1 de jan de 2012

O CHEFE - Capítulo 5 - O escândalo do dossiê: flagrante de R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo

Capítulo 5

O escândalo do dossiê: flagrante de R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo

Lula conseguiu o que parecia impossível. Sobreviveu ao escândalo do mensalão. Mais que isso: não perdeu a popularidade e se tornou o favorito à própria sucessão. Provavelmente teria sido reeleito já no primeiro turno das eleições de 2006, não fosse um outro escândalo.
No País da corrupção e da impunidade, tamanha desfaçatez, duas semanas antes do pleito, talvez se explique pela crença de que após se livrar do episódio do mensalão nada mais poderia pegá-lo. Lula e o PT sentiram-se livres para delinquir novamente.
O novo esquema de corrupção serviu para levar as eleições ao segundo turno e confirmar os métodos daqueles que durante 20 anos, até a conquista do poder, definiram a si próprios como paladinos da ética na política.
A história começou em 15 de setembro de 2006, quando dois homens foram presos pela Polícia Federal no hotel Ibis Congonhas, em São Paulo, com o equivalente a R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo. Um deles, o empresário Valdebran Carlos Padilha da Silva, ligado ao PT de Mato Grosso, foi apontado como lobista, receptador e próximo ao deputado Carlos Abicalil (PT-MT). Foi tesoureiro da campanha de Alexandre César (PT) a prefeito de Cuiabá.
Valdebran Padilha mantinha ligações com Carlos Bezerra, que foi presidente do PMDB de Mato Grosso e presidente do INSS (Instituto Nacional de Seguro Social), no governo Lula. Além disso, tinha sido citado no escândalo do mensalão. Com Valdebran Padilha foram apreendidos R$ 758 mil em reais e outros US$ 109,8 mil em moeda norte-americana.
O outro homem preso no hotel em São Paulo, o advogado e ex-agente da Polícia Federal Gedimar Pereira Passos, também era ligado ao PT. Com ele acharam R$ 410 mil e outros US$ 139 mil em dólares. Gedimar Passos fazia parte da equipe da campanha de Lula à reeleição. Trabalhava no núcleo de inteligência do comitê eleitoral, encarregado de "tratamento de informações".
As escutas telefônicas que levaram às prisões registraram diálogos sobre uma negociação envolvendo a venda de materiais e documentos, com a finalidade de associar os candidatos do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin (SP), e ao Governo de São Paulo, José Serra, a operações de superfaturamento para a aquisição de ambulâncias por prefeituras, um esquema criminoso que ficou conhecido como a máfia dos sanguessugas.
As escutas telefônicas implicariam ainda o empresário Luiz Antônio Trevisan Vedoin, acusado de chefiar o esquema de venda das ambulâncias, e a revista Isto É, por ter publicado entrevista de Luiz Antônio Trevisan Vedoin com acusações a integrantes do PSDB. Luiz Antônio Vedoin foi preso. Por tratar da compra e venda de materiais e documentos, o caso ficou conhecido como o escândalo do dossiê.
Em depoimento à Polícia Federal, Gedimar Passos confessou ter sido contratado pela direção executiva nacional do PT para acertar com a família Vedoin, dona da empresa Planam Comércio e Representação, a compra de um dossiê contra políticos tucanos. A transação com os Vedoin traria em seu bojo, ainda, a entrega de uma papelada de 2 mil páginas com diversas denúncias, inclusive contra o próprio PT. Com a operação, o calhamaço seria tirado de circulação e não poderia mais ser usado contra o partido de Lula.
No depoimento, Gedimar Passos mencionou acordo entre o PT e um "órgão de imprensa" para a divulgação dos documentos de interesse da campanha do presidente Lula. Informou que R$ 1 milhão já teria sido entregue antecipadamente a um representante dos Vedoin.
Gedimar Passos implicou no escândalo um assessor especial da Presidência da República. Tratava-se de Freud Godoy, amigo de Lula havia 20 anos. Ele teria participado da trama ao providenciar o dinheiro para comprar o dossiê, entregando-o a ele próprio, Gedimar Passos, por intermédio de dois emissários do PT. Dias depois, Gedimar Passos voltaria atrás: retirou a informação e eximiu Freud Godoy de qualquer responsabilidade. Dessa forma, blindou Lula e ajudou a livrá-lo do escândalo.
Freud Godoy foi segurança pessoal de Lula desde o final da década de 80. Frequentava o apartamento do presidente em São Bernardo do Campo (SP). Para se ter ideia da ligação dos dois, quando Lula assumiu a Presidência da República, em janeiro de 2003, levou Freud Godoy para morar com o casal presidencial na residência oficial do Palácio da Alvorada. O segurança também era figura certa em viagens no avião presidencial, o Aerolula.
Imediatamente, Freud Godoy pediu exoneração do cargo de assessor especial e abandonou a sala que ocupava no terceiro andar do Palácio do Planalto, a poucos metros do gabinete de Lula. À Polícia Federal, Freud Godoy admitiu conhecer Gedimar Passos e o relacionou à contratação da empresa Caso Sistemas de Segurança, de propriedade de sua mulher, jornalista Simone Godoy, pelo comitê do PT em Brasília.
Freud Godoy introduziu mais um personagem importante da história: Jorge Lorenzetti, outro amigo pessoal de Lula, encarregado de preparar churrascos para o presidente. Mais do que churrasqueiro oficial de Lula, Jorge Lorenzetti, chefe de Gedimar Passos, era tido como "o homem da inteligência", escolhido por Lula para, entre outras coisas, cuidar de campanhas eleitorais em Santa Catarina. Nesse Estado foi fundador do PT e da CUT (Central Única dos Trabalhadores, ligada ao partido) e o primeiro candidato petista a prefeito de Florianópolis, em 1985.
Na campanha de reeleição de Lula, em 2006, Jorge Lorenzetti foi nomeado para a sinistra posição de "analista de mídia e risco". Com tal objetivo licenciou-se do cargo de diretor administrativo do Besc (Banco do Estado de Santa Catarina), um banco federal, para o qual fora nomeado por influência de Lula. Jorge Lorenzetti mantinha ligações com José Dirceu (PT-SP), cassado por corrupção em 2005, e era conhecido arrecadador de fundos internacionais.
De acordo com Freud Godoy, Jorge Lorenzetti o apresentou a Gedimar Passos, a quem não conhecia, o que teria ocorrido em agosto de 2006, apenas um mês antes de o escândalo explodir. Foi no Diretório Nacional do PT, em Brasília. Gedimar Passos era o responsável pela segurança e a logística do comitê político de Lula.
Durante aquele mês, Freud Godoy admitiu ter se reunido em outros quatro momentos com Gedimar Passos, mas apenas a fim de discutir o processo de varredura nos telefones do comitê, trabalho para o qual a empresa em nome de sua mulher, Simone Godoy, fora contratada.
Freud Godoy também teria ligações com Sérgio Gomes da Silva, o "Sombra", outro segurança famoso que se tornou empresário, acusado de envolvimento na morte do prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel (PT).
Antes da eleição de Lula em 2002, Freud Godoy era chefe de segurança da Prodam, a empresa de processamento de dados da Prefeitura de São Paulo, na gestão da prefeita Marta Suplicy (PT). A Caso Sistemas de Segurança, em nome de Simone Godoy, também trabalhou na área de segurança da campanha de Marta Suplicy à reeleição, em 2004.
O escândalo do dossiê repercutiu em todo o País. No depoimento que prestou à Polícia Federal, Gedimar Passos mencionou a revista Época: teria sido procurada por integrantes do PT, cuja missão seria a de garantir a publicação da notícia do dossiê contra o PSDB na grande imprensa. A investida não prosperou.
A revista, no entanto, emitiu nota para informar que Oswaldo Bargas, o "Valdo", responsável pelo setor de "trabalho e emprego" na campanha da reeleição de Lula, pediu uma reunião com jornalistas para apresentar denúncia contra políticos tucanos. Oswaldo Bargas também era amigo pessoal de Lula.
Na reunião, no hotel Crowne Plaza, em São Paulo, Oswaldo Bargas apareceu acompanhado de Jorge Lorenzetti, o amigo e churrasqueiro de Lula. Em relação a Jorge Lorenzetti, aliás, vieram à tona informações segundo as quais a Unitrabalho, uma fundação vinculada a universidades e a instituições de ensino superior, recebeu, por meio de convênios, R$ 18,5 milhões durante o governo Lula, a maior parte por intermédio do Ministério do Trabalho. Jorge Lorenzetti foi apontado como colaborador da Unitrabalho. Com o nome nos jornais, ele se afastou da campanha de Lula.
Antes de afastar-se, porém, Oswaldo Bargas envolveu outro peixe graúdo na história: o presidente do PT e coordenador-geral da campanha de Lula, o ex-ministro do Trabalho e deputado Ricardo Berzoini (PT-SP). Detalhe: a mulher de Oswaldo Bargas, Mônica Cristina Zerbinato, ocupava o cargo de secretária particular de Lula. Como se vê, tudo em família.
Segundo Oswaldo Bargas, que trabalhou com Ricardo Berzoini no Ministério do Trabalho, Ricardo Berzoini sabia que ele, Oswaldo Bargas, acompanhado de Jorge Lorenzetti, procuraram a revista Época para negociar a publicação de reportagem contra o PSDB.
Lula foi rápido no gatilho e afastou Ricardo Berzoini da coordenação da campanha. Em seguida, Ricardo Berzoini também perdeu o cargo de presidente do PT. Recuperaria-o depois da reeleição de Lula, com o apoio do presidente. Oswaldo Bargas também foi defenestrado. Um a um, caíram os homens do presidente naquele momento.
O caso do dossiê não parou de trazer revelações. Freud Godoy manteve relações com um dos próceres do escândalo do mensalão, o empresário Marcos Valério. A Caso Comércio e Serviços, uma segunda empresa ligada ao segurança-empresário, recebeu R$ 98,5 mil da SMPB Comunicações, uma das agências de publicidade de Marcos Valério.
Até a Duda Mendonça e Associados, igualmente famosa durante o escândalo do mensalão, pertencente a Duda Mendonça, o publicitário marqueteiro de Lula durante a campanha de 2002, pagou R$ 22,8 mil à Caso Sistemas de Segurança, de Simone Godoy. E mais: a Caso Sistemas de Segurança teria servido para o investidor Naji Nahas fazer um depósito de R$ 396 mil em favor de Freud Godoy, cerca de um mês antes da eclosão do escândalo do dossiê. Naji Nahas negou.
A sede da empresa de segurança em nome de Simone Godoy ficava em Santo André, onde o casal morava em apartamento luxuoso. Freud Godoy também era dono de um sobrado na cidade e de outro apartamento, este a poucas quadras do apartamento de Lula, na vizinha São Bernardo do Campo. O Ministério Público Federal abriu investigação para apurar um suposto saque de R$ 150 mil feito por Freud Godoy, em março de 2006.
Mais um nome no escândalo do dossiê: Expedito Afonso Veloso, filiado ao PT e diretor do Banco do Brasil em Brasília, onde exercia a função de responsável por "gestão de risco". Estava em licença remunerada, para participar da campanha de Lula. Quem mencionou o nome dele foi Valdebran Padilha. Expedito Veloso teria participado da preparação do dossiê e da estratégia para divulgá-lo, em negociação ocorrida em Cuiabá, com o empresário Luiz Antônio Vedoin.
Expedito Veloso acompanhou a entrevista de Vedoin a Isto É, ao lado de Oswaldo Bargas. Também esteve no hotel Ibis Congonhas, em São Paulo, onde o escândalo começou, com a apreensão do R$ 1,7 milhão. Descoberto, pediu demissão do Banco do Brasil e abandonou a campanha. Apesar de afastado do banco, Veloso continuava a receber salário de R$ 17 mil por mês.
Outro envolvido foi Hamilton Lacerda, coordenador da campanha do senador Aloizio Mercadante (PT-SP) a governador de São Paulo em 2006. Foi três vezes vereador pelo PT de São Caetano do Sul (SP). Até ser envolvido no escândalo, Hamilton Lacerda também exercia o cargo de assessor parlamentar de Aloizio Mercadante. Entre as explicações da revista Isto É para o caso, estava a de que Hamilton Lacerda atuou como intermediário da entrevista em que os Vedoin fizeram acusações contra José Serra.
O coordenador de Aloizio Mercadante reuniu-se com jornalista da revista e marcou o encontro entre a reportagem e Luiz Antonio Vedoin, em Cuiabá. Descobriu-se durante as investigações que as viagens e passagens aéreas dos assessores do PT à capital de Mato Grosso, para negociar o dossiê, teriam sido pagas com dinheiro do caixa da campanha de Lula.
Apanhado, Hamilton Lacerda foi forçado a deixar a campanha de Aloizio Mercadante. O senador, por sua vez, admitiu ter se encontrado com Osvaldo Bargas e Expedito Veloso, dez dias antes da apreensão do R$ 1,7 milhão. Mas garantiu não ter tomado conhecimento da operação para prejudicar José Serra, seu adversário direto na disputa pelo Governo de São Paulo.
Para a Polícia Federal, Hamilton Lacerda levou o dinheiro apreendido ao hotel Ibis Congonhas. Ele foi filmado por câmeras de segurança no saguão do hotel, um dia antes das prisões. Portava uma mala. As imagens não deixaram dúvidas: o homem com cabelos grisalhos, um pouco tenso, entrou no lobby do hotel por volta das 8 horas da manhã. Nas mãos de Hamilton Lacerda, a mala preta de viagem, com a alça em volta do ombro esquerdo, para ninguém roubar a preciosa carga. Ele estava acompanhado de Gedimar Passos. Os dois pegaram o elevador. As câmeras também o filmaram andando pelo corredor onde ficava o quarto em que Gedimar Passos estava hospedado. Hamilton Lacerda entrou no quarto. Saiu em seguida. Sem a mala.
Mais tarde, Gedimar Passos foi filmado com a mesma mala, caminhando em direção ao restaurante do hotel. Foi fazer uma refeição, mas preferiu não deixar a preciosa carga no quarto. Na madrugada do dia 15, horas antes das prisões, Hamilton Lacerda voltou ao Ibis Congonhas. Desta vez, portava uma maleta e uma sacola plástica. Foi embora pouco depois. Sem a sacola. Para a Polícia Federal, ele fora levar uma segunda remessa de dinheiro ao hotel. O R$ 1,7 milhão não teria cabido em uma só mala.
Trecho do depoimento de Hamilton Lacerda à Polícia Federal: "O declarante informa que, provavelmente na última semana de agosto, foi contatado por Jorge Lorenzetti e Expedito Veloso, afirmando que existiam documentos em Cuiabá relacionados à ‘máfia dos sanguessugas’ e que poderiam ser utilizados na campanha em desfavor dos candidatos do PSDB, caso fossem verdadeiros; que o material existente teria um reflexo negativo na campanha nacional e estaduais onde concorresse o PSDB".
Ou seja, a campanha de Lula seria diretamente beneficiada pela operação. Quando as fotografias da montanha de dinheiro apreendida no Ibis Congonhas apareceram nos jornais, o PT tentou impedir a divulgação das imagens nos programas eleitorais. Não conseguiu. A reeleição de Lula teve de ficar para o segundo turno.
Em entrevista ao jornal O Globo, Lula foi questionado se perguntou aos envolvidos no escândalo, quase todos ligados historicamente a ele e ao PT, sobre quem teve a ideia de comprar o dossiê e qual era a origem do dinheiro. Resposta do presidente:
- Não perguntei nem perguntarei.
Tradução: Lula não sabia de nada, como sempre, nem se interessava em saber. Mais uma vez, porém, era beneficiário de um esquema de corrupção.
As investigações sobre o escândalo do dossiê continuaram no segundo mandato de Lula. Avançaram pouco, porém, resvalando sempre no falso dilema e na desculpa de que não havia sido descoberta a origem do R$ 1,7 milhão. O importante deveria ter sido o fato de que havia o dinheiro, devidamente apreendido, e que uma quadrilha fora desbaratada num ato criminoso. E que várias pessoas envolvidas acabaram desligadas de seus cargos, inclusive da campanha eleitoral do presidente da República.
A CPI dos Sanguessugas, responsável pela investigação do caso do dossiê em âmbito do Congresso Nacional, encerrou os trabalhos sem apontar nada consistente. Não responsabilizou ninguém. A Polícia Federal, encarregada da apuração do crime, chegou a acusar Jorge Lorenzetti, Osvaldo Bargas, Expedito Veloso e Gedimar Passos, todos homens da campanha de Lula, como os autores da operação.
Dos quatro, no entanto, acabou indiciando apenas Gedimar Passos, preso com o dinheiro no hotel Ibis Congonhas. Foi acusado de lavagem de dinheiro. Resumo da ópera: Lula foi blindado, mais uma vez.
Ao tirar o foco do Palácio do Planalto, a Polícia Federal tratou de culpar o senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Além de Gedimar Passos, indiciou Valdebran Padilha, que fora preso com ele segurando a bolada, Hamilton Lacerda, o coordenador da campanha de Aloizio Mercadante, José Giácomo Baccarin, tesoureiro de Aloizio Mercadante e suspeito de ser o dono do caixa 2, além do próprio candidato petista a governador, que seria beneficiado com a divulgação do dossiê.
Interessante notar que o relatório da Polícia Federal afirmava que Hamilton Lacerda, indiciado por lavagem de dinheiro, só fora chamado posteriormente a participar da ação, pelos quatro homens da campanha de Lula, sendo que três deles, como vimos, foram inocentados no final.
Ao justificar a acusação a Hamilton Lacerda, a Polícia Federal registrou que o coordenador da campanha de Aloizio Mercadante era "pessoa da confiança do senador, não se imaginando que fosse tomar uma atitude daquela responsabilidade e risco sem sua anuência".
Outro trecho do relatório da Polícia Federal: "A alegação do candidato Aloizio Mercadante de que não teria autorizado ataques ao seu rival político José Serra e que, por consequência, nada sabia do dossiê, nos aparenta, no mínimo, inverossímil".
Mas ficou nisso. O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, pediu o arquivamento da denúncia contra Aloizio Mercadante. O STF (Supremo Tribunal Federal) acatou. E seis meses após as eleições foi a vez do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) arquivar investigação judicial para apurar abuso do poder econômico e político por parte de Lula no escândalo do dossiê. O País da corrupção e da impunidade seguiu o mesmo. 

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O CHEFE - Capítulo 4 - A história do 'acordo criminoso' da chapa Lula/José Alencar em 2002

Capítulo 4

A história do 'acordo criminoso' da
chapa Lula/José Alencar em 2002

A revelação dos detalhes da negociação entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido Liberal para acertar a chapa Lula/José Alencar que disputaria a Presidência da República em 2002 constituiu um dos episódios mais graves da era Lula. Não teve a repercussão merecida. A verdade é que não houve entendimento político em torno de propostas para o País, nem tampouco o debate sobre um programa de governo. Tratou-se de dinheiro, apenas. De quanto o PT repassaria para o PL, a fim de obter apoio do partido ao qual era filiado o homem que Lula desejava como seu vice-presidente.
Ao denunciar o escândalo do mensalão, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, qualificou a aliança eleitoral entre PT e PL de "acordo criminoso". Ele acusou o deputado cassado José Dirceu (PT-SP) e os presidentes nacionais das duas legendas, deputado José Genoino (PT-SP) e o na época ex-deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP), que havia renunciado para se livrar de eventual cassação do mandato por quebra de decoro. Mas deixou de fora Lula (PT-SP) e José Alencar (PL-MG). Trecho da denúncia encaminhada ao STF (Supremo Tribunal Federal), na qual o procurador-geral abordou as operações de lavagem de dinheiro com as quais o PT pagou o PL:
"De fato, consciente de que os montantes eram oriundos de organização criminosa voltada para o cometimento de crimes contra a administração pública e contra o sistema financeiro nacional, os denunciados articularam mecanismo para dissimular a origem, natureza e destino dos valores auferidos."
A história do acordo PT/PL quase não repercutiu porque foi revelada num dos momentos mais graves do escândalo do mensalão e acabou ofuscada pela enxurrada de acontecimentos. A revista Época que trouxe a entrevista com Valdemar Costa Neto confessando a operação de suborno circulou em 13 de agosto de 2005, no dia seguinte àquele em que Lula admitiu ter sido "traído por práticas inaceitáveis" e afirmou não ter vergonha de dizer ao povo brasileiro "que nós temos de pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas".
Lula, aliás, jamais iria apontar quem o traíra. Nem tampouco é o caso de simplesmente pedir desculpas para se livrar de atos criminosos. Lula procurava ganhar tempo na tentativa de reduzir os danos do depoimento do publicitário Duda Mendonça à CPI dos Correios, ocorrido na véspera. Talvez tenha sido o fato mais marcante da crise. O homem responsável pela campanha que elegera o presidente da República confessara o recebimento de R$ 11,9 milhões em caixa 2. Dinheiro repassado por Marcos Valério, e que serviu para pagar os serviços prestados a Lula por Duda Mendonça em 2002. Para muitos analistas, teria sido o momento certo para deflagrar o processo por crime de responsabilidade contra Lula, cuja pena seria o seu impeachment.
Neste contexto, chegava às bancas de jornal a revista Época com a entrevista de Valdemar Costa Neto concedida aos repórteres Thomas Traumann e Gustavo Krieger. Como se sabe, Valdemar Costa Neto foi um dos artífices da aliança PT-PL. Ele dera os detalhes do acordo:
- Tudo começou nas negociações para fechar o apoio a Lula em 2002, com José Alencar, do PL, como vice. Tivemos muitas reuniões em Brasília, na casa do José Dirceu. Sempre participavam o João Paulo Cunha, quase sempre o Silvio Pereira, sempre o Delúbio Soares, além do José Alencar.
Valdemar Costa Neto contou que, com a aprovação da verticalização das eleições, ou seja, com a obrigatoriedade de as alianças regionais seguirem a coligação nacional, o PL precisou de dinheiro:
- A questão é que o PL precisava ter 5% dos votos para ter as verbas do fundo partidário. Com a verticalização, as nossas chances de chegar a 5% eram pequenas, porque só poderíamos coligar com o PT. Falei para o Zé Dirceu: "Para isso, preciso de uma estrutura muito maior para segurar meu pessoal". Ele falou: "Mas quanto?" Eu falei: "R$ 15 milhões, R$ 20 milhões".
O PT dizia não ter dinheiro. Valdemar Costa Neto envolveu Lula e Alencar:
- Já estávamos fazendo uma nota conjunta dizendo que a coligação PT-PL não ia sair quando me liga o Zé Alencar. Eu contei a ele que não conseguimos chegar a um número. "Não vou prejudicar nosso pessoal todo em troca de uma aliança", falei. O Zé Alencar disse para eu não assinar a nota conjunta. Daí 15 minutos, ele ligou e disse que o Lula viria no dia seguinte a Brasília resolver o assunto.
Ficou claro o envolvimento de Lula. Valdemar Costa Neto dissera que não se chegara a "um número", Alencar pediu um tempo e em 15 minutos telefonou e informou que Lula viajaria a Brasília para resolver. A negociação:
- A reunião foi no apartamento do deputado Paulo Rocha. Estavam lá o Lula, o José Alencar, o Dirceu e o Delúbio. O Lula chegou para mim e disse: "Quer dizer então que você é o nosso problema?" "Não posso matar o nosso pessoal", respondi. O Zé Dirceu não queria falar de dinheiro, queria negociar a participação no governo: "Valdemar, vamos governar juntos?" Respondi: "Mas, desse jeito, não vai sobrar ninguém na Câmara para governar junto com vocês". Depois o Lula até falou para o Zé Alencar: "Vamos sair porque esta conversa é entre partidos, não entre candidatos". Daí o Delúbio chegou perto de mim e disse: "Vamos conversar".
- E vocês falaram de números...
- O Lula e o Alencar ficaram na sala e fomos para o quarto eu, o Delúbio e o Dirceu. Eu comecei pedindo R$ 20 milhões, para levar uns R$ 15 milhões. Daí, ficou aquela discussão. Uma hora, o Zé Alencar entrou e falou: "E aí, já resolveram?" Eles achavam que iam arrecadar R$ 40 milhões. Eu falei: "Tira R$ 15 milhões para a gente. É justo". Eles ameaçaram ir embora. O Lula mandou ligar para o Patrus Ananias e avisou que, se a conversa não desse certo, ele seria o candidato a vice na chapa. Uma hora, o Dirceu chegou a dizer "acabou". Eles batiam tanto o pé comigo que eu pensei: "Ô povo firme. Esses vão me pagar rigorosamente em dia". Daí chamei o Zé Dirceu de volta para o quarto. O Zé Alencar veio junto. Falei: "Vamos acertar os R$ 10 milhões". Voltamos para a sala e avisamos: "Está fechado". Lembro ainda que o Zé Alencar falou "peça tudo por dentro".
- Lula sabia que a conversa no quarto era sobre dinheiro?
- Ele sabia. O presidente sabia o que a gente estava negociando. Olha, ele e o Zé Dirceu construíram o PT juntos. O Lula sabia o que o Dirceu estava fazendo. O Lula foi lá para bater o martelo. Tudo o que o Zé Dirceu fez foi para construir o partido.
- O vice-presidente José Alencar falava "tudo por dentro". E o presidente Lula dizia o quê?
- Nunca falou. Quando saí, ele me falou: "Então está liquidado o assunto". O Lula foi lá para autorizar a operação. E não vejo nada demais. O que ninguém esperava é que desse essa lambança.
Hora do pagamento. Delúbio Soares procurava Valdemar Costa Neto:
- Em fevereiro de 2003, ele falou que ia me dar a primeira parcela. Falou para eu mandar meu pessoal até a SMPB, em Belo Horizonte, para pegar o dinheiro. Perguntei quanto era. Ele disse: "Eu não sei. Vai lá". Mandei o Jacinto Lamas. Chegou lá, o Jacinto me liga: "Não é dinheiro, me deram um envelope". Eu falei: "Nem abre". E liguei para o Delúbio. Falei: "Delúbio, é um envelope". Ele falou: "Não tem problema, pode trazer". Mandei o Jacinto levar o envelope fechado para São Paulo, até o flat onde eu morava. Quando abri o envelope, eram cheques. O total era de R$ 800 mil. Todos cheques da SMPB, para uma empresa chamada Guaranhuns. Eu liguei de novo para o Delúbio. Ele falou: "Fica tranquilo, que eu vou mandar buscar o cheque aí". Passa uma hora, vem um segurança, desse pessoal que mexe com dinheiro, e falou assim: "Vim resgatar". E me deixou o dinheiro. Dinheiro vivo, cash. Estava numa daquelas malinhas com rodinhas, de levar no aeroporto. Chamei alguns fornecedores de campanha e eles pegaram todo o dinheiro.
- Esse procedimento, de pegar cheques na SMPB e trocar por dinheiro em São Paulo, se repetiu?
- Duas ou três vezes. O sujeito chegava, colocava o dinheiro na mesa e pedia que eu conferisse. Separava direitinho nos pacotes.
Valdemar Costa Neto garantiu que o dinheiro não seguia para deputados do PL, apenas para fornecedores de campanha. Nas viagens a Belo Horizonte, segundo ele, o tesoureiro Jacinto Lamas foi buscar um total de R$ 3,2 milhões. O presidente do PL disse que ficava preocupado com a logística de mandar pegar cheques na capital mineira, mas o esquema não incomodava Delúbio.
- Quando você está no governo, você é o dono do mundo. Você não tem preocupação com nada. Eu disse para ele: "Você está me mandando em cheque e eu quero em dinheiro. Para com isso. Me tira desse negócio lá de Minas Gerais, que está ficando ruim para mim". Aí, eles inventaram aquele negócio do Banco Rural. Mas foi só em setembro. De abril a setembro de 2003, não recebi nada.
- O dinheiro era sempre entregue na SMPB ou no Banco Rural?
- Não, teve dinheiro que eles entregaram para mim. Entregaram para o Jacinto em Brasília... O Jacinto chegou a receber em hotéis. Uma vez, em São Paulo, mandaram ele pegar o dinheiro num restaurante. Era sempre o Delúbio quem me avisava que o dinheiro estava liberado.
Os repórteres de Época perguntaram quando os pagamentos passaram a ser feitos diretamente no Banco Rural. Valdemar Costa Neto respondeu:
- O Delúbio falou: "Vou mandar o dinheiro para Brasília. Pega no Banco Rural". Isso me atrapalhava, porque os credores do PL estão em São Paulo. O Jacinto Lamas deixava o dinheiro comigo, e os credores iam receber lá em casa. Primeiro no hotel Academia de Tênis, onde eu morava. Depois na minha casa, em Brasília.
Valdemar Costa Neto levou uma "geladeira de um ano" do ministro José Dirceu, por divergências na Reforma da Previdência. Nesse período, de acordo com ele, "José Dirceu escolheu operar com o Roberto Jefferson. O Jefferson era o cara que estava sempre com eles, que andava com o Lula. Eles entraram nesta porque quiseram. Jefferson é um sujeito conhecido na praça".
- Conhecido como?
- Conhecido. Como um cara mal-intencionado, perigoso. Para indicar diretor de estatal... Ele diz que indicava diretores de estatais para arrecadar dinheiro para o PTB. Em dois anos de governo Lula, o PTB arrecadou oficialmente R$ 200 mil. Ele diz que arrecadava R$ 400 mil por mês em uma estatal. Onde ele punha esse dinheiro? Ia para o bolso dele. Eles acabaram como tinham de acabar. Em Brasília, você é obrigado a conviver com pessoas que não gosta. Mas não precisa colocar dentro de sua casa. Eles escolheram conviver com um cidadão assim. Eles indicavam aos deputados para ir para o PTB. Tem de perguntar para eles por que esta preferência.
Época indagou quanto Valdemar Costa Neto recebeu do esquema Valério:
- Foram R$ 6,5 milhões. Não chegou aos R$ 10,8 milhões que estão falando. Estão botando R$ 4 milhões a mais na minha conta. Dinheiro que foi repassado para a Guaranhuns e um outro cheque, que não é nosso.
- Delúbio Soares diz ter montado o caixa 2 sozinho. É possível que o ex-ministro José Dirceu não soubesse do que estava acontecendo?
- O Zé Dirceu sempre comandou o PT. O Zé e o Lula. Eu cheguei a cobrar o Zé diversas vezes no Planalto. Falei: "Zé, meu dinheiro está vindo pingado, em conta-gotas". Falei que eu queria receber tudo de uma vez. O Zé disse: "Calma que o Delúbio está providenciando o dinheiro para te pagar. Ele vai arrumar o dinheiro e resolver tudo".
- Ele sabia o que o Delúbio estava fazendo?
- É gente deles. Esse pessoal construiu o PT junto. Delúbio, Lula e José Dirceu são a mesma família. Por que, agora, na desgraça, só um vai pagar? Tenho certeza de que o Dirceu nunca fez nada que o presidente não aprovasse.
Três dias depois de publicada a confissão de Valdemar Costa Neto, o vice José Alencar concedeu entrevista durante evento no Palácio do Planalto. Confirmou as declarações de Valdemar:
- Tudo aquilo que ele fala é verdade. Houve uma reunião e houve um acordo. Esse acordo está registrado na imprensa no ano de 2002, um acordo eminentemente político. 

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O CHEFE - Capítulo 3 - Lula, o chefe

Capítulo 3

Lula, o chefe

O Palácio do Planalto bem que tentou abafar, mas desde o início o presidente Lula esteve no centro da crise política. O escândalo do mensalão eclodiu em 14 de maio de 2005, com a divulgação de uma gravação clandestina pela revista Veja. Maurício Marinho, funcionário dos Correios, pôs no bolso do paletó R$ 3 mil. Propina. De cara, a evidente vinculação do PTB ao esquema de corrupção. Os Correios eram área de influência do partido, uma das agremiações integrantes da base aliada do Governo Federal, capitaneada pelo PT, a legenda de Lula.
Enquanto os telejornais escancaravam a fita com as imagens de Maurício Marinho enfiando o dinheiro no bolso, Lula apressava-se em defender o deputado Roberto Jefferson (RJ), presidente nacional do PTB. Palavras de Lula, alto e bom som, em 17 de maio de 2005:
- Precisamos ter solidariedade com os parceiros, não se pode condenar ninguém por antecipação.
Lula se pronunciou durante almoço com aliados. O presidente insistiu:
- Parceria é parceria. Tem de ter solidariedade.
E arrematou, para não deixar dúvidas:
- Essa é a hora em que Roberto Jefferson vai saber quem é amigo dele e quem não é.
Lula estava preocupado. Recorda-se que, alguns meses antes, dissera a seguinte frase endereçada a Roberto Jefferson, em meio ao noticiário que especulava sobre um pagamento de R$ 10 milhões do PT ao PTB, com vistas a "comprar" o apoio dos trabalhistas às eleições municipais de 2004:
- Eu te daria um cheque em branco e dormiria tranquilo.
A gravação de Maurício Marinho trouxe outras complicações. Como se sabe, ele desandou a conversar com os interlocutores que o subornavam, sem saber que estava sendo gravado. O funcionário dos Correios mencionou uma empresa, a Novadata, pertencente a Mauro Dutra, o "Maurinho", amigo de Lula havia mais de 20 anos. A Novadata fornecia computadores para o Governo Federal. Apenas nos dois anos e meio da primeira administração Lula, faturou R$ 284,5 milhões, sendo R$ 110 milhões em contratos com a Caixa Econômica Federal, R$ 100 milhões em contratos de locação de 27.500 computadores para a Petrobras e R$ 16,2 milhões em vendas aos Correios.
Aqui uma pausa, para registrar: Lula passou o réveillon de 2001 na mansão de Mauro Dutra em Búzios, no badalado litoral do Rio. O mesmo Maurinho que fez contribuições ao PT, arrecadou dinheiro para o partido e emprestou avião a Lula. Na fita, Maurício Marinho fala de "acertos" em licitações. Descreve manobra da Novadata para superfaturar computadores. A empresa tentou fazer o preço de cada computador vendido ao governo dar um salto injustificado, de R$ 3.700 para R$ 6.000.
Logo nos primeiros dias da crise, Lula trabalhou abertamente contra a ideia de se criar uma CPI para investigar a corrupção nos Correios. Foi decisão de governo: a administração federal iria liberar dinheiro de emendas ao Orçamento a todos os parlamentares que votassem contra a CPI. Faltou combinar com os jornais.
Roberto Jefferson foi destaque no noticiário político. As incursões do presidente do PTB nos subterrâneos de Brasília revelaram várias suspeitas de corrupção. Lula achou por bem se afastar do aliado, mas continuou a trabalhar contra a instalação da CPI. Roberto Jefferson estava cada vez mais isolado. Os estrategistas do presidente não imaginaram que o desgaste do político fluminense o levasse a uma reação explosiva.
Em 6 de junho de 2005, Roberto Jefferson concedeu uma entrevista-bomba ao jornal Folha de S.Paulo. O Brasil não seria mais o mesmo. A manchete, na primeira página, para não deixar dúvidas: "PT dava mesada de R$ 30 mil a parlamentares, diz Jefferson". O escândalo do mensalão assumiria contornos dramáticos.
Leal ao presidente que procurou protegê-lo, Roberto Jefferson tentou deixá-lo fora da crise. Mas logo implicou o superministro José Dirceu (PT-SP). A Folha de S.Paulo também reproduzia a reação de José Dirceu, assim que ouviu Roberto Jefferson falar sobre os repasses. Infere-se que a tarefa de fazer as operações de distribuição do dinheiro era de responsabilidade do tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Palavras de José Dirceu
- Eu falei para não fazer.
Ora, se o todo-poderoso ministro da Casa Civil, braço direito de Lula, disse a Delúbio Soares para não fazer, fica implícito que a prática fora pensada, discutida e provavelmente era de amplo conhecimento do chamado "núcleo duro" do governo. Destaca-se que Delúbio tinha relação histórica com Lula.
Mas voltemos a Roberto Jefferson, que envolveu no seu relato à Folha de S.Paulo outros importantes auxiliares do presidente. Se os mencionados já não conhecessem os fatos, ficariam com a obrigação de tomar providências assim que foram informados. Afinal, Lula não poderia permanecer alheio à existência de um esquema que entregava dinheiro a parlamentares. Isso, claro, se já não soubesse muito bem o que acontecia.
Roberto Jefferson contou que levou informações sobre o mensalão ao ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PSB-CE). Da mesma forma que José Dirceu, deveria informar o presidente sobre o que lhe fora relatado. Assim, providências enérgicas impediriam o prosseguimento da prática de suborno. E faria isso como dever de lealdade, independentemente das suas convicções. Conforme Jefferson, Ciro Gomes lhe disse que não acreditava na história da transferência de dinheiro de caixa 2 para a base aliada.
Rodeado de ministros leais, Lula não fugiria do seu dever constitucional de determinar imediata abertura de investigações, com a finalidade de punir eventuais culpados. Outra hipótese, porém: Lula teria dado carta branca às operações de suborno. Agora, deixaria o tempo amainar a situação, confiando na falta de memória da imprensa e dos brasileiros.
Depois foi a vez de Miro Teixeira (PT-RJ), ministro das Comunicações. Os deputados José Múcio (PTB-PE) e João Lyra (PTB-AL) testemunharam a conversa na qual Roberto Jefferson pediu para Miro Teixeira contar tudo a Lula. Tem mais. Jefferson também discutiu o problema com o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), o então líder do governo Lula na Câmara dos Deputados, e garante que expôs tudo ao ministro Antonio Palocci (PT-SP), outro integrante do "núcleo duro" do governo. O recado estava dado.
Aparentemente, só Miro Teixeira levou a coisa a sério. Pelo menos num primeiro momento. A prova é que informações prestadas por ele fizeram o Jornal do Brasil denunciar em manchete, em 24 de setembro de 2004: "Planalto paga mesada a deputados". Trecho de abertura da reportagem: "O governo montou no Congresso um esquema de verbas e cargos para premiar partidos fiéis ao Planalto. Chama-se mensalão".
Não houve consequências. O então presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha (PT-SP), prometeu instaurar sindicância para apurar a denúncia do Jornal do Brasil, mas foi tudo engavetado às pressas. E Miro Teixeira capitulou. Antes disso, no entanto, havia narrado o caso a Lula. Aí é que a coisa pega. Miro Teixeira era oriundo do PDT (Partido Democrático Trabalhista), mas se transferira para o PT e assumira a liderança do governo Lula na Câmara dos Deputados. O episódio aconteceu logo após o escândalo que culminou com a saída de Waldomiro Diniz do Ministério da Casa Civil, no primeiro grande caso de corrupção da era Lula, a ser relatado adiante.
Miro Teixeira, no papel de líder, era assediado por deputados que temiam pelo fim da "mesada" fornecida pelo governo, uma hipótese aventada com a saída de Waldomiro Diniz. Afinal, o assessor de José Dirceu, defenestrado da Casa Civil, cuidava justamente da relação da administração federal com o Congresso. Miro Teixeira foi duro. Em 25 de fevereiro de 2004, disse ao presidente que deixaria a liderança do governo. Não aceitava os pagamentos. Com ar de surpresa, Lula garantiu desconhecer o assunto. E disse que iria discuti-lo, sem falta, com José Dirceu. Nada. Pouco mais de um mês depois, Miro Teixeira voltou ao Palácio do Planalto e pediu para sair da liderança. Infelizmente, não levou o caso até as últimas consequências. Substituiu-o o deputado Professor Luizinho (PT-SP), que viria posteriormente a ser acusado de envolvimento no mesmo escândalo do mensalão.
Em 5 de janeiro de 2005, Roberto Jefferson levou o assunto diretamente a Lula. Quem testemunhou foi o ministro Walfrido dos Mares Guia (PTB-MG), do Turismo. Nenhuma providência tomada. Roberto Jefferson voltou a Lula novamente, em 23 de março de 2005. Desta vez, várias pessoas ouviram a conversa sobre as "mesadas do Delúbio". Jefferson expôs tudo. Presenciaram José Dirceu, Aldo Rebelo e José Múcio. Todos os três, aliás, já sabiam do assunto. Além deles, ouviram o relato o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) e o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho (PT-SP). Da mesma forma, eles não poderiam mais alegar desconhecimento. Jefferson afirmou:
- Presidente, o Delúbio vai botar uma dinamite na sua cadeira.
Reação de Lula:
- Que mensalão?
Interessante destacar que no segundo mandato de Lula, Walfrido dos Mares Guia e José Múcio, braços direito e esquerdo de Roberto Jefferson no PTB até eclodir o escândalo do mensalão, seriam promovidos por Lula. Walfrido iria do morno Ministério do Turismo para o chamativo Ministério das Relações Institucionais, exatamente para ser o responsável pela relação do governo com o Congresso. E Múcio sairia da liderança do PTB para a liderança do governo na Câmara. E quando Walfrido fosse afastado depois da acusação de envolvimento com o chamado mensalão mineiro, Lula não teria dúvidas: promoveria mais uma vez Múcio, nomeando-o ministro das Relações Institucionais. Em 2009, Lula recompensaria os bons serviços prestados por Múcio, indicando-o para uma vaga no TCU (Tribunal de Contas da União).
Por que os aliados de Roberto Jefferson assumiram papéis de destaque na administração Lula? É simples: porque blindaram Lula no episódio das denúncias de Roberto Jefferson. Não respaldaram nem deram eco às acusações que poderiam levar ao impeachment do presidente. E foram recompensados por terem sido leais.
Mas voltemos uma vez mais no tempo. Houve outro episódio, dez meses antes daquele encontro entre Jefferson e Lula, em 23 de março de 2005. Ocorreu na noite de 25 de maio de 2004. O curioso é que, desta vez, Lula introduziu o assunto. A comitiva do presidente estava em viagem oficial à China. Lá pelas tantas, depois do farto jantar, Lula se virou para o deputado Paulo Rocha (PT-PA) e perguntou se ele já ouvira falar do pagamento de mesadas a parlamentares. Para entender: durante os desdobramentos do escândalo do mensalão, Paulo Rocha preferiu renunciar ao mandato a correr o risco de ser cassado, justamente por ter feito saques de dinheiro de caixa 2. Rocha negou a história, obviamente. Mas outros três deputados que estavam no jantar na China confirmaram a veracidade da conversa à revista Veja.
Com a explosão do escândalo do mensalão, Aldo Rebelo (PC do B-SP) foi escalado para falar em nome do Palácio do Planalto. Admitiu que Lula ouvira mesmo o relato de Jefferson em 23 de março de 2005, mas tratou de proteger o presidente. Para Rebelo, a denúncia envolvia o PT e outros partidos, não o governo. Ora, o PT é o partido de Lula. E os outros partidos dão sustentação política ao governo Lula. Estavam sendo pagos para isso. Como protegê-lo?
O líder de Lula no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), tentou explicar a reunião de 23 de março:
- Nenhum dos presentes tratou aquilo como denúncia, nem discutiu o assunto na reunião. Depois, Lula chamou Aldo e Chinaglia e perguntou se havia comentários sobre isso na Câmara. Não houve denúncia, apenas o relato de boato.
Para Aloizio Mercadante, portanto, Lula, o grande beneficiário da maioria forjada para apoiar o seu governo no Congresso, não tinha providências a tomar sobre o assunto. Pois, afinal, não havia "comentários" sobre o tema.
A Folha de S.Paulo ainda circulava com a denúncia de Roberto Jefferson sobre o mensalão naquele 6 de junho de 2005, quando o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), veio a público revelar que dois deputados receberam propostas para se transferir à base aliada do governo Lula, em troca de dinheiro. Mais lenha na fogueira.
Pior: em 5 de maio de 2004, Marconi Perillo já havia levado o fato diretamente ao conhecimento de Lula. Na época, o presidente disse que iria apurar. Não fez nada. De qualquer forma, não teria sentido dizer que não sabia do assunto. Meses depois, fustigado, o Palácio do Planalto se posicionou sobre o episódio por meio de nota. Informou que Lula não se recordava de nenhum comentário do governador Marconi Perillo a respeito de uma tentativa de suborno de deputados. Mais uma vez, Lula foi convenientemente escondido.
Em 12 de junho de 2005, nova entrevista de Roberto Jefferson à Folha. Ele deu detalhes da conversa com Lula, dentro do gabinete do presidente:
- Ele me pediu que explicasse como funcionava o mensalão. Eu disse. Depois ele se levantou, me deu um abraço e eu saí.
Na entrevista, a chave para entender por que o escândalo do mensalão não foi contido nos bastidores da política, e virou mesmo um escândalo. Roberto Jefferson relatou à repórter Renata Lo Prete a primeira conversa com Lula para falar dos repasses, em janeiro de 2005. Roberto Jefferson esforçou-se em salvaguardar o presidente:
- E vi a reação dele de perplexidade. E então as coisas pararam. Mas o que eu estranho é que a Abin, depois que eu disse isso ao presidente Lula, parte para mandar arapongas contra o PTB. Alguém, dentro do governo, não gostou que nós passamos essa informação ao presidente.
O "alguém" de Jefferson era o ministro José Dirceu. Teria sido acionado por Lula. E a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) entrara em ação, segundo o presidente do PTB. No final das contas, mostrou-se desastrosa a estratégia de fuçar a vida de Jefferson para descobrir podres do deputado, com vistas a obter o seu silêncio. Ele não aceitou a chantagem. O tiro saiu pela culatra.
Dia 13 de junho de 2005, o seguinte à entrevista da Folha: a assessoria de José Dirceu divulgou informações segundo as quais o relacionamento entre o ministro da Casa Civil e o presidente Lula era excelente. Bobagem. O importante do "recado" de José Dirceu estava na frase que, segundo a assessoria, o ministro havia proferido. A fala de Dirceu foi divulgada como sendo textual, entre aspas, e serviu para definir a sua relação com Lula:
- Não faço nada que não seja de comum acordo e determinado por ele.
Estava tudo aí. Dirceu, ao travar combate para não ser expelido do governo, fez ameaça velada a Lula, como quem diz: "Não ouse me fritar, muito menos me demitir. Sei demais. Posso e vou comprometê-lo". Mas ficou nisso. Dirceu jamais fez nada, apesar de, em outros momentos da crise, ter voltado a insinuar que poderia pôr o dedo na ferida. Chegou a alfinetar o presidente em algumas ocasiões, como da vez que fez críticas a Fábio Luís Lula da Silva, o "Lulinha", em entrevista concedida no início de 2008 à revista Piauí.
O mais importante da frase em que Dirceu deu o "recado" a Lula, porém, é a confissão de que agia conforme o acertado com o presidente. Por si só, a frase deveria ter se constituído em elemento de peso para justificar a abertura de processo por crime de responsabilidade contra Lula.
Em 14 de junho de 2005, Roberto Jefferson prestou depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Foi um dia histórico. Ele pediu o afastamento de José Dirceu do governo. Na prática, sentenciou à queda o homem mais importante da história do PT, depois de Lula:
- Zé Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer réu um homem inocente, o presidente Lula.
Para complicar as coisas, entrou em cena Fernanda Karina Ramos Somaggio, ex-secretária de Marcos Valério. A essa altura, Marcos Valério, o empresário dono de agências de publicidade e principal operador do mensalão, já era uma celebridade. Fernanda Karina disse em entrevista à revista Isto É Dinheiro que Marcos Valério tinha comunicação direta com José Dirceu.
O superministro de Lula também foi acusado de receber dinheiro do esquema de corrupção montado em Santo André (SP). Quem fez a denúncia foi Francisco Daniel, irmão do ex-prefeito Celso Daniel (PT). Aqui, Lula voltou ao centro da crise. Francisco Daniel disse que o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, transportou R$ 1,2 milhão de propina em seu carro. A origem do dinheiro, devidamente entregue ao então presidente nacional do PT, José Dirceu, seria a propina arrecadada na Prefeitura de Santo André.
José Dirceu foi afastado do governo em 16 de junho de 2005. Fazendo-se de alheio aos problemas, como sempre, Lula deu entrevista em Luziânia (GO) para dizer que as denúncias eram "vazias". Entrementes, nos bastidores de Brasília, o presidente trabalhava para frustrar a CPI dos Bingos, uma nova fonte de investigações contra o seu governo. Prometeu mundos e fundos para quem ficasse ao seu lado, mas não impediu a instalação da comissão.
Um episódio que mostrou Lula como sujeito atuante nos bastidores de seu governo, e não alguém sempre por fora dos "detalhes" comprometedores, como procurava se mostrar. Foi o caso da "simples" nomeação do diretor de Engenharia da empresa estatal Furnas Centrais Elétricas. O assunto relatado por Roberto Jefferson ocupou várias páginas de jornal. Não era para menos. O diretor, Dimas Toledo, administrava, de acordo com Roberto Jefferson, uma "sobra" de R$ 3 milhões ou R$ 4 milhões por mês, dependendo da versão, dinheiro abocanhado quase integralmente pelo PT.
O caso Furnas acabou contribuindo para o desgaste da relação PT/PTB, pois o partido de Roberto Jefferson não aceitava ficar à margem, relegado a um segundo plano. Pois bem: na partilha de cargos do governo, ficou combinado que Jefferson exerceria influência em Furnas. Ele queria trocar Dimas Toledo. Lula era simpático ao pleito do PTB. O presidente dissera a Jefferson:
- Roberto, por que está demorando tanto?
Lula não aceitaria argumentação alguma que prejudicasse o PTB:
- Nada disso. O Dimas vai sair.
No caminho, porém, estava José Dirceu, aparentemente cioso da fortuna em comissões e propina. Quando a casa caiu, Roberto Jefferson contou a história aos jornais. A reação instantânea do Palácio do Planalto foi afastar todos os citados, inclusive Dimas Toledo. Mas a história de Roberto Jefferson revelou que Lula tinha pleno conhecimento do que se passava nos porões do governo e palpitaria nas nomeações para cargos de escalões inferiores.
Outro caso vinculado diretamente a Lula ocorreu em 8 de julho de 2005, a partir de notícia publicada pelo jornal O Globo. A Telemar, uma das maiores operadoras de telefonia do País, investira R$ 5 milhões na pequena Gamecorp, de Fábio Luís Lula da Silva, o "Lulinha". Como se sabe, a Telemar fora constituída com recursos de origem pública, provenientes do Banco do Brasil, BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e fundos de pensão de empresas estatais. Além disso, era empresa concessionária de serviço público, regulada pelo Governo Federal.
O negócio Telemar/Gamecorp foi intermediado pela consultoria de Antoninho Marmo Trevisan, outro amigo de Lula. Para o presidente, porém, nada de errado. A reação dele, nervosa, pretendendo pôr um ponto final no assunto que envolvia seu filho:
- Estão querendo mexer na minha vida privada. Isso é uma baixaria, um golpe baixo, um desrespeito. Isso é irracional.
Voltemos a um acontecimento importante, ocorrido em 17 de junho de 2005. Lula deu a famosa entrevista em Paris, divulgada com exclusividade pelo programa Fantástico, da Rede Globo. O impressionante da história foi o coro do presidente ao que acabara de ser dito por Marcos Valério e Delúbio Soares, ambos metidos até o pescoço na lambança do escândalo do mensalão. A estratégia dos três, apesar da diferença de tom das intervenções, foi a mesma: negar os pagamentos a parlamentares, ou seja, o crime de corrupção, e pôr tudo na conta de simples repasses para quitar dívidas de campanha, usando caixa 2. Um crime menor, portanto, apenas eleitoral. Para Lula, o PT fez o que é feito no Brasil, sistematicamente:
- E não é por causa do erro de um dirigente ou de outro que você pode dizer que o PT está envolvido em corrupção.
Enquanto Lula minimizava a crise, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) acusava o que chamou de "crime de quadrilha":
- Agora, o partido está dentro do governo, e foram usadas empresas públicas como o Correios e Furnas, para fazer transações ilícitas. Favoreceram essas empresas em troca do dinheiro dado ao partido.
Difícil tapar o sol com a peneira. Olívio Dutra (PT-RS), petista histórico, foi demitido do Ministério das Cidades. Ressentido, desabafou durante entrevista: a "disputa" e a "concentração de poder no governo" fizeram crescer a "erva daninha". Referia-se à erva daninha da corrupção.
Para ajudar a entender Lula, um acontecimento de 1995, dez anos antes do escândalo do mensalão. Outro petista histórico, o economista Paulo de Tarso Venceslau, procurou o presidente para conversar. Denunciou-lhe um esquema de corrupção que envolvia o advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula. Ele vinha usando o nome de Lula para desviar dinheiro de prefeituras do PT. Venceslau não aceitava a prática, uma forma de irrigar os cofres do partido.
O economista achou que Lula o ajudaria a extirpar o corrupto que manchava o nome do PT, mesmo que o caso envolvesse seu compadre. Resultado: Paulo de Tarso Venceslau foi expulso do partido. Quanto a Teixeira, continuou firme e forte. Venceslau concedeu entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo:
- Lula foi o primeiro a saber do caso. Sabia do comprometimento do seu compadre, sabia do volume de dinheiro público envolvido, e fez questão não só de acobertar, mas de punir quem tinha descoberto.
O economista comparou Lula nos dois casos. Na década de 90, candidato a presidente, ao ser informado das andanças de Teixeira atrás de comissões em prefeituras, e depois, presidente da República, com o escândalo do mensalão:
- Eu levei para ele, pessoalmente. E o tempo todo fingiu que não sabia. Evidentemente que Lula não operava, assim como não está operando hoje. Mas como ele sabia naquela época, ele sabe hoje, sempre soube.
Depoimento de José Dirceu ao Conselho de Ética da Câmara. Quem roubou a cena foi Roberto Jefferson. Veio à tona a operação Portugal Telecom. Os fatos: o ministro Walfrido dos Mares Guia pediu ajuda a Lula para resolver problemas financeiros do PTB. Com o suposto conhecimento do presidente, Marcos Valério e Emerson Palmieri, tesoureiro do PTB, viajaram a Lisboa atrás de uma "comissão" que poderia chegar a R$ 100 milhões. A jogada pressupunha uma transferência de US$ 600 milhões do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil), outro órgão do governo brasileiro envolvido nas denúncias. Se desse certo, os R$ 100 milhões irrigariam os caixas 2 do PT e do PTB. Marcos Valério chegou a Portugal se dizendo "consultor do presidente do Brasil". E ele era mesmo.
Mais uma história apimentada misturando Lula e caixa 2. Foi publicada em 4 de agosto de 2005, pelo jornal O Estado de S. Paulo. Diz respeito a uma entrevista do presidente ao Programa do Ratinho, do SBT, em 2004. A aparição de Lula na televisão teria sido comprada com R$ 2,1 milhões do valerioduto, como ficou conhecido o canal pelo qual corria o dinheiro movimentado por Marcos Valério. A soma teria viabilizado um acerto entre o deputado José Borba (PMDB-PR), aliado do governo, e o apresentador de televisão Carlos Roberto Massa, o "Ratinho". As partes negaram, obviamente. Dias depois, o escândalo do mensalão levaria Borba a renunciar ao mandato.
Um caso intrigante, o da exoneração de Márcio Araújo de Lacerda (PSB-MG), então secretário-executivo do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PSB-CE). Márcio Lacerda, que seria eleito prefeito de Belo Horizonte em 2008, estava na lista de sacadores de Marcos Valério, agraciado com R$ 457 mil. O dinheiro teria sido usado para pagar os serviços publicitários de uma agência que trabalhou na campanha de Lula, no segundo turno de 2002, conforme admitiu o tesoureiro Delúbio Soares. A eleição de Lula, portanto, teria sido irrigada com dinheiro de caixa 2. O caso repercutiu durante o depoimento de Delúbio Soares à CPI do Mensalão. Eis o diálogo travado entre Delúbio Soares e o deputado Júlio Redecker (PSDB-RS), que faleceu em 2007 no desastre com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Pergunta de Júlio Redecker:
- O dinheiro foi enviado para Ciro Gomes?
- Sim.
- Pagou despesas de campanha de Ciro ou Lula?
- De Ciro.
- Mas Ciro disse que foi serviço prestado pelo marqueteiro dele no segundo turno à campanha de Lula.
- Não foi. O dinheiro pagou serviços prestados pelo (publicitário) Einhart à campanha de Ciro no segundo turno.
- Mas Ciro não foi candidato no segundo turno. Ele apoiou a candidatura Lula.
- O Einhart trabalhou com o Duda Mendonça. Eles filmaram o Ciro para o programa de Lula no segundo turno. O dinheiro pagou despesas que o Ciro teve no segundo turno.
- Então o dinheiro de Valério, de caixa 2, pagou despesas de campanha de Lula no segundo turno.
Delúbio silenciou.
A crise assumiu contornos dramáticos em 11 de agosto de 2005. O publicitário Duda Mendonça confessou à CPI dos Correios que recebeu R$ 10,5 milhões de Marcos Valério em depósitos no exterior. Note-se bem: trata-se de dinheiro de caixa 2, não declarado, sem origem definida, usado para pagar serviços prestados na campanha de 2002, no pleito que elegeu Lula. Dia seguinte, em discurso no Planalto, Lula quis dar fim ao caso:
- O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas.
Em 13 de agosto de 2005, a revista Época publicou entrevista com Valdemar Costa Neto (PL-SP), o primeiro deputado a renunciar durante as investigações do escândalo do mensalão. Em foco, uma reunião ocorrida em 2002 para decidir o apoio do PL ao PT e a indicação de José Alencar para vice de Lula.
O encontro se deu no apartamento do então deputado Paulo Rocha (PT-PA), em Brasília. Paulo Rocha, aliás, também renunciaria em 2005, com medo de ser cassado, depois de não conseguir negar a sua participação no esquema de corrupção. Lula estava presente à reunião no apartamento de Paulo Rocha. Depois de árdua negociação, durante a qual Lula, discreto, teria se retirado a um aposento ao lado, fechou-se o acordo pelo qual o PT se prontificava a transferir R$ 10 milhões para o PL, a fim de obter o apoio do partido de José Alencar. Época perguntou a Valdemar Costa Neto:
- Lula sabia que a conversa no quarto era sobre dinheiro?
- Ele sabia. O presidente sabia o que a gente estava negociando. Olha, ele e o Zé Dirceu construíram o PT juntos. O Lula sabia o que o Dirceu estava fazendo. O Lula foi para lá para bater o martelo. Tudo o que o Zé Dirceu fez foi para construir o partido.
Note-se bem: Valdemar Costa Neto era o presidente do partido do vice-presidente da República. A sigla pertencia à base aliada do governo. A confissão dele teria sido outro elemento importante para justificar a abertura de processo por crime de responsabilidade contra Lula.
Vale registrar trecho da entrevista de Hélio Bicudo, respeitável jurista, à revista Veja. Hélio Bicudo, quadro histórico do PT, desligou-se do partido:
- Lula é um homem centralizador. Sempre foi presidente de fato do partido. É impossível que ele não soubesse como os fundos estavam sendo angariados e gastos e quem era o responsável. Não é porque o sujeito é candidato a presidente que não precisa saber de dinheiro. Pelo contrário. É aí que começa a corrupção.
- Por que o presidente não tomou nenhuma atitude para impedir que a situação chegasse aonde chegou?
- Ele é mestre em esconder a sujeira embaixo do tapete. Sempre agiu dessa forma.
Desabafo do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), outro acusado de envolvimento no escândalo do mensalão, durante uma reunião do Campo Majoritário, a corrente do PT cujas lideranças máximas sempre foram Lula e José Dirceu. Desgastado com as notícias de corrupção, o Campo Majoritário teve o nome alterado para Construindo um Novo Brasil, no segundo mandato de Lula. De qualquer forma, João Paulo Cunha fez ameaças veladas a Lula durante aquela reunião. Reclamou de ingratidão e hipocrisia. Apesar de feitas a portas fechadas, as ameaças acabaram na imprensa. Não foram desmentidas. O envolvimento de Lula, por João Paulo Cunha:
- Quem tomou a decisão de fazer alianças? Foi o Zé Dirceu? Quem exigiu o contrato com Duda Mendonça?
Em outras palavras, Lula não só sabia, como estava por trás de tudo. Era o chefe. Continuou a ser o chefe.
Insatisfeitos com o presidente, próceres do PT mantiveram a carga sobre Lula. Em entrevista à Folha de S.Paulo em 25 de setembro de 2005, José Dirceu disse quem, em sua opinião, eram os responsáveis pela crise:
- Muita gente. Parece que eu fui presidente do PT sete anos sozinho, secretário-geral cinco anos sozinho, né? O PT não foi construído assim. Tem dezenas de dirigentes importantes que hoje são prefeitos, governadores, ministros, deputados e senadores que participaram da construção de toda essa estratégia comigo.
- E o presidente.
- E o próprio presidente da República. É isso o que eu digo. A responsabilidade é de todos nós. Nós temos que debater isso, num congresso do partido, e fazer o balanço.
- O senhor acha que o presidente da República assume a responsabilidade que tem?
- Não quero nominar ninguém. O que eu não aceito é prejulgamento, que foi tudo errado, que foi tudo um fracasso, que a política de alianças do PT estava errada. Tudo foi aprovado democraticamente.
José Dirceu respondeu se Lula participou das discussões:
- Participou. Todos participaram. Mas eu quero discutir e avaliar. Eu não quero julgar ninguém porque eu não quero que me prejulguem. O que não aceito é a imagem de que eu fiz tudo sozinho e depois apareceu Silvio Pereira, Delúbio Soares e Marcelo Sereno, que são o mal. Então corta esse mal e o PT está salvo. Isso é maniqueísta. E eu não mereço isso.
Em outro trecho da entrevista, o jornal faz um comentário:
- As pessoas que votaram no PT a vida inteira imaginavam que votavam num partido que tinha práticas diferentes.
- Esse é um erro e o PT vai pagar por ele. Nós vamos ter que pedir desculpas ao País. Nós assumimos compromissos na campanha eleitoral com partidos e repassamos recursos. Se fossem da arrecadação oficial do PT, não teria problema nenhum. Como foram recursos de empréstimos tomados num banco e foram repassados fora da prestação de contas, há uma ilegalidade aí que vai ser punida pela Justiça.
Como se vê, José Dirceu deu eco à estratégia que desvincula o dinheiro movimentado durante o escândalo do mensalão da prática de corrupção, atribuindo as somas entregues a políticos a empréstimos bancários. Ele também fala sobre a política de alianças e o programa de governo de Lula:
- Então estão julgando Lula também. Tem de saber qual é o julgamento e qual é o grau de responsabilidade de cada um.
- E a responsabilidade política? As pessoas votam no Lula e ele não sabe de nada? É difícil acreditar que ele ignorava tudo.
- Não é isso. É que ele não tem responsabilidade. Eu não posso atribuir responsabilidade a ele no grau dele. O Lula tem responsabilidade política porque ele era líder do PT. Mas os graus são diferentes. Não posso atribuir a ele responsabilidade sobre o caixa 2. Aí eu não vou atribuir.
- Ele não tem responsabilidade como liderança?
- Isso é uma pergunta que tem de ser dirigida a ele. Eu não vou responder por ele.
Menos de duas semanas depois, foi a vez de Lula conceder entrevista. Ele falou ao programa Roda Viva, da TV Cultura. E retribuiu à altura:
- Feliz o País que tem um político da magnitude do Zé Dirceu.
Em outro momento da entrevista, Lula volta à carga:
- Qual a acusação que existe contra o Zé Dirceu?
Uma entrevista perigosa para o presidente. O entrevistado é Silvio Pereira, o ex-secretário-geral do PT. Falou à Folha de S.Paulo, em 2 de outubro de 2005:
- A minha responsabilidade não é diferente da de nenhum outro dos 21 membros da executiva nacional do PT. O nível de decisão que eu tinha não era diferente do de nenhum dos 21 membros da executiva nacional do PT.
"Silvinho" evitou citar nomes:
- Eu assumo a responsabilidade como membro da direção do PT, em que pese a direção do PT ter realmente a noção do que estava acontecendo. Ninguém é hipócrita de achar que não sabia que existia caixa 2. Qual membro da direção do PT não sabia disso?
O repórter perguntou se o então presidente do partido, José Genoino (SP), sabia do esquema de caixa 2. Palavras de Silvinho:
- Eu pergunto: qual o membro da alta direção do PT que não poderia supor que pudesse existir?
Silvinho se desligou do PT após admitir que havia ganhado um jipe Land Rover de presente de uma fornecedora da Petrobras. Depois, assumiria a responsabilidade perante a Justiça e, para não ser processado, concordaria em prestar serviços comunitários. Saiu livre.
Um fardo pesado para Lula, o caso Santo André. Em 23 de novembro de 2005, a empresária Rosângela Gabrilli depôs à CPI dos Bingos. Trouxe à luz meandros do esquema de corrupção engendrado na administração do ex-prefeito Celso Daniel (PT).
A irmã dela, Mara Gabrilli, pediu ajuda diretamente a Lula. Esteve no apartamento do presidente em São Bernardo do Campo (SP), e conversou com ele por 20 minutos. Descreveu um quadro de extorsão contra prestadores de serviços à Prefeitura de Santo André, controlada pelo PT, como a empresa da família dela. Lula ficou de "averiguar e tomar providências". Desabafo de Mara Gabrilli, confirmando o depoimento da irmã:
- Ninguém fez absolutamente nada. Nunca tive uma resposta.
Chamada a depor na mesma CPI dos Bingos, Mara Gabrilli revelou novas informações sobre o encontro dela com Lula. Na ocasião, contara ao presidente que Sérgio Gomes da Silva, o "Sombra", estava envolvido no esquema de corrupção. Sombra também era acusado de mandar matar Celso Daniel. Durante a reunião com Mara Gabrilli, o presidente Lula virou-se para os três assessores que o acompanhavam para dizer:
- Nossa, eu achei que o Sérgio Gomes já estava muito longe.
Como sempre, Lula dissimulou. Fez que não sabia o que se passava. Conveniente. O incrível é que o tal Sombra não saía do noticiário dos jornais. Vivia prestando depoimentos a CPI, Ministério Público e Polícia Civil. Como poderia estar "muito longe"? Como o presidente seria tão desinformado?
Lula não tomou providências para resolver o problema em Santo André, conforme se comprometera. Ao invés disso, a família de Mara Gabrilli passou a sofrer pressões. Ela explicou à CPI o que aconteceu após a conversa em São Bernardo do Campo. Referiu-se ao ex-vereador Klinger Luiz de Oliveira (PT), um dos acusados de envolvimento no esquema de corrupção:
- Ocorreu justamente o contrário. Klinger soube, reclamou, e dias depois uma comissão de sindicância da Prefeitura se instalou na nossa empresa.
Além de Santo André, a crise política teve outra ramificação importante em Ribeirão Preto (SP), terra de Antonio Palocci (PT-SP). Irromperam sucessivos indícios de condutas inadequadas e corrupção na cidade, na época em que a administração municipal estava sob o comando do prefeito Antonio Palocci. Apesar da gravidade das denúncias que só se avolumavam, Lula fez reiteradas defesas do seu ministro da Fazenda.
Quanto mais era denunciada a participação de Antonio Palocci na malversação dos contratos de limpeza pública de Ribeirão Preto, mais manifestações de Lula a elogiar o ex-prefeito. Como justificar a defesa de alguém cujos procedimentos e o envolvimento em possíveis falcatruas ficava cada vez mais evidente?
O noticiário era farto: inquéritos, provas documentais e testemunhas. Principalmente os depoimentos do advogado Rogério Buratti. Ele manteve ligações estreitas com o PT, mas decidiu contar o que sabia para melhorar sua situação na Justiça. Por que, então, a solidariedade a Antonio Palocci? Aparentemente, só havia uma explicação: Antonio Palocci sabia demais. Impossível a Lula simplesmente demiti-lo e mandá-lo de Brasília de volta a Ribeirão Preto. Neste sentido, Palocci era uma pedra no sapato do presidente.
Ao admitir a hipótese de impeachment de Lula, o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Roberto Busato, falou da proximidade do presidente com Luiz Gushiken (PT-SP), outro integrante do "núcleo duro" do Palácio do Planalto. Roberto Busato tratou do caso Visanet, ou seja, do dinheiro de publicidade do Banco do Brasil que, de acordo com as investigações da CPI dos Correios, foi desviado para o PT:
- A revelação de repasses de verba de publicidade da Visanet, ligada ao Banco do Brasil, a agências de Marcos Valério, e de distribuição a parlamentares sempre em épocas apropriadas ao governo, atingiu mortalmente o coração de Gushiken. E, ao atingir Gushiken, atinge Lula, na medida que o presidente não tomou nenhuma atitude para afastá-lo do governo. É prova inconteste de que Lula sabia exatamente de todo o esquema e estava de acordo com a sua existência.
Para Roberto Busato, não havia dúvidas:
- A participação de Lula é absolutamente baseada pela proximidade de quem sempre foi confidente e grande amigo de Gushiken. O ex-ministro realmente comandava toda a área de comunicação do Governo Federal, onde havia um desvio de dinheiro público para atividades partidárias e delituosas no sentido de corromper o Congresso Nacional.
Em depoimento à CPI dos Bingos, o economista Paulo de Tarso Venceslau apresentou mais evidências de que Lula tinha conhecimento sobre o que se passava à sua volta. Gente próxima do presidente estava exposta a denúncias de corrupção. Paulo de Tarso Venceslau relatou em 17 de janeiro de 2006 que enviara em 1995 uma carta a Lula para contar sobre as peripécias do amigo e compadre do presidente, advogado Roberto Teixeira. Na década de 80, Teixeira emprestara um imóvel para Lula morar em São Bernardo do Campo.
Roberto Teixeira representava uma empresa que vivia batendo nas portas das prefeituras do PT para obter contratos sem licitação, com base "em notas falsas e rasuradas". Apesar de informado, Lula nada fez na época. Como se vê, a coisa vinha de longe.
Insatisfeito com a falta de ação de Lula, Paulo de Tarso Venceslau procurou o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), sempre muito próximo do presidente. Reação de Aloizio Mercadante ao ler a carta endereçada a Lula, segundo a versão não desmentida de Paulo de Tarso Venceslau:
- Ele ficou chocadíssimo e disse: "Isso é nitroglicerina pura". Mas não fez nada. Afirmava que tentava sem conseguir. O silêncio continuou.
Pergunta-se: como "tentava sem conseguir"? Mercadante tinha acesso privilegiado a Lula. Sempre teve. Em 1994, por exemplo, foi candidato a vice-presidente da República quando Lula tentou chegar ao Palácio do Planalto pela segunda vez. Se Mercadante alertou sobre a inconveniência da presença de Teixeira mas não conseguiu afastá-lo do PT, a resistência teria sido do próprio Lula. Não havia outra hipótese. Venceslau também contou tudo a Frei Betto, outro amigo histórico de Lula. Frei Betto dirigiu-se assim a Venceslau:
- Se o Lula souber que alguém está conversando com você, ele jura que aquela pessoa vai ser decapitada do partido.
Lula protegia o esquema suspeito de corrupção, engendrado por seu compadre. Ressalte-se que isso ocorreu em 1995. Desde 1993, porém, Paulo de Tarso Venceslau vinha denunciando Roberto Teixeira. Na época, Venceslau era secretário de Finanças de São José dos Campos (SP), cidade cuja prefeita era Ângela Guadagnin (PT-SP).
Ângela Guadagnin foi ouvida depois do depoimento de Venceslau. Ela admitiu outro problema, o de que Paulo Okamotto, homem de confiança do presidente Lula, percorria prefeituras do PT na década de 90. Paulo Okamotto ia atrás de listas de fornecedores das administrações. De posse dos nomes das empresas, ia a campo pedir dinheiro a quem mantinha contratos com os governos do PT. Ângela Guadagnin é outra estrela do PT que teve papel importante nos desdobramentos do escândalo do mensalão. Aqui, ela admitiu:
- O que fica desse episódio é que se conhecia o esquema de arrecadação paralela há muito tempo, desde 1993.
A coisa é anterior. Em 1989, a primeira eleição direta para presidente depois da ditadura militar. A primeira disputada por Lula. Ele mesmo, pessoalmente, pediu à então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, na época no PT, um esquema que alterasse a ordem cronológica dos pagamentos a empresas contratadas para fornecer bens e serviços à administração municipal.
Naquele final da década de 80, o Brasil vivia tempos de inflação galopante. Receber antes do prazo estipulado, portanto, permitiria fazer aplicações financeiras que renderiam bom dinheiro. Quem fosse contemplado com o benefício retribuiria à altura, com transferências generosas de dinheiro para o caixa 2 do PT. Luiza Erundina resistiu.
Em 1998, Lula foi candidato a presidente pela terceira vez. Em 9 de fevereiro de 2006, depôs ao Ministério Público o ex-secretário de Habitação de Mauá (SP), Altivo Ovando Júnior. No ano de 1998, aquela cidade da Grande São Paulo estava sob comando do prefeito Oswaldo Dias (PT). De acordo com o depoimento de Altivo Ovando Júnior, Lula pressionou por dinheiro para financiar a sua campanha eleitoral. Do depoimento:
"O declarante se recorda de que, no pleito de 1998, o presidente Lula compareceu no gabinete do prefeito de Mauá, oportunidade em que, utilizando termos chulos, cobrou de Oswaldo Dias maior arrecadação de propina em favor do PT."
Durante o depoimento, foi reproduzida frase atribuída a Lula:
"Ele dizia: ‘Pô, Oswaldão, tem que arrecadar mais, faz que nem o Celso Daniel em Santo André. Você quer que a gente ganhe a eleição como?"
Naquele ano, Lula voltou a perder, pela terceira vez consecutiva. Mas, em 2002, disputou novamente e foi eleito presidente da República. Passou a despachar no gabinete do terceiro andar do Palácio do Planalto. Após mais de três anos como o mais alto mandatário do País, ficaria difícil acreditar que não soubesse o que acontecia na sala bem ao lado da sua, ocupada durante parte daquele período de turbulência pelo superministro Antonio Palocci (PT-SP). E ali se urdiu a conspiração contra o caseiro Francenildo Santos Costa.
O rapaz havia desmascarado Antonio Palocci. Contestou as mentiras do ministro. Antonio Palocci procurava um meio de negar o impossível, o fato de ter sido um frequentador da "casa dos prazeres". A mansão fora alugada em Brasília pela "república de Ribeirão Preto", como ficou conhecido o grupo de colaboradores do então ministro, e costumava ser reduto para festas com garotas de programa.
Lula participou ativamente da tentativa de blindar Palocci. O presidente teria tramado o recurso ao STF (Supremo Tribunal Federal) para suspender o depoimento de Francenildo Santos Costa à CPI dos Bingos. As investigações sobre o caso mostraram que Lula fora informado pessoalmente da ordem de Palocci para a violação do sigilo bancário do caseiro. Jorge Mattoso, o então presidente da Caixa Econômica Federal, avisara-o em 24 de março de 2006.
A rigor, Lula já recebera informações a respeito quatro dias antes, em 20 de março, quando o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, relatou ao presidente o envolvimento de Antonio Palocci na quebra do sigilo. Palocci só seria afastado em 27 de março, uma semana depois. Naquele momento, não havia mais jeito de desvinculá-lo do crime. Durante todo o escândalo, para variar, Lula deu uma de quem não sabia de nada.
No auge da crise, em 23 de março, houve uma reunião na casa de Antonio Palocci. A revista Veja relatou que um sindicalista nomeado por Lula na vice-presidência da Caixa Econômica Federal fora escolhido para subornar algum funcionário da Caixa, com R$ 1 milhão. A ideia era encontrar alguém para assumir a violação do sigilo.
O tal sindicalista, Carlos Augusto Borges, era homem de confiança de Lula. Será possível que o presidente não soubesse da missão de Borges? Ou, ao contrário, teria sido exatamente o presidente quem o sugerira para pilotar a operação de suborno? Tudo indica que Lula considerava sua obrigação fazer o que estivesse ao alcance para salvar Antonio Palocci, que tantos serviços lhe prestara, desde a campanha eleitoral de 2002.
Lembra-se que foi Antonio Palocci quem assumiu o papel de coordenador daquela campanha, depois da morte de Celso Daniel. Infere-se que Antonio Palocci fez o que Celso Daniel estaria fazendo. Sabe-se que, depois da reunião na casa de Palocci, o ministro da Fazenda e Márcio Thomaz Bastos foram se encontrar com Lula no Palácio do Planalto.
Em 16 de abril de 2006, o ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, concedeu entrevista à Folha de S.Paulo. Ele reproduziu as palavras de José Dirceu ao procurá-lo na véspera da votação do processo que cassou o mandato de deputado de José Dirceu. O ex-ministro queria o apoio de Anthony Garotinho para não perder o cargo. José Dirceu teria dito assim:
- Saiba que tudo o que fiz, tudo, fiz porque o Lula mandou. Você acha que ia mandar bloquear o dinheiro do Rio e o Palocci iria obedecer? Todo político tem alguém que faz o lado mau. Estou pagando agora por ter feito o lado mau.
Publicada a entrevista, o comentário do ex-deputado José Dirceu, devidamente cassado, sobre a declaração de Anthony Garotinho:
- Não vou bater boca com ele.
Informações que vieram a público e não foram desmentidas, durante a segunda quinzena de abril de 2006, davam conta de que José Dirceu, depois de cassado, continuou a se reunir com Lula e integrantes do Governo Federal. Fora incumbido pelo presidente de tocar tarefas estratégicas, como a de se encontrar com o ex-presidente Itamar Franco, com quem Lula tentava uma aproximação política. A rigor, José Dirceu continuaria a cumprir missões para as quais seria designado por Lula no segundo mandato do presidente. Exemplos: a articulação em defesa do mandato do senador José Sarney (PMDB-AP), acusado de quebra do decoro parlamentar; o estreitamento dos laços políticos entre PT e PMDB; e a costura política em prol da candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT-RS) à Presidência da República em 2010.
Se Lula manteve relacionamento estratégico com José Dirceu, era falácia o discurso do presidente de que fora apunhalado pelas costas no escândalo do mensalão. O afastamento de José Dirceu de seu governo teria sido só um jeito de manter as aparências. Mesmo nos bastidores, Dirceu era essencial a Lula.
José Dirceu pagou caro. Foi cassado justamente por ter sido apontado como o responsável pelo esquema de corrupção. Ele apenas o operava. E como Lula não interrompeu a parceria com José Dirceu, era conversa mole a de que o presidente havia sido traído.
Este livro é um empenho pela memória. Tantos os caminhos da corrupção, dos personagens corruptores e corrompidos, que ao longo dos 403 dias da crise do escândalo do mensalão fizeram esquecer e cansar. Ficamos anestesiados, descrentes. Temos de lembrar.
Lula não queria a verdade. Nunca a quis. O chefe de tudo foi, desde o início, como se verá no dia a dia dos acontecimentos, o próprio presidente Lula. 

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O CHEFE - Capítulo 2 - Montanhas de dinheiro: em pacotes, malas, carros-fortes e até em cuecas

Capítulo 2

Montanhas de dinheiro: em pacotes,
malas, carros-fortes e até em cuecas

Da mesma forma que não se pode deixar de reconhecer os avanços das políticas sociais responsáveis por tirar milhões de brasileiros da pobreza nos dois governos do presidente Lula, não há como minimizar o expressivo crescimento econômico e o incremento da inserção do Brasil no cenário mundial, também registrados no período.
A era Lula significou, contudo, a continuidade do jeito criminoso de se fazer política no Brasil. Com a ressalva das honrosas exceções, o grande objetivo das ações dos representantes do povo manteve-se o mesmo: usar cargos públicos para participar de esquemas cuja finalidade primordial era desviar o dinheiro dos contribuintes. Obter comissões e caixinhas. Propinas. Para boa parte dos políticos brasileiros, independentemente da coloração partidária, a atividade política ainda é o caminho fácil do enriquecimento.
A notícia em destaque nas primeiras páginas dos jornais, no auge do escândalo do mensalão, chocou o País: uma bolada de R$ 200 mil, acondicionada numa maleta, e outros US$ 100 mil escondidos na cueca, tudo transportado pelo assessor de um deputado do PT (Partido dos Trabalhadores, a legenda fundada pelo presidente Lula), preso no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
José Adalberto Vieira da Silva trabalhava para o deputado José Nobre Guimarães (PT-CE), irmão do então presidente nacional do PT, José Genoino (SP). Rápido, José Adalberto apagou a memória do celular. Disse ser agricultor. O dinheiro em seu poder, procurou justificar, era resultado do comércio de verduras. Logo foi desmascarado. Confessou quem era. Detido pela polícia, usou o paletó para cobrir o rosto e se esconder dos fotógrafos.
Outra imagem que marcou os anos Lula é a da montanha de dinheiro apreendida pela Polícia Federal no hotel Ibis Congonhas, em São Paulo, pouco antes das eleições nas quais Lula conquistaria seu segundo mandato, em 2006. O R$ 1,7 milhão em cédulas de reais e dólares seriam usados pelo PT para comprar um dossiê contra políticos da oposição.
A Polícia Federal acusou Hamilton Lacerda, coordenador da campanha do senador Aloizio Mercadante (PT-SP), candidato petista a governador de São Paulo naquele ano, de ter levado o dinheiro da corrupção ao hotel. Ele foi filmado por câmeras de segurança no saguão do Ibis Congonhas, um dia antes da ação policial. Portava uma mala e se mostrava tenso.
Nas mãos cerradas de Hamilton Lacerda, a mala preta de viagem com a alça em volta do ombro, uma garantia a mais de que ninguém roubaria a preciosa carga no lobby do hotel. Ele pegou o elevador e entrou num quarto. Saiu sem a mala. Na madrugada seguinte, voltou ao Ibis. Desta vez com uma maleta e uma sacola plástica. Tudo filmado. Foi embora depois, sem a sacola. A explicação da Polícia Federal: o R$ 1,7 milhão não coube na mala que Hamilton Lacerda trouxera na véspera, e ele retornou com mais dinheiro.
Quando o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) denunciou o escândalo do mensalão, apresentou ao País o empresário Marcos Valério, dono de agências de publicidade. Roberto Jefferson era presidente nacional do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), partido da base aliada de Lula. Confessou que Marcos Valério entregou-lhe R$ 4 milhões em 2004. Roberto Jefferson descreveu Marcos Valério e como recebeu a propina:
- É carequinha, falante e fala em dinheiro como se fosse assim uma coisa que caísse do céu. Primeiro foram R$ 2,2 milhões. Em duas malas enormes, notas de R$ 50 e R$ 100, etiquetadas por Banco Rural e Banco do Brasil. E três dias depois, (...) ele volta com R$ 1,8 milhão. Notas de R$ 50 e R$ 100, Banco Rural e Banco do Brasil e a promessa de outras quatro parcelas iguais.
Roberto Jefferson citou Emerson Palmieri, apresentado como tesoureiro informal do PTB:
- Eu pedi ao Emerson Palmieri que guardasse o dinheiro no cofre de um armário de aço, grande.
Emerson Palmieri confirmou os dois pagamentos. E acrescentou que as duas malas com a bolada eram "de rodinhas". E a maioria das notas de R$ 50, sendo "poucas notas de R$ 100". O tesoureiro deu mais detalhes: foi encarregado por Roberto Jefferson de dividir o dinheiro no que chamou de "bolos" de R$ 150 mil e R$ 200 mil:
- Não coube tudo no cofre do partido, passei uma parte para um armário do lado. Entreguei a chave ao deputado Roberto Jefferson e ele me pediu sigilo.
Outra testemunha importante do escândalo do mensalão, a secretária de Marcos Valério. Fernanda Karina Ramos Somaggio relatou que Marcos Valério mantinha frequentes contatos com Delúbio Soares, tesoureiro do PT, e fazia reuniões "com o pessoal do PT":
- Quando ele saía para as reuniões, antes de sair, passava no andar de baixo, no Departamento Financeiro, e saía com uma mala.
Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, Fernanda Karina Ramos Somaggio deu pormenores. Mencionou Geysa Dias dos Santos e Simone Vasconcelos, funcionárias de confiança da agência de publicidade SMPB, de Marcos Valério:
- Quando o senhor Marcos ia a Brasília, sempre no dia ou no dia anterior eram sacadas grandes quantias de dinheiro, pela Geysa ou pelos boys. Os boys falavam que tinha saque de R$ 1 milhão. O dinheiro era levado para o Departamento Financeiro da agência, onde a Simone e a Geysa dividiam os maços e colocavam nas malas.
Outro trecho do depoimento de Fernanda Karina:
- O senhor Marcos passava na empresa e pegava as malas para levar no avião fretado. Algumas vezes, a Simone dizia que ficava em um hotel em Brasília, dentro de um quarto, o dia todo, contando dinheiro. E era um entra e sai de homem que ela ficava muito cansada. Ela só contava dinheiro e passava para essas pessoas.
À CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investigou corrupção nos Correios, Fernanda Karina falou da logística dos saques de dinheiro vivo no Banco Rural:
- A Simone ligava, avisando que os boys iam passar no banco e a agência abria mais cedo. Eram dois ou três boys que se dirigiam ao banco para dar garantia, em caso de assalto. Acontecia pelo menos uma vez por semana. O dinheiro era acomodado em valises tipo 007, que ficavam no Departamento de Finanças da agência.
Fernanda Karina envolveu outras pessoas, como o líder do PMDB, deputado José Borba (PR), que renunciaria ao mandato durante as investigações do escândalo do mensalão, e Silvio Pereira, o secretário-geral do PT, surpreendido com um jipe importado em seu nome, mimo de uma empresa contratada pela Petrobras:
- Uma vez, eu me lembro que o senhor Marcos saiu com uma mala e foi para Brasília no avião do Banco Rural. E eu sabia que nessa mala tinha dinheiro. Ele pediu para eu ligar para o José Borba e depois para Delúbio ou Silvio Pereira, para dizer que estava indo para Brasília encontrar José Borba.
Ministro dos Transportes de Lula, Anderson Adauto (PL-MG) também foi acusado por Fernanda Karina:
- O irmão dele foi lá na agência, pegou uma mala de dinheiro e foi embora.
Outro caso rumoroso ocorreria no gabinete do ministro Anderson Adauto, no segundo semestre de 2003. Da reunião teriam participado, além de Anderson Adauto, Roberto Jefferson, outros dois deputados e Delúbio Soares, que supostamente levou uma mala de dinheiro para dividir entre os presentes.
Foi rico o depoimento de José Francisco de Almeida Rego à Polícia Federal. Ele era tesoureiro do Banco Rural e contou como a SMPB de Marcos Valério remetia dinheiro de Minas Gerais a Brasília. Os saques tornaram-se usuais desde o início de 2003, no primeiro ano do governo Lula. As retiradas chegavam à casa dos R$ 200 mil por operação. Um fax mencionava os valores e os nomes dos sacadores.
O tesoureiro José Francisco de Almeida Rego cuidava da liberação do dinheiro junto ao Banco Central. Para evitar que os saques ficassem volumosos, trabalhava com notas de R$ 50 e R$ 100. Era tudo levado a uma determinada sala do Banco Rural em Brasília. As cédulas eram colocadas em bolsas trazidas pelos próprios sacadores. Gente apressada que ia embora, em geral, sem conferir os valores.
Simone Vasconcelos também cuidava de fazer retiradas na agência do Banco Rural do Brasília Shopping. Mas nem sempre levava o dinheiro com ela. Assinava recibos e listava os nomes daqueles que passariam depois para receber. Desta forma, os nomes dos beneficiários não ficavam registrados como sacadores. As pessoas simplesmente não eram identificadas.
As investigações do escândalo do mensalão demonstraram que Marcos Valério operou a distribuição de dinheiro a deputados que apoiavam o governo Lula. Simone Vasconcelos fazia o trabalho de coordenar a entrega das somas. Foram atribuídos a ela saques de R$ 6,1 milhões. Cenas de cinema em outubro de 2003. Simone Vasconcelos fez duas retiradas, uma de R$ 800 mil e outra de R$ 650 mil. A bolada chegou de carro-forte ao escritório da SMPB em Brasília.
Em depoimento à CPI dos Correios, Simone Vasconcelos disse que se sentia "constrangida e preocupada de estar sendo identificada por desconhecidos", e também por estar "entregando altas somas de dinheiro para estes, sem ao menos saber quem eram".
Uma vez, Marcos Valério quis saber a cor da blusa de Simone, "para que fosse identificada pelo estranho que deveria receber o dinheiro". Ela também levou dinheiro a hotéis de luxo onde estava Marcos Valério. As entregas chegavam a R$ 300 mil.
Em determinada ocasião, outra cena cinematográfica: Simone Vasconcelos teve de localizar um táxi estacionado na frente de um certo centro de compras em Brasília e entregar ao ocupante desconhecido um pacote de dinheiro.
Outro que chamou a atenção no esquema Marcos Valério foi um policial mineiro de nome David Rodrigues Alves, a quem foram atribuídos saques de até R$ 6,5 milhões. Ele informou que recebia pagamento variando entre R$ 50 e R$ 100 por vez que ia buscar dinheiro em agências do Banco Rural em Belo Horizonte. Tinha a incumbência de levar as somas a Cristiano de Mello Paz, sócio de Marcos Valério na SMPB. Palavras do policial:
- Os pacotes já estavam prontos nas agências, eu apenas assinava o recebimento. Meu trabalho era retirar o dinheiro e entregar na SMPB.
De acordo com David Rodrigues Alves, ficava tudo separado no banco, em maços lacrados. O transporte era feito em caixas de sapato, de camisa ou de telefone celular, dependendo da quantia. Ele confessou que fazia até três viagens por dia. Carregava de R$ 50 mil a R$ 150 mil por vez.
Para não vincular Lula ao esquema de corrupção, o poderoso ministro da Casa Civil, José Dirceu (PT-SP), braço direito do presidente, fez o que pôde para evitar ser relacionado a Marcos Valério. Se fosse descoberta ligação entre os dois, ficaria difícil dizer que Lula não tinha nada a ver com o escândalo do mensalão. Afinal, o presidente era o grande beneficiário do esquema: o suborno de parlamentares garantia maioria no Congresso para o governo Lula. O esforço de José Dirceu foi em vão.
A ligação José Dirceu/Marcos Valério ficou escancarada na compra de um apartamento em São Paulo por Maria Ângela Saragoça, ex-mulher de José Dirceu. Depois de ser contratada pelo BMG, banco também próximo de Marcos Valério e envolvido no esquema, Maria Ângela Saragoça recebeu empréstimo do Banco Rural. Ela também queria um apartamento novo. Vendeu o velho a Rogério Tolentino, sócio de Marcos Valério. Na hora de comprar o novo, levou dinheiro vivo, dentro de uma sacola.
Um caso terrível foi o assassinato do prefeito de Santo André (SP), Celso Daniel (PT). Aqui, José Dirceu também acabou envolvido. Ele foi acusado pelo promotor Amaro Thomé, responsável pela investigação da morte de Celso Daniel:
- Parte dos recursos arrecadados em Santo André era utilizada em campanhas eleitorais do PT, levado em malas de dinheiro para o escritório de Dirceu.
Bruno Daniel, irmão do prefeito morto, afirmou ter ouvido do chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho (PT-SP), detalhes do caminho da propina em Santo André. Antes de ser guindado para o governo Lula, Gilberto Carvalho era secretário do prefeito Celso Daniel. Do depoimento de Bruno Daniel à CPI dos Bingos, referindo-se a Gilberto Carvalho:
- Ele foi claro: disse que os recursos arrecadados eram enviados ao PT para serem usados no financiamento de campanhas. Era ele quem entregava o dinheiro a José Dirceu. Ele disse que havia momentos de tensão porque carregava o dinheiro, sem segurança, em seu Corsa preto e, em uma só ocasião, entregou R$ 1,2 milhão ao deputado Dirceu.
Em sessão sigilosa da CPI dos Bingos, uma ex-empregada de Celso Daniel disse ter encontrado três sacolas com dinheiro no apartamento do então prefeito. Antes de ser morto, no início de 2002, Celso Daniel era coordenador da campanha de Lula a presidente da República.
José Dirceu também foi envolvido com a distribuição de dinheiro na campanha eleitoral para prefeito de Londrina (PR), em 2004. Na época ele ainda era o superministro do presidente Lula. Quem o denunciou foi Soraya Garcia, assessora financeira do prefeito Nedson Micheletti (PT), candidato à reeleição. Segundo ela, José Dirceu circulou na cidade num automóvel blindado da marca BMW:
- O ministro José Dirceu veio a Londrina em 18 de setembro. Era um sábado e durante a semana todo o mundo no comitê financeiro reclamava de dificuldades para pagar contas de campanha. Na segunda-feira o comitê tinha R$ 300 mil em caixa. Todo esse dinheiro era em notas de R$ 100 e com lacre do Banco do Brasil.
Soraya Garcia prestou depoimento à Polícia Federal. Oficialmente, a campanha eleitoral do PT em Londrina saiu por R$ 1,3 milhão. Já de acordo com ela, custou R$ 7,8 milhões. O dinheiro aparecia dentro de sacos plásticos de lixo e em sacolas de lojas.
Outro caso ocorrido na campanha de reeleição de Nedson Micheletti em Londrina. Foi narrado pelo motorista Rogério Bicheri. Ele trabalhava para o PT e recebeu ordens de pegar dinheiro vivo no apartamento de Zeno Minuzo, um assessor de Paulo Bernardo (PT-PR), nomeado por Lula ministro do Planejamento. Do motorista:
- Fui duas vezes lá, em setembro e em outubro de 2004, dirigindo o carro de Fábio Reali, assessor do prefeito. Estacionei e o Fábio voltou com 20 envelopes, todos com nomes de coordenadores e vereadores em campanha. Era coisa de uns R$ 50 mil. Ele botou dois envelopes no porta luvas, e o resto debaixo do banco. Ele disse que dessa forma, se fôssemos roubados, levariam menos dinheiro.
Diversos casos vincularam malas recheadas de dinheiro ao PT nos anos Lula. No final de 2007, veio à tona a história de uma mala abarrotada com R$ 500 mil, entregue ao partido do presidente da República por duas empresas supostamente laranjas que teriam agido a serviço da empresa multinacional norte-americana Cisco, interessada em vender produtos de informática para a Caixa Econômica Federal.
Um caso que deu o que falar envolveu a multinacional norte-americana Gtech, da área de sistemas de informação, e a mesma Caixa Econômica Federal. Vale a pena registrar a acareação promovida pela CPI dos Bingos entre Rogério Buratti, ligado ao esquema do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci (PT-SP), a quem a Caixa estava subordinada, e Marcelo Rovai, diretor da empresa multinacional.
A discussão entre os dois era sobre a propina que Rogério Buratti disse ter sido oferecida pela Gtech para renegociar um contrato com a Caixa. A multinacional estaria disposta a desembolsar entre R$ 500 mil e R$ 16 milhões, dependendo do que ficasse acertado, sendo que no final do negócio a empresa teria consumado um pagamento de R$ 5 milhões a uma intermediária da corrupção, uma empresa de nome MM Consultoria. A reação de Marcelo Rovai ao dirigir-se a Rogério Buratti, que se tornara dono de empresas de ônibus:
- O senhor recusou R$ 16 milhões. O senhor, com a sua biografia, recusou? Quantos ônibus dava para comprar com esse dinheiro?
Agora o depoimento à CPI dos Bingos de Walter dos Santos Neto, da tal MM Consultoria. Ele estava protegido por habeas-corpus para não ser preso. Tentou dar origem lícita para os R$ 5 milhões e, para justificar o destino do dinheiro e negar ter sido um intermediário da propina, disse sofrer do distúrbio "compulsão ou disfunção do gasto". Declarou assim:
- Posso dizer que a motivação que sempre tive em relação ao dinheiro vem de uma deformação de minha personalidade, a necessidade de ver o dinheiro, de se sentir com o poder.
Assim, Walter dos Santos Neto alegou ter sacado R$ 650 mil transferidos pela Gtech, por exemplo, e mandado entregar o dinheiro em sua casa em carro-forte, a fim de gastá-lo:
- Minhas despesas são chocantes, gasto com frivolidades. Sou uma pessoa doente e comecei a fazer tratamento psiquiátrico.
Depois que José Dirceu foi cassado por corrupção, Antonio Palocci virou o superministro de Lula. Mas por pouco tempo. Caiu sob a acusação de ter determinado a violação do sigilo bancário de um homem simples, o caseiro Francenildo Santos Costa, encarregado de cuidar de uma mansão em Brasília que ficou conhecida como a "casa dos prazeres". Lá, a turma de Antonio Palocci se divertia com garotas de programa.
A agenciadora das prostitutas era Jeany Mary Corner. Ela contou que Rogério Buratti, fiel escudeiro de Antonio Palocci, montou um esquema no qual as "meninas" punham dinheiro dentro de revistas que eram colocadas em envelopes de papel. E saíam por Brasília entregando a "correspondência". Elas teriam pagado mensalões de R$ 50 mil a oito deputados. Jeany Mary Corner também recebeu R$ 50 mil. Para ficar quieta. Justificou:
- Fiquei no anonimato todo esse tempo. Fui muito digna. Diferentemente de outros que abriram a boca. Por isso, pedi ajuda. Isso é chantagem?
O caseiro Francenildo Santos Costa viu a dinheirama que rolava na "casa dos prazeres". Afirmação dele ao envolver Vladimir Poleto, também ligado a Antonio Palocci:
- Via, via notas, pacotes de R$ 100 e R$ 50 na mala de Vladimir. Ele trazia muito dinheiro.
Vladimir Poleto prestava serviços para Antonio Palocci desde quando o ministro da Fazenda de Lula era prefeito de Ribeirão Preto (SP). Depois da morte do prefeito Celso Daniel, o prefeito Antonio Palocci assumiu o papel de coordenador de campanha de Lula.
Alguns meses antes da eleição, Vladimir Poleto foi a Brasília de avião apanhar três caixas de bebida, todas lacradas com fitas adesivas. Caixas de uísque e de rum cubano. Dentro, cédulas norte-americanas. O dinheiro, US$ 1,4 milhão ou US$ 3 milhões, dependendo da versão, teria vindo de Cuba para irrigar a campanha de Lula.
Transportadas para São Paulo, as tais caixas foram parar nas mãos de Ralf Barquete, outro prócere da "república de Ribeirão Preto", e levadas num automóvel Omega, blindado, até o destino final: as mãos do tesoureiro Delúbio Soares.
Delúbio Soares, aliás, tornou-se bode expiatório para as tramoias do PT. Num dos raros momentos em que se despiu do papel de único responsável por todos os males, o tesoureiro, amigo histórico de Lula, escreveu uma carta endereçada ao PT, para afirmar que o caixa 2 é "prática antiga e habitual no partido, pela qual jamais se viu uma punição". E, com ironia:
"Respeito a ingenuidade. Não sei, no entanto, de onde imaginavam que o dinheiro viria – se do céu, puxado por renas e conduzido por um senhor vestido de vermelho – e menos ainda me recordo de que alguma preocupação com a origem desses recursos tenha me sido transmitida."
Mais uma montanha de dinheiro, desta vez para pagar parte da encomenda de 2,7 milhões de camisetas à Coteminas, empresa do vice-presidente da República, José Alencar. O PT levou em cash R$ 1 milhão. O dinheiro foi entregue por Marice Corrêa de Lima, coordenadora administrativa do partido, ao presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva, filho de José Alencar. Palavras dele:
- Era dinheiro do PT. Eu não tinha por que pensar diferente.
A essa altura, final de 2005, o PT já tinha afastado Delúbio Soares para tentar se livrar dos problemas. Reação do novo tesoureiro, Paulo Ferreira:
- Não há nada dessa natureza registrado. Nenhum pagamento de R$ 1 milhão à Coteminas.
O novo tesoureiro não levou em conta que Marice Corrêa Lima, depois de entregar a pacoteira, assinou recibo. Confrontado novamente, Paulo Ferreira disse que ela "cumpriu ordens, nem sabia o que estava levando". Em seguida, corrigiu-se:
- Pode não ter sabido, entendeu?
Para tentar salvar a pátria, Delúbio Soares. Explicou que o R$ 1 milhão, dinheiro de caixa 2, estava no cofre do PT. Não convenceu o relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR):
- Ninguém neste País acredita que ele tenha guardado R$ 1 milhão em espécie durante quase um ano, enquanto diuturnamente era abordado por credores.
Além de Delúbio Soares, perdeu o emprego o petista Henrique Pizzolato. Era diretor de marketing do Banco do Brasil. Comprou um apartamento a uma quadra da praia de Copacabana, no Rio, por R$ 400 mil. Um mês antes, Henrique Pizzolato havia enfiado nos bolsos R$ 326 mil, em dinheiro vivo, sacado de uma conta bancária da DNA Propaganda, outra agência de publicidade de Marcos Valério. O pacote com as notas foi retirado em uma agência do Banco Rural, no centro do Rio.
Amigo de Lula há 30 anos, o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) também terminou envolvido com pacotes de dinheiro. Quem o denunciou foi o doleiro Antonio Oliveira Claramunt, o "Toninho da Barcelona". O operador de Devanir Ribeiro era o próprio filho do deputado, Marcos Lustosa Ribeiro, o Marcão. Usava o gabinete do pai, na época vereador em São Paulo. As trocas de dólares por reais eram frequentes. Dependendo da quantia, o dinheiro era carregado em sacolas, envelopes ou, como disse Marcelo Viana, incumbido de transportar as cédulas para o gabinete de Devanir, preso às meias ou debaixo da roupa.
Em depoimento conjunto às CPIs dos Correios, do Mensalão e dos Bingos, Toninho da Barcelona confirmou as operações com Marcão. Durante a sessão, Devanir Ribeiro procurou intimidá-lo, ameaçando-o com um processo. Em resposta, o doleiro enumerou somas e datas em que pacotes de dinheiro foram levados ao filho Marcão, em 2002: US$ 30 mil em 10 de julho, US$ 25 mil em 17 de julho, US$ 20 mil em 5 de agosto, US$ 8,5 mil em 9 de agosto, US$ 10 mil em 10 de agosto e US$ 35 mil em 30 de setembro.
Quem também mexeu com dinheiro vivo foi Zilmar Fernandes Silveira, sócia do publicitário Duda Mendonça, responsável pela campanha eleitoral que elegeu Lula em 2002. Duda Mendonça confessou que recebeu R$ 10,5 milhões em uma empresa offshore nas Bahamas. Mas não foi só. Parte do acerto da campanha ficou para ser recebido, em dinheiro vivo, na agência do Banco Rural situada na avenida Paulista, em São Paulo. Zilmar Fernandes Silveira encarregou-se de buscar os pacotes, de R$ 300 mil. Palavras dela:
- Cheguei na tesouraria do Rural e o rapaz me trouxe um pacote de dinheiro. Eu me assustei, porque pensei que ia receber um cheque administrativo.
A sócia de Duda Mendonça logo se acostumou à rotina. Confessou que voltou nos dias seguintes para pegar mais duas boladas de R$ 300 mil cada uma, e depois para fazer outras duas retiradas, de R$ 250 mil cada vez. Total: R$ 1,4 milhão.
Em 16 de julho de 2003, Marcos Trindade e Paulo Antônio Bassoto, militantes do PT do Rio Grande do Sul, tentaram embarcar com R$ 200 mil em dinheiro vivo no aeroporto de Congonhas. Marcos Trindade carregava R$ 50 mil. Conseguiu. Paulo Antônio Bassoto, com R$ 150 mil, foi detido. Para evitar o problema, Marcos Trindade passou a viajar de ônibus. Fez quatro viagens. Confessou que levou R$ 850 mil em dinheiro vivo do valerioduto, sempre de Belo Horizonte a Porto Alegre.
Quem também viajou de ônibus transportando dinheiro foi Geraldo Reis, do PT da Bahia. Foi para Vitória da Conquista (BA) com uma mala carregada com R$ 200 mil. Dois assaltantes acabaram com a festa. De acordo com o testemunho de passageiros que estavam no ônibus, os ladrões reagiram surpresos ao abrir a mala. Foram embora satisfeitos. O PT não registrou queixa na polícia.
Ainda na Bahia, o caso do deputado Josias Gomes (PT-BA), um dos denunciados por envolvimento no escândalo do mensalão. Acusado de receber R$ 100 mil repassados por Marcos Valério, negou. Disse que fora ao Banco Rural apenas para obter informações sobre um empréstimo. Depois, confessou o saque. Esteve pessoalmente na agência e apresentou o próprio documento antes de fazer a retirada. Agiu como amador. Ao conceder entrevista, Josias Gomes declarou que o mensalão nunca existiu e foi criado pela imprensa. O discurso do deputado:
- Refuto as acusações que me são impostas. Não sou corrupto. Jamais o serei.
No Maranhão, o tesoureiro local do PT, Luís Henrique Sousa, se gabou ao dizer numa reunião do partido que a direção nacional do PT enviara um emissário a São Luís com uma mala repleta de "verdinhas". Na verdade não eram dólares, mas R$ 327 mil em reais. O dinheiro de caixa 2 teria sido mandado por determinação do então presidente do PT, José Genoino (SP).
A história de outra mala de dinheiro foi narrada por Wendel Resende de Oliveira, que trabalhou como motorista para a deputada Neyde Aparecida (PT-GO). Os R$ 200 mil foram transportados por ele do Diretório Nacional do PT em São Paulo para Goiânia. Por orientação da deputada, o motorista viajara a São Paulo de avião, apanhara a mala e seguira de ônibus até a capital de Goiás. Era mais seguro assim. Entregou a mala ao filho da deputada. O dinheiro teria sido repassado depois ao irmão de Neyde Aparecida, candidato a prefeito de Quirinópolis (GO) na época, e a Carlos Soares, irmão de Delúbio Soares.
Quando ainda era o poderoso tesoureiro do PT, Delúbio Soares telefonou ao vice-presidente do partido em Brasília, Raimundo Ferreira da Silva Júnior, e pediu para ele buscar um envelope. Raimundo Ferreira sabia que o conteúdo era dinheiro vivo, mas não quanto:
- O Delúbio me ligou de São Paulo e pediu para que eu fosse até a agência do Rural, onde deveria pegar um dinheiro que ele estava precisando para umas despesas. Ele me disse que precisava de alguém de confiança para buscar o pacote. Como sou amigo dele, nada mais natural.
Agora, o PT de Mauá (SP). Altivo Ovando Júnior era secretário de Habitação da Prefeitura local, comandada pelo PT. O grupo Peralta queria construir um centro de compras. Precisava da administração municipal que desapropriasse alguns imóveis. Altivo Ovando Júnior contou como Valdemir Garreta, ligado a Marta Suplicy (PT-SP), nomeada depois ministra do Turismo de Lula, abordou o empresário Armando Jorge Peralta:
- Se não der dinheiro, não vai ter shopping.
Valdemir Garreta teria exigido R$ 1,8 milhão. O empresário topou dar seis parcelas de R$ 300 mil cada. Quem confessou ter buscado duas das parcelas em Osasco (SP) foi o próprio Altivo Ovando Júnior. A primeira veio em cheque. A segunda, em dinheiro vivo, acabou nas mãos de José Mentor (PT-SP), que foi vereador líder da prefeita Marta Suplicy na Câmara Municipal de São Paulo, antes de ser eleito deputado federal. Trecho do depoimento de Altivo Ovando Júnior ao Ministério Público:
"O dinheiro lhe foi entregue em uma caixa de arquivo, destas de papelão, devidamente lacrada."
Em 2007, no primeiro ano do segundo mandato de Lula, o Brasil foi atormentado pelas sucessivas denúncias de corrupção contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado e protegido de Lula. Uma das acusações contra Renan foi feita pelo advogado Bruno Miranda Ribeiro Brito Lins, em depoimento à Polícia Civil de Brasília.
Bruno Miranda, afilhado de casamento de Renan Calheiros, denunciou que pelo menos em seis ocasiões foi encarregado pelo lobista Luiz Garcia Coelho, amigo e sócio de Renan, de buscar dinheiro, supostamente de propina. Bruno Miranda havia sido casado com a filha do lobista. O advogado confessou:
- Às vezes, tinha muito dinheiro. Depois parava, vinha pouquinho. Que eu tive acesso, o maior foi de R$ 3 milhões no BMG. Peguei uma sacola.
Em seu depoimento, Bruno Miranda relatou que em 2005 viajou de carro a Belo Horizonte, para apanhar um pacote com R$ 300 mil em notas de R$ 100 e R$ 50, que seria repartido em Brasília. O advogado revelou que a propina facilitou uma negociata no INSS (Instituto Nacional de Seguro Social), presidido na época pelo deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT), ligado a Renan Calheiros. A história vai ser contada adiante. De qualquer forma, Bruno Miranda contou que levou R$ 150 mil a Carlos Bezerra no hotel Metropolitan.
O advogado também envolveu na tramoia outro aliado de Renan, o senador Romero Jucá (PMDB-RR). Ministro da Previdência Social e responsável pelo INSS no primeiro mandato de Lula, Romero Jucá foi afastado depois da abertura de inquérito para investigar o envolvimento dele com desvio de empréstimos e com propriedades rurais fantasmas. No segundo mandato, Lula escolheu Romero Jucá como líder do Governo no Senado.
Um motorista de Romero Jucá, aliás, chegou a admitir ter feito um saque de R$ 50 mil na agência do Banco Rural do Brasília Shopping:
- Eu só cheguei lá e disse: "Meu nome é Roberto Jefferson Marques". Aí, o cara falou: "Ah, tudo bem". Só isso. E me entregou um envelope amarelo, grampeado em cima. Não abri, não fiz nada.
Ao denunciar o escândalo do mensalão ao STF (Supremo Tribunal Federal), o procurador-geral da República, Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, afirmou em seu relatório que o líder do PMDB na Câmara, deputado José Borba (PR), compareceu ao Banco Rural do Brasília Shopping para sacar R$ 200 mil. Recebeu o dinheiro das mãos de Simone Vasconcelos, a prestativa auxiliar de Marcos Valério. Do relatório do procurador-geral, ao explicar que Borba procurara o tesoureiro do banco, João Francisco de Almeida Rego:
"Todavia, José Borba recusou-se a assinar qualquer documento que comprovasse o recebimento da importância acima, fazendo com que Simone Vasconcelos se deslocasse até essa agência, retirasse, mediante a sua própria assinatura, a quantia acima informada, e efetuasse a entrega desse numerário ao então parlamentar."
Denunciado por envolvimento no escândalo do mensalão, José Borba renunciou ao mandato. Ele teria sido encarregado de receber, quase sempre à noite, uma fila de deputados do PMDB, numa sala da Câmara. Um total de 55 deputados do PMDB, todos da base aliada do governo Lula, teriam recebido mensalões. As quantias teriam variado de R$ 10 mil a R$ 200 mil, dependendo do cacife de cada um. O procurador-geral só acusou o líder Borba.
Um dos operadores do PMDB teria sido o advogado Roberto Bertholdo, assessor de José Borba e integrante do Conselho de Administração da hidrelétrica de Itaipu, nomeado no governo Lula. Bertholdo teria viajado em jatinho particular com uma caixa de papelão abarrotada com R$ 8 milhões em dinheiro vivo. Ficou com medo de transportar a quantia?
- Que perigo, o quê? Eu tô operando para o governo.
Antonio Celso Garcia, o "Tony Garcia", foi amigo de Bertholdo. Depois, acusou-o:
- O Bertholdo nunca andava com menos de R$ 50 mil, R$ 100 mil em dinheiro. Ele falava que era para fazer coisas eventuais, atender um ou outro.
Roberto Bertholdo também acusou, mas mirou o líder do PP (Partido Progressista), deputado José Janene (PR), outro a cumprir importante papel na base aliada do governo Lula, durante o primeiro mandato da administração do PT. Aqui, Bertholdo também envolveu um doleiro, Alberto Youssef. Afirmou ter visto o homem levar sacolas de dinheiro ao apartamento de José Janene em Brasília, para subornar parlamentares que apoiavam Lula:
- Por pelo menos três vezes. Uma vez, ele abriu uma sacola para mostrar algo ao Janene e vi que eram reais. Em uma outra vez, as sacolas eram tão pesadas que a Cleide, a cozinheira do Janene, teve que ajudar o Youssef a levar as sacolas para um aposento interno do apartamento.
De fato, o PP esteve sempre nas fileiras de sustentação do governo Lula no Congresso. E o presidente da República não poupou esforços na hora de proteger o aliado e presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), acusado de cobrar propina de um fornecedor da Câmara. Sebastião Buani, dono do restaurante Fiorella, deu dinheiro a Severino Cavalcanti, a fim de receber autorização para reajustar o valor das refeições e a manter o estabelecimento aberto. Sebastião Buani confessou:
- O dinheiro foi entregue em envelopes pardos, nós saíamos pelos corredores com o dinheiro nas mãos, eu e ele andando pelos corredores.
Apesar dos esforços de Lula, o mensalinho de Severino Cavalcanti, no valor de R$ 10 mil, levou o presidente da Câmara a renunciar ao mandato. Severino Cavalcanti ficou com medo de ser cassado e queria se eleger novamente. Não conseguiu ser deputado em 2006, mas foi eleito prefeito João Alfredo (PE) em 2008. Segundo Buani, ele só decidiu parar de subornar o deputado depois de um pedido da filha, Gisele Buani:
- Um dia minha filha me viu contando dinheiro numa quarta-feira para pagar a propina, e disse: "Pai, sai dessa vida porque a gente não precisa disso. O senhor está deixando de pagar funcionários que moram longe e ganham pouco para pagar propina".
João Cláudio Genu, que ocupou o cargo de chefe de gabinete do deputado José Janene (PP-PR), foi apontado como responsável pela distribuição de envelopes com dinheiro a deputados do PP. Após aderir ao governo Lula, em 2003, a bancada do PP pulou de pouco mais de 20 para 56 parlamentares. Mensalinhos e mensalões variavam de R$ 5 mil a R$ 30 mil, conforme o quilate do político. A grana era distribuída na "pensão", como era conhecido o apartamento de José Janene, ou na sala da liderança do PP na Câmara.
Em depoimento à Polícia Federal, João Cláudio Genu admitiu que fez vários saques em dinheiro vivo na agência do Banco Rural do Brasília Shopping. Ele confessou retiradas no total de R$ 850 mil. Mas negou ter distribuído o dinheiro a deputados. Disse que funcionava como uma espécie de "mula", apenas transportando valores. Pegava os envelopes entregues por Simone Vasconcelos, punha dentro de uma pasta tipo 007, sem conferir, e entregava, sem mexer, na presidência do PP.
Na denúncia do procurador-geral da República, João Cláudio Genu foi acusado de receber dinheiro em malas e sacolas e também dentro de um quarto do hotel Grand Bittar ou na sede da agência de publicidade SMPB, em Brasília. Outro operador da distribuição da propina dentro do PP teria sido o deputado João Pizzolatti (PP-SC). Ele foi acusado de circular com dinheiro dentro de malas nos corredores da Câmara, protegido por funcionários da área de segurança do Congresso. Não foi denunciado.
O PL (Partido Liberal) ocupou papel de destaque na sustentação política do primeiro mandato de Lula. O presidente do partido, Valdemar Costa Neto (SP), foi acusado pela ex-mulher, Maria Christina Mendes Caldeira, de pagar as despesas sempre em dinheiro vivo:
- Teve uma época em que comecei a reclamar muito e ele passou a usar eventualmente um cartão. Mas ele mantinha um cofrão em nossa casa que parecia um armário. Tenho as notas fiscais desse cofre. Quando nos separamos, saí denunciando a existência dele. E o Valdemar mandou uma empresa ir lá retirar o cofre.
Em depoimento à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados, Maria Christina Mendes Caldeira relatou uma conversa entre Valdemar Costa Neto e o deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ), na qual o assunto era o suborno de parlamentares para engordar a bancada do PL:
- Ouvi a conversa e vi o dinheiro, guardado no cofre da nossa casa.
Ela ouviu conversas sobre malas de dinheiro e disse ter visto uma mala repleta de dólares destinada ao deputado maranhense Remi Trinta. Maria Christina Mendes Caldeira contou que Valdemar Costa Neto gostava de andar de jatinho e torrar dinheiro em cassinos. Em uma noite, no Uruguai, perdeu US$ 500 mil. Em outra ocasião, em Las Vegas, nos Estados Unidos, deixou R$ 300 mil num cassino. Ela revelou também:
- Na volta de uma viagem acabei trazendo, sem saber, uma mala de dinheiro.
Na CPI do Mensalão, Jacinto Lamas, que atuou como tesoureiro do PL, afirmou ter ido buscar, por orientação de Valdemar Costa Neto, pacotes, envelopes e encomendas, sempre em dinheiro vivo, na sede da SMPB em Belo Horizonte, e na agência do Banco Rural no Brasília Shopping. Quando ia pegar o numerário em hotéis, Simone Vasconcelos fazia a entrega:
- Era sempre um acerto entre o Valdemar e o Delúbio.
No segundo mandado de Lula, o PL se transformou em PR (Partido da República). Valdemar Costa Neto, que havia renunciado ao mandato para evitar possível cassação, disputou a eleição seguinte e foi novamente eleito deputado federal. Mas ficou de fora da presidência do novo partido. O PR continuou na base aliada de Lula. Em 2007, Emílio de Paula Castilho, assessor e sobrinho do deputado Aracely de Paula (PR-MG), foi preso com quase R$ 80 mil em dinheiro vivo.
A soma estava em uma caixa de papelão dos Correios, embrulhada com papel e lacrada com fita adesiva, dentro de uma mala de roupas no automóvel de Emílio de Paula Castilho. Nervoso, ele disse aos policiais que a grana era fruto da venda de um carro usado. Depois corrigiu para dois veículos. Por fim alegou que eram três automóveis, comprados por um homem com nome incerto, que teria feito o negócio sem ao menos ver o que estava comprando, "só na confiança".
Outro escândalo da era Lula que não pode deixar de ser mencionado é o dos sanguessugas, escancarado pela Polícia Federal no último ano do primeiro mandato da administração do PT. O esquema fraudulento envolveu possivelmente dezenas de deputados, prefeituras e funcionários do Ministério da Saúde. Fornecia ambulâncias a preços sobrevalorizados.
O advogado Eduardo Mahon comentou o depoimento de Maria da Penha Lino, funcionária do Ministério da Saúde presa durante a operação. Ele citou o trecho em que Maria da Penha Lino se refere ao motorista Fernando Freitas, encarregado de transportar à garagem do Congresso os donos da empresa que negociavam as ambulâncias:
- Na garagem, pegavam as malas e colocavam o dinheiro no paletó, nas meias e nas cuecas. Passavam pelo detector de metal da chapelaria. Não dava nada. Subiam à Câmara. Iam de gabinete em gabinete, fazendo os acertos. Acabava o dinheiro, voltavam para o carro e pegavam mais. Na cara dura, na cueca, na meia.
Cassado por corrupção, o ex-ministro José Dirceu resolveu desabafar à revista Piauí. Já corria o ano de 2008. José Dirceu mencionou o episódio da construção da sede do PT em Porto Alegre, em 2001. Sabia do que estava falando: na época, José Dirceu era o presidente do partido e Delúbio Soares, o tesoureiro.
De acordo com José Dirceu, a obra em Porto Alegre "foi feita só com dinheiro de caixa 2". Ele acrescentou: "era com mala de dinheiro". O ex-presidente do PT chamou de "esse pessoal" as lideranças gaúchas do partido:
- Chegava para Delúbio e falava: "Delúbio, preciso de R$ 1 milhão". Como é que alguém vai arrumar esse dinheiro assim, de uma hora para outra?
José Dirceu explicou:
- O pobre do Delúbio tinha de ir aos empresários conseguir doações. Aí, estoura o mensalão e esse pessoal vem dizer que o Delúbio era o homem da mala. O que não dizem é que a mala era para eles.
Em outro trecho da entrevista, Dirceu atacou a ex-senadora Heloísa Helena (PSOL-AL). Expulsa do PT, ela passou a denunciar condutas inadequadas de parte das lideranças do partido. O ataque de José Dirceu:
- Ela votou contra a cassação do Luiz Estevão. Votou mesmo, e por motivos impublicáveis.
Heloísa Helena reagiu, chamando José Dirceu de "ladrão dos cofres públicos" e de andar "passeando pelo Brasil e gastando todo o dinheiro que ele roubou do povo":
- Se durante toda a carreira dele de homem público medíocre e ladrão ele cometeu inúmeros atos que certamente não podem ser publicados, eu, como mulher trabalhadora, nunca fui capaz de nenhum ato impublicável.
Em 2009, a Polícia Federal desencadeou a Operação Boi Barrica e indiciou Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), um dos maiores aliados de Lula. Fernando Sarney foi acusado de montar um esquema para desviar dinheiro público usando a Valec, empresa estatal encarregada de construir a ferrovia Norte-Sul.
A relação de Fernando Sarney com a Valec se dava por intermédio do diretor de Engenharia da estatal, Ulisses Assad. Uma parte da obra, no valor de R$ 45 milhões, teria sido entregue à Lupama. Conforme as investigações, a Lupama era uma empresa de fachada ligada ao grupo de Fernando Sarney para desviar dinheiro da ferrovia.
Para pagar pelos serviços de Ulisses Assad, Fernando Sarney teria mandado propina por meio de seu motorista. Uma mala de dinheiro seguiu de Brasília para São Paulo. Os federais estavam na cola, mas não contaram com o zelador do prédio da família Sarney na capital paulista. Ele percebeu a movimentação e ajudou o motorista a entrar escondido com a mala dentro do porta-malas de um carro de Fernando Sarney. O homem se safou. 

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