e que precisava ser conquistado. 
No Canal 7, as preocupações eram maiores, pois durante as transmissões esportivas era ele que acusava maior audiência. A mudança de situação atingiu, é óbvio, seus interesses comerciais, pois se não há audiência não há também anunciante. Acresce ainda ter a queda de audiência nos domingos afetado a média semanal, passando a emissora a ocupar um lugar inferior em comparação com suas concorrentes. 
Surgiu, nesse momento, a idéia de se fazer um programa com bastante música e alegria, dedicado à juventude. Participariam dele jovens cantores, em início de carreira, que tivessem algum prestígio entre a mocidade. Para liderar o programa, Paulo Machado de Carvalho lembrou-se de Roberto Carlos, cantor que ele considerava possuir todo o «charme» exigido pelo lugar. O jovem já havia tido sucesso com algumas músicas e possuía uma fisionomia bastante simpática, capaz de conquistar os telespectadores. Prova disto fora a música «Não quero ver você triste», pràticamente uma declamação, muito bem recebida pelo público juvenil. 
Para Paulo Machado de Carvalho as características próprias de Roberto Carlos (um ar de tristeza misturado com ternura e bondade) poderiam cativar uma boa parcela de jovens e permitir a elevação do índice de audiência da Televisão Record. Os técnicos em publicidade Magaldi, Maia e Prosperi foram ouvidos a respeito e também acreditaram no empreendimento. 
Como estivessem em negociações com uma grande loja de roupas, interessada em patrocinar um programa de jovens para vender seus produtos nessa área, os publicitários adquiriram, então, o programa com idéias de transferi-lo a essa firma. Entretanto, a pouca audiência do horário e o fato de o programa ser novo impediu a consumação do negócio. Alegou a firma que o programa poderia não pegar e que o jovem animador, com seus cabelos compridos, tinha uma certa aparência «acafajestada». 
A vista disso, os publicitários elaboraram um cuidadoso plano para o programa, acompanhado de um estudo demonstrando sua possibilidade de atingir a juventude. Consultaram duas grandes empresas, ligadas ao mercado juvenil, e tiveram respostas negativas. As reservas eram as mesmas, continuando a existir restrições à figura do jovem cantor. No fundo, estas empresas receavam ferir as susceptibilidades dos adultos e de incorrer no perigo de perder o seu mercado de pessoas conservadoras. 

b) O registro da marca «Calhambeque» 
Diante da negativa sistemática das empresas consultadas e dos ônus decorrentes da sustentação do programa «Jovem Guarda» sem anunciante, Magaldi, Maia e Prosperi resolveram tomar o programa para si mesmos. Examinaram, portanto, tudo quanto estivesse ligado à personalidade do cantor Roberto Carlos e chegaram à conclusão de que uma música de grande sucesso permitia a criação de um símbolo comercial. A música era «Calhambeque» e seu nome. foi registrado, imediatamente, como marca de propriedade da agência de publicidade. 
Sócio da agência nesse empreendimento, Roberto Carlos passou a anunciar os produtos «Calhambeque» que, pouco a pouco, foram se tomando o traço marcante da «Jovem Guarda», como se passou a designar o novo movimento juvenil. Colocada a questão nestes termos, além daqueles que passaram a comprar os produtos «Calhambeque» pela oportunidade que traziam de identificação com o ídolo, muitos foram obrigados aderir para não serem chamados de quadrados pelos seus colegas. Assim, a força da propaganda instituindo uma nova moda para adolescentes, crianças e jovens, adquiriu feições de compulsão social. 
Atualmente, os produtos «Calhambeque» incluem calças, saias, chapéus, cintos, sapatilhas, botinhas, blusas de inverno, blusões de couro, chaveiros, bolsas e fichários escolares, havendo um mercado sequioso para adquiri-los. A fim de manter relações bastante cordiais com os pais dos jovens adolescentes e crianças, os publicitários selecionam os produtos que desejam usar a marca «Calhambeque». mês sabem que o mercado juvenil e infantil terá bons compradores enquanto os pais prestigiarem a Jovem Guarda e a considerarem como divertimento inofensivo. Há, portanto, a necessidade de tomar-se certas precauções para satisfazer uma sociedade que é bastante moralista e até quase puritana na educação dos filhos, embora permita certas liberdades para os adultos. 
Daí, terem negado a marca para bebidas. Muitos país se decepcionariam com o cantor, cuja imagem para eles é pura e ingênua, e passariam a hostilizar o movimento juvenil. Aliás, é interessante repetir-se que a Jovem Guarda, apesar de querer ser um movimento independente de juventude, como oposição ao mundo já estruturado, tem toda aprovação e tutela dos adultos. Isto porque ela não ameaça ninguém e nem põe em dúvida as verdades aceitas pela sociedade. Pelo contrário, parece animar os jovens uma pureza de propósitos e uma ingenuidade de adolescentes que encantam os adultos. A oposição fica apenas nas roupas e nos cabelos e, portanto, é inofensiva. 
Não é a agência de publicidade quem fabrica os produtos «Calhambeque», ela apenas cede o uso da marca às indústrias interessadas,  mediante o pagamento de «royalties». Para a confecção das calças, por exemplo, é cobrado um «royalty» por dois metros de tecido utilizado. O tecido é fabricado por uma indústria têxtil com exclusividade para a Magaldi, Maia & Prosperi. 
Desse modo, a agência estabelece um mecanismo de controle sobre o volume de produtos fabricado pelo confeccionista, cujo contrato assinado estabelece especificações de fabricação, colocação de etiquetas e modelo, ao mesmo tempo que garante ampla cobertura publicitária do produto. O controle para outros produtos baseia-se em estimativas de produção e vendas. 
Os produtos «Calhambeque» têm sido vendidos, por enquanto, apenas nas grandes capitais, onde a mocidade se identifica de pronto com o cantor. Entretanto, se o êxito de Roberto Carlos permanecer, a agência publicitária pretende vender esses produtos em todo o Interior, sabendo que o consumidor juvenil do Interior procura sempre imitar os movimentos verificados entre os jovens das metrópoles. 
Levando-se em conta o fato de que mais de 53% da população brasileira tem menos de 20 anos de idade, pode-se avaliar a importância do movimento Roberto Carlos, no aspecto comercial, por ter chamado a atenção para esse enorme mercado de consumidores considerados, até, há pouco, como existente apenas em potencial.

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