3 de jan. de 2012

O CHEFE - Capítulo 18 - TCU recomendou paralisar obras irregulares; Petrobras foi campeã em aumento de custos

Capítulo 18

TCU recomendou paralisar obras irregulares;
Petrobras foi campeã em aumento de custos

O TCU (Tribunal de Contas da União) elaborou relatório de fiscalização com indícios de graves irregularidades em 63 obras do Governo Federal, a ponto de recomendar, em setembro de 2009, a paralisação de 41 empreendimentos da administração Lula. Entre os casos mais graves, a Petrobras. Na construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, cujos serviços àquela altura estavam estimados em R$ 4 bilhões, técnicos do TCU detectaram sobrepreços e critérios de medição inadequados. Na reforma da refinaria Presidente Getúlio Vargas, no Paraná, com obras orçadas num total de R$ 2,5 bilhões, também teria havido a prática de sobrepreço.
Das 41 obras em piores situações, 14 estavam a cargo do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, do Ministério dos Transportes). Outras cinco obras eram tocadas pelo Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, do Ministério da Integração Nacional). Além da cobrança de preços acima da média do mercado, o TCU identificou restrições à competitividade nas licitações, deficiência em projetos apresentados e orçamentos incompletos. Para o presidente do TCU, Ubiratan Aguiar, a interrupção dos serviços é medida extrema:
- Não nos interessa a paralisação de obras, mas não poderíamos deixar que prosperassem a fraude, o conluio e a corrupção.
Além das duas refinarias faziam parte da lista de casos mais graves as seguintes obras, com os respectivos custos: construção/ampliação das estradas BR-101 (no Rio de Janeiro), no valor de R$ 80 milhões; BR-158 (na divisa entre Pará e Mato Grosso), de R$ 64 milhões; BR-364 (em Rondônia), R$ 62,8 milhões; BR-265 (corredor Leste, em Minas Gerais), R$ 31,5 milhões; e BR-317 (na divisa entre Amazônia e Acre), no valor de R$ 23 milhões.
Dois aeroportos estavam na relação: o de Guarulhos (SP), com obras estimadas em R$ 69,8 milhões, e o de Vitória, com serviços estimados em R$ 5 milhões. Faziam parte da lista de obras irregulares a ampliação da rede de energia elétrica no Piauí, orçada em R$ 203 milhões; a construção da barragem Berizal, em Minas Gerais, estipulada em R$ 6,6 milhões; e os projetos de irrigação entre Santa Cruz e Apodi, no Rio Grande do Norte, no valor de R$ 15,7 milhões, e do Baixio de Irecê, na Bahia, de R$ 48 milhões.
Algumas obras sofreram aumentos de custos expressivos, o que alertou o TCU. Cinco delas a cargo da Petrobras: o gasoduto Urucu-Coari-Manaus subiu de R$ 2,4 bilhões, no início das obras, em 2006, para R$ 4,5 bilhões, em março de 2009. Justificativa da Petrobras: a estatal resolvera implementar "tecnologia inédita" no País. O gasoduto Cacimbas-Catu, entre o Espírito Santo e a Bahia, teve os custos elevados de R$ 2,9 bilhões para R$ 3,5 bilhões. Segundo o TCU, havia contratos firmados sem licitação e o superfaturamento nos serviços de aplicação de asfalto alcançara 2.400%. Trabalhos de escavação em 183 quilômetros da obra foram acordados em R$ 1,6 milhão, enquanto o mesmo serviço em outro trecho, de 171 quilômetros, recebeu orçamento de R$ 10 milhões.
As plataformas marítimas P-52 (campo Roncador) e P-53 (campo Marlim Leste) sofreram reajustes, respectivamente, de R$ 3,2 bilhões para R$ 3,5 bilhões, e de R$ 2,9 bilhões para R$ 3,9 bilhões. Integrava a lista a construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, cujas obras tiveram aumento de R$ 18,7 bilhões para R$ 19,2 bilhões.
Os custos aumentam com termos aditivos que passam a ser incorporados aos contratos iniciais. Eles alteram projetos básicos, multiplicam valores de obras e introduzem novos serviços. A plataforma P-56, cujo destino era a bacia de Campos (RJ), é outro exemplo. A sua construção subiu de R$ 2 bilhões para R$ 2,4 bilhões. A refinaria de Duque de Caixas, no Rio de Janeiro, teve 24 anexos ao contrato original. Os aditivos previam pagamentos por serviços não estabelecidos anteriormente e até reajuste salarial aos operários. Naquela obra teria ocorrido direcionamento de contratos.
De 2007 a 2009, a construção da eclusa de Tucuruí (PA) foi reajustada de R$ 548 milhões para R$ 815 milhões, um aumento de quase 50%. Chamaram a atenção do TCU os custos da via perimetral (margem direita) do porto de Santos (SP), que praticamente dobrou de preço, de R$ 55 milhões para R$ 107 milhões. Os seguintes reajustes em obras do setor de transportes causaram estranhamento: arco rodoviário do Rio de Janeiro, de R$ 756 milhões para R$ 1,1 bilhão; BR-101, em Pernambuco, de R$ 715 milhões para R$ 818 milhões; BR-101, no Rio Grande do Norte, de R$ 281 milhões para R$ 374 milhões; e a ferrovia Transnordestina, de R$ 4,5 bilhões para R$ 5,4 bilhões. Em julho de 2009, o TCU havia determinado a redução de R$ 120 milhões no contrato firmado entre a Eletronuclear e a construtora Andrade Gutierrez, para construir a usina nuclear de Angra 3 (RJ). Haveria sobrepreço nos serviços.
Como o Brasil é grande, antes do exame de mais problemas registrados na área da Petrobras, a paciência do leitor é preciosa para uma lista de outras 27 obras suspeitas de irregularidades, de acordo com o mesmo relatório do TCU. Em ordem de grandeza: construção do trecho rodoviário do corredor Leste, no Espírito Santo, com serviços orçados em R$ 95 milhões; obras do contorno rodoviário de Foz do Iguaçu (PR), de R$ 74,7 milhões; complexo viário Baquirivu-Guarulhos (SP), R$ 69,8 milhões; construção de trecho do corredor rodoviário da fronteira norte, em Roraima, R$ 15,6 milhões; restauração de rodovias federais no Espírito Santo, R$ 11,4 milhões; acesso rodoviário no corredor Leste, no Espírito Santo, R$ 10,7 milhões; construção de trechos rodoviários na BR-393 (ES), R$ 9,7 milhões; distrito industrial de Manaus, de R$ 1,2 milhão; e obra na BR-010, a Tocantins-Maranhão, R$ 1 milhão.
Agora, obras de drenagem e de construção de barragens: adutora Italuís, no Maranhão, com custo estimado em R$ 299 milhões; adutora de Santa Cruz, no Rio Grande do Norte, R$ 131 milhões; adutora de Serra da Batateira, na Bahia, R$ 67,7 milhões; construção da barragem de Rangel, no Piauí, R$ 53,8 milhões; drenagem do Tabuleiro dos Martins, em Maceió, R$ 53,6 milhões; obras de saneamento na região do rio Paraibuna, em Minas Geais, R$ 35 milhões; construção do sistema adutor do sudeste do Piauí, R$ 34,5 milhões; obras de controle de enchentes no rio Poty, no Piauí, R$ 25,2 milhões; e construção da barragem de Congonhas, em Minas Gerais, R$ 500 mil.
Por fim, as últimas oito obras com suspeitas de irregularidades, acompanhadas, como em todos os casos, de seus custos totais: construção dos terminais de granéis do porto de Barra do Riacho, no Espírito Santo, no valor de R$ 347 milhões; expansão da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, no Maranhão, R$ 242 milhões; construção da fábrica de hemoderivados de Pernambuco, R$ 136 milhões; construção da linha 3 do Metrô, no Rio de Janeiro, R$ 65 milhões; construção da sede do Tribunal Regional Federal, no Distrito Federal, R$ 19,7 milhões; construção do porto de Camargo, em Campo Mourão (PR), R$ 10,1 milhões; construção da Escola Agrotécnica de Nova Andradina (MS), R$ 1,5 milhão; e reforma do campus da Universidade de Pelotas (RS), R$ 1,3 milhão.
A Petrobras é um caso aparte. Maior empresa nacional, faturou R$ 240 bilhões em 2008 e respondia, no final do segundo governo Lula, por mais de 90% dos investimentos das estatais brasileiras. Suas 21 subsidiárias aplicavam R$ 60 bilhões por ano. Desde a posse de Lula, em janeiro de 2003, até abril de 2009, a empresa firmou contratos de prestação de serviços no valor de R$ 129 bilhões, sendo R$ 47 bilhões, mais de um terço do total, sem licitação.
De suas 80 diretorias, gerências e assessorias importantes, 21 foram ocupadas por indicações políticas, a saber: 17 do PT, duas do PMDB e duas do PP. Vale destacar a Braspetro, distribuidora de combustíveis, nas mãos do ex-senador tucano Sérgio Machado (CE), apadrinhado do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), e o próprio presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli (PT-BA), ligado ao governador da Bahia, Jaques Wagner (PT).
Em 25 de março de 2009, a Polícia Federal deflagrou a Operação Castelo de Areia, para desbaratar uma quadrilha que envolveria diretores da construtora Camargo Corrêa. De acordo com as investigações foram detectadas licitações fraudulentas, obras públicas superfaturadas e remessas ilegais a paraísos fiscais. Havia indícios de uso do chamado "dólar-cabo" para mandar dinheiro ao exterior, sistema pelo qual não há transferências físicas ou eletrônicas de valores entre países, mas compensações por intermédio de contas de doleiros.
As apurações da Polícia Federal apontaram para Fernando Arruda Botelho, sócio da Camargo Corrêa e vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Ele seria responsável por doações da empreiteira a partidos políticos. Sete legendas foram citadas num primeiro momento: PSDB, DEM, PPS, PMDB, PP, PDT e PSB. Depois surgiram menções às agremiações do PT, PTB e PV. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, teria intermediado contribuições a candidatos.
Entre os políticos diretamente mencionados por receber dinheiro da Camargo Corrêa estavam os senadores Agripino Maia (DEM-RN) e Flexa Ribeiro (PSDB-PA), o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA) e um ex-candidato a prefeito de Recife, Mendonça Filho (DEM). Em seguida viriam outros nomes, mas, da mesma forma, não haveria indicações de doações ilegais para o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) e os deputados José Eduardo Cardozo (PT-SP), Cândido Vaccarezza (PT-SP), Arlindo Chinaglia (PT-SP), Aldo Rebelo (PC do B-SP), Michel Temer (PMDB-SP), Paulo Renato (PSDB-SP), Edson Aparecido (PSDB-SP) e Rodrigo Maia (DEM-RJ).
Empresas do grupo Camargo Corrêa figuravam entre as principais doadoras a candidatos e comitês financeiros nas campanhas eleitorais de 2006 e 2008. Doaram, oficialmente, R$ 38,3 milhões, sendo que, em 2008, os três partidos que mais receberam foram, respectivamente, DEM (R$ 3,1 milhões), PT (R$ 1,2 milhão) e PSDB (R$ 580 mil). Mas não foram apenas doações legais, pelo que se depreende de ligações telefônicas captadas pela Polícia Federal durante as investigações. Este diálogo, por exemplo, foi travado entre Pietro Francesco Giavina Bianchi, diretor da empreiteira, acusado por ligações com doleiros, e um interlocutor identificado apenas como "Marcelo", que inicia a conversa:
- Aquela tulipa, lembra? Chegou a ver?
- Não. O que é isso?
- Eram algumas coisas para acontecerem ontem.
- Sim, mas o que é? Campanha política?
- É.
- Por dentro?
- Não.
- É. Então não tô sab... nem eu tô sabendo... tudo.
Em mais uma gravação autorizada pela Justiça, o mesmo Pietro Bianchi conversa com Fernando Dias Gomes, outro diretor da empreiteira. Gomes telefonara para Bianchi porque um tal "Luiz" gostaria de saber se o deputado José Carlos Aleluia recebera dinheiro em 2008. Pietro Bianchi responde:
- Mas pagamos, não?
- É, eu vou dar uma olhada (...). Diz que ele tem um pen drive lá embaixo.
- Além disso, na minha pasta lá...
- Hum.
- ... tem aquela pasta de eleições.
- Ah, tá bom.
- E lá tem todos os caras que foram pagos.
- Eu procuro lá, então.
- A relação inclusive... bom, inclusive o oficial... a colaboração oficial.
- Tá bom. Tem as duas, né? Tá bom.
A Camargo Corrêa teria repassado R$ 178 milhões a políticos e funcionários públicos entre 1995 e 1998, durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP). A Operação Castelo de Areia poderia se transformar num barril de pólvora. Em 2008, a Camargo Corrêa participava, por exemplo, das obras de construção da ferrovia Norte-Sul, no trecho Anápolis-Uruaçu, em Goiás, pelas quais recebera R$ 44 milhões. A Polícia Federal, por sua vez, investigava, entre outras, cinco grandes obras da empreiteira tocadas em 2009, algumas já relacionadas neste texto: as construções da eclusa da hidrelétrica de Tucuruí (PA), aeroporto de Vitória, Tribunal Regional Federal no Distrito Federal, metrô de Salvador e, principalmente, a refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE), uma parceria do governo Lula com a Venezuela, bandeira do presidente do Brasil. O custo da refinaria era de US$ 4 bilhões em 2005. Chegaria a US$ 12 bilhões em 2009.
Para evitar problemas, Lula agiria com rapidez, solicitando a seu ex-ministro da Justiça, advogado Márcio Thomaz Bastos, que atuasse como criminalista na defesa da Camargo Corrêa. Bastos aceitou na hora, mas negou haver o pedido de Lula. Auditoria do TCU identificara diversas irregularidades na primeira parte da construção da refinaria Abreu e Lima. Teria havido superfaturamento de R$ 121 milhões em serviços executados, inclusive nos de terraplenagem. Usariam o truque do "jogo de planilha", pelo qual itens sujeitos a prováveis compras posteriores receberiam preços mais altos, enquanto aqueles cujas quantidades podem ser reduzidas ao longo da obra ficariam com preços baixos. Existiriam indícios da contratação de funcionários e até de máquinas-fantasmas, além de suspeitas relacionadas à aquisição de laboratório, tanques de armazenamento e cozinha industrial. Uma das contratadas pela Petrobras para tocar as obras em Abreu e Lima, citada pela Polícia Federal, era a EIT (Empresa Industrial Técnica). Ela apareceria como suspeita de efetuar pagamentos indevidos ao grupo do empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).
As atividades de Fernando Sarney foram investigadas pela Polícia Federal e justificarão a devida atenção do leitor, conforme veremos nos próximos capítulos. Em todo o caso, cabe registrar as suspeitas dos federais sobre as ligações entre o filho de José Sarney e Silas Rondeau, ex-ministro de Minas e Energia, afastado do governo Lula no bojo de um caso de corrupção, como já vimos. Mas Silas Rondeau continuaria agindo na gestão do PT. Utilizaria sua influência na Petrobras, da qual era integrante do Conselho de Administração, para beneficiar os negócios do grupo de Fernando Sarney.
Silas Rondeau faria uso de uma consultoria para "mascarar" o recebimento de dinheiro de empresas do setor de energia. Ele figuraria como sócio oculto da RV2, que assinara, por exemplo, contrato de R$ 195 mil com a Multiner, empresa com atuação na construção de usinas eólicas. A Multiner também controlaria a termelétrica de Cristiano Rocha, em Manaus, que recebera financiamento de R$ 27,7 milhões da Petros, o fundo de pensão da Petrobras.
Oito meses após deflagrar a Operação Castelo de Areia, a Polícia Federal concluiu uma nova fase de investigações sobre as atividades da Camargo Corrêa. O delegado Otavio Margornari Russo apontou obras suspeitas de superfaturamento e indícios de doações ilegais a cerca de 200 políticos.
Citou o deputado Walter Feldman (PSDB-SP), que teria recebido US$ 5 mil por mês, de janeiro a dezembro de 1996, além de outros US$ 20 mil em 1998. Fez referências a US$ 45 mil encaminhados em 1996 a "Palácio Band", o que indicaria se tratar do Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo de São Paulo.
O nome do presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), surgiu como beneficiário de US$ 345 mil, ao lado dos registros de 21 cifras com valores, datas e taxas de câmbio. Os valores repassados pela Camargo Corrêa a Michel Temer seriam redondos, variando de US$ 5 mil a US$ 10 mil e, em alguns anos, com periodicidade mensal.
O delegado federal relacionou o ex-deputado Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), supostamente contemplado com US$ 15.780 em 1998, o ex-senador Gilberto Miranda, com US$ 50 mil, e a Companhia Energética de São Paulo, para onde "doação" de US$ 2,3 milhões teria sido enviada em 1997.
O Ministério Público Federal em São Paulo ofereceu denúncia contra os executivos da Camargo Corrêa Pietro Francesco Giavina Bianchi, Fernando Dias Gomes e Darcio Brunato. Apontou o pagamento de R$ 4 milhões de propina no exterior, um acerto para a empreiteira vencer licitações e construir cinco hospitais no Pará e 23 navios para a Transpetro, uma subsidiária da Petrobras. No caso dos cinco hospitais, o suborno irrigaria os caixas 2 do PT e do PMDB com, respectivamente, R$ 260 mil e R$ 130 mil.
Havia suspeitas de pagamento de propina aos senadores Inácio Arruda (PC do B-CE) e Renato Casagrande (PSB-ES) pelo suposto envolvimento deles com as obras de construção do metrô de Fortaleza e do aeroporto de Vitória. O diretor da Eletronorte, Adhemar Palocci, irmão do deputado Antonio Palocci (PT-SP), também seria investigado, por conta das obras na eclusa da hidrelétrica de Tucuruí. Os serviços da Camargo Corrêa em Tucuruí gerariam R$ 1 milhão em comissões ilegais, dividido meio a meio entre PT e PMDB. Astrogildo Quental, diretor da Eletrobrás, ligado à família Sarney, poderia estar envolvido na maracutaia de Tucuruí, conforme as investigações.
O nome do deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP), um dos expoentes do escândalo do mensalão, da mesma forma que o de Paulo Souza, diretor da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário, empresa do Governo de São Paulo), apareceu ligado a suspeitas relacionadas à construção do rodoanel Mario Covas. Obras da linha 4 do metrô de São Paulo teriam servido para o pagamento de propinas, da mesma forma que as da ponte Jurubatuba, na zona sul da cidade. Foram citados Elton Zacarias, secretário de Habitação da Prefeitura de São Paulo, supostamente envolvido em irregularidades nas obras de urbanização de Paraisópolis, na capital paulista, e os vereadores paulistanos Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP) e Toninho Paiva (PR-SP), suspeitos de facilitar a compra de um terreno para a Camargo Corrêa. Elton Zacarias teria recebido R$ 1 milhão. Os dois vereadores, R$ 800 mil.
Um dos grandes contratos assinados sem licitação durante a era Lula entre a Petrobras e organizações não-governamentais, no valor de R$ 16,1 milhões, foi o celebrado em outubro de 2008 com o MBC (Movimento Brasil Competitivo), uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). O escopo do convênio era a modernização da gestão pública e o aumento da competitividade do setor. No papel, tudo muito bonito. Como sempre. O problema foi que, entre seus conselheiros, o MBC tinha o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, e mais quatro ministros da administração Lula, inclusive a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT-RS).
A Petrobras teria assinado contratos suspeitos, no valor de R$ 203 milhões, com o grupo Protemp, que disponibilizava mão-de-obra. Entre 2005 e 2009, as quatro empresas da organização, cuja sede ficava em Santo André (SP), firmaram 27 contratos com a Petrobras, sendo que 11 por dispensa de licitação. Havia suspeitas de que "laranjas" eram proprietários da Protemp.
O "sócio" Walter Fabri, por exemplo, não passaria de um funcionário da empresa. Deolinda Malentachi, moradora da periferia de Santo André, teria participação majoritária no grupo. Morreu sem deixar bens. Outra moradora da periferia de Santo André, a aposentada Maria Aparecida da Costa, ficaria "sócia" depois de perder os documentos e receber solicitação "para assinar uns papéis". De acordo com a Folha de S.Paulo, ela seguiria orientação de um advogado que a procurara, de nome Saulo de Lima, um ex-secretário do prefeito Dario Lima (PT) em Blumenau (SC).
O repórter Fernando Barros de Mello revelou também o nome de um ilustre "empregado" da Protemp, devidamente terceirizado e instalado no setor de Comunicação Institucional da Petrobras, em São Paulo: José Carlos Espinoza, fiel escudeiro de Lula. Ex-segurança do chefe, chegou ao comando do gabinete regional da Presidência da República em São Paulo, no primeiro mandato de Lula. Participou da elaboração da agenda da campanha de Lula à reeleição em 2006. Deixou o cargo na esteira do escândalo do dossiê, aquele que envolveu o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), já relatado aqui.
Na Petrobras, José Carlos Espinoza teria a função, conforme explicou, de fazer a interlocução com os movimentos sociais. Ao esclarecer o que fazia, citou dirigentes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura e Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar. Nas palavras de José Carlos Espinoza:
- Por conta exatamente do meio de campo que foi pedido para eu fazer entre os movimentos sociais e a Petrobras. Conheço o José Rainha, o presidente da Contag, o pessoal da Fetraef.
O TCU examinou o destino das aplicações da Petrobras em programas e obras sociais. Eram convênios ou contratos firmados por dispensa de licitação que movimentaram R$ 209 milhões entre 2003 e meados de 2009. A maior parte do dinheiro vinha do chamado FIA (Fundo da Infância e Adolescência) e beneficiou o PT e os partidos da base aliada do presidente Lula. De dezembro de 2008 a maio de 2009, por exemplo, de R$ 38,6 milhões provenientes de 157 repasses, 54% dos recursos irrigaram administrações do PT. Os 46% restantes foram divididos por 16 partidos. Se considerarmos o PMDB, os dois principais partidos da base aliada, PT e PMDB, embolsaram 67% da verba.
Levantamento do TCU identificou repasses da Petrobras, no valor de R$ 15 milhões, para a CUT (Central Única dos Trabalhadores, ligada ao PT) alfabetizar 140 mil trabalhadores entre 2004 e 2005, ainda no primeiro mandato de Lula. Parte do dinheiro compraria 100 mil kits de cadernos, estojos, borrachas, lápis e apontadores para uso de alunos, e outros 4 mil kits, com cadernos, pastas e canetas, seguiriam para professores. Não houve comprovação da distribuição dessas centenas de milhares de itens.
A Petrobras financiou 119 festas de São João na Bahia. A maioria dos eventos beneficiou cidades governadas pelo PT ou por partidos da base aliada, entre 2005 e 2008. Os recursos da estatal eram intermediados pela Aanor (Associação de Apoio e Assessoria a Organizações Sociais no Nordeste), uma organização não-governamental dirigida por Aldenira da Conceição Sena, vice-presidente do PT da Bahia. A entidade recebeu R$ 4,1 milhões para fazer o gerenciamento das festas.
A Folha de S.Paulo apurou que Rosemberg Pinto, assessor especial do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli (PT-BA), negociava cotas de patrocínio para as tais festas juninas. Indicava empresas que deveriam ser contratadas pelos prefeitos. Cesira Maccarinelli Ferreira, suplente do Conselho Fiscal da Aanor, era secretária particular do governador Jaques Wagner (PT-BA). Outra dirigente da entidade, Maria das Dores Loiola Bruni, mantivera ligações com o ex-deputado Josias Gomes (PT-BA), um dos envolvidos no escândalo do mensalão.
A CGU (Controladoria-Geral da União) detectou indícios de desvios em oito contratos da Petrobras, no valor de R$ 5,6 milhões, todos celebrados com organizações não-governamentais entre 2003 e 2008. Conforme o jornal O Globo, havia ausência de comprovantes de despesas e dinheiro da estatal em empresas ligadas aos próprios donos das entidades patrocinadas. Um repasse suspeito, no valor de R$ 1,4 milhão, beneficiou a Associação Vira Lata, uma cooperativa de catadores de papel dirigida por um assessor do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), também citado no escândalo do mensalão.
Outro repasse sob investigação, de R$ 477 mil, favoreceu a Confederação das Mulheres do Brasil, que manteria ligações com o PMDB. Documentos apresentados pela entidade seriam fraudados. Empresas de parentes de diretores da patrocinada teriam sido contratadas com dinheiro da Petrobras. Já o Ceap (Centro de Articulação de Populações Marginalizadas) recebeu R$ 2,9 milhões. A CGU apontou diversos problemas no uso do dinheiro por parte da entidade, que era dirigida pelo ex-vereador Ivanir dos Santos (PT-RJ).
Uma organização não-governamental, o Ifas (Instituto Nacional de Formação e Assessoria Sindical da Agricultura Familiar), com sede em Goiânia, fechou convênio de R$ 4 milhões com a Petrobras em 2007. O acordo previa o plantio de mamona, dendê e girassol em Minas Gerais, Ceará e Bahia. A empresa estatal chegou a repassar R$ 1,6 milhão do estipulado, mas nada saiu do papel, conforme o jornal O Estado de S. Paulo. Entre os nomes dos fundadores do Ifas estava Delúbio Soares, tesoureiro do mensalão.
Durante os dois mandatos de Lula, três empresas foram contratadas 268 vezes pela Petrobras. Juntas, R.A. Brandão Produções Artísticas, Guanumbi Promoções e Eventos e Sibemol Promoções e Eventos, esta última registrada em endereço onde funcionava um canil, no Rio, faturaram R$ 11,6 milhões, em contratos sem licitação. Raphael de Almeida Brandão era sócio das três. Outra coincidência: a responsabilidade pelas contratações estava a cargo do gerente de comunicação de Abastecimento da Petrobras, Geovane de Morais, oriundo do movimento sindical de químicos e petroleiros da Bahia, como, aliás, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, o seu assessor especial, Rosemberg Pinto, e o próprio governador do Estado, Jaques Wagner.
Geovane de Morais teria gastado R$ 150 milhões em 2008, sendo que só haveria autorização para despender R$ 30 milhões. Como foi possível? Ele seria exonerado no começo de abril de 2009, mas, até o final de julho daquele ano, permanecia na Petrobras, em licença médica. Nos negócios suspeitos com recursos públicos firmados por Geovane de Morais surgiriam os nomes de duas produtoras de vídeo, ambas contratadas também por campanhas eleitorais do governador Jaques Wagner e de prefeitos do PT. A Movimento Produções e Eventos e a M&V Produções receberam R$ 7,2 milhões em contratos sem licitação. As empresas estavam em nome do mesmo dono, Vagner Angelim.
Em 2004, Geovane de Morais autorizou a contratação, por R$ 163 mil, da Movimento Produções e Eventos. No ano seguinte, gastou R$ 291 mil com as duas produtoras. Em 2006, ano da eleição de Jaques Wagner a governador, a Petrobras despendeu mais R$ 1 milhão em contratos com as produtoras de Vagner Angelim. Em 2007 a conta foi de R$ 1,8 milhão. Em 2008 mais que dobrou, para R$ 4 milhões. Entre as irregularidades apuradas, Geovane de Morais faria pagamentos sequenciais às empresas. Evitava celebrar contratos. Ao escolher desembolsos picados elevava custos e aumentava os ganhos das prestadoras de serviço. Em 2008 foram 90 pagamentos às duas produtoras. Outros serviços contratados por Geovane de Morais não teriam sido entregues.
A ANP (Agência Nacional de Petróleo) investigou compensações financeiras pagas pela Petrobras, os chamados royalties, a prefeituras em cujas cidades havia exploração de petróleo e gás ou instalações para armazenar ou escoar combustível. Encontrou aumento de quase 800% em repasses ocorridos durante os anos Lula, principalmente no Nordeste. Os valores subiram de R$ 16 milhões, em 2002, para R$ 144 milhões, nos primeiros seis meses de 2008.
Levantou suspeita que procuradores da própria agência reguladora, do escritório de Brasília, teriam sido responsáveis por pagamentos superiores aos determinados pela Justiça. Alguns deles fariam defesas negligentes. O jornal O Estado de S.Paulo contou a história do pequeno município de Itambé (PE). Passa por seu território o gasoduto Nordestão 1. A ANP determinara royalties em torno de R$ 40 mil por mês em 2007. A Prefeitura contratou a Paradigma Consultoria, dirigida por Eugênio Roberto Maia, superintendente da ANP até 2006. O valor dos royalties pulou para R$ 584 mil por mês.
Em outubro de 2009, 15 municípios nordestinos mantinham contratos com a empresa de Eugênio Roberto Maia e brigavam judicialmente contra a ANP. A cidade de Moreno (PE) viu a arrecadação por royalties subir de R$ 44 mil, em 2007, para R$ 8,7 milhões, no ano seguinte. No caso de Itambé, a Paradigma Consultoria, com sede no Rio, ganhou R$ 1,1 milhão em comissões. Foi a compensação pelos R$ 11,5 milhões arrecadados em 17 meses pela Prefeitura.
Um caso deu o que falar. Victor de Souza Martins, irmão do ministro da Comunicação, Franklin Martins, era diretor da ANP desde 2005. Ele foi acusado de desviar recursos da Petrobras para esquema de pagamento de royalties. Praticaria tráfico de influência a fim de beneficiar a empresa Análise Consultoria e Desenvolvimento, operada por sua mulher, Josenia Bourguignon Seabra. Pagamentos de royalties retroativos, referentes à exploração do campo de Marlim, na bacia de Campos, poderiam gerar uma soma de R$ 1,3 bilhão, e dezenas de milhões em comissões irregulares. Victor de Souza Martins negou.
Doze cidades teriam obtido novos e vantajosos critérios de pagamento de compensações do setor petrolífero, graças a recomendações de Victor de Souza Martins. Os diretores da ANP arbitravam sobre o pagamento de royalties. Juntos, cinco dos 12 municípios mais que dobrariam a arrecadação com as compensações, obtendo R$ 176 milhões em 2008. A Polícia Federal admitiu investigar o caso em abril de 2009, mas não confirmou se Victor de Souza Martins estava entre os suspeitos. Um dossiê contra o diretor teria sido elaborado por araponga do próprio setor de inteligência da ANP.
Angra dos Reis (RJ) dobrou a receita mensal com royalties, de R$ 2,5 milhões para R$ 5,2 milhões, após contratar, em 2007, a Petrobonus Consulting, empresa especializada em obter o benefício. Onze cidades fizeram o mesmo, sem licitação. O relatório concedendo a compensação a Angra dos Reis foi assinado por Victor de Souza Martins. A consultoria renderia R$ 23 milhões em comissões à empresa. Newton Simão fazia parte dos quadros da Petrobonus. Antes, ele era assessor de Victor de Souza Martins, na ANP. Do secretário de Fazenda de Angra, Roberto Peixoto, em 9 de abril de 2009:
- Fizemos várias tentativas junto à ANP para conseguir enquadramento e não conseguimos. Só tivemos sucesso com a Petrobonus.
Um caso palpitante pôs a ANP na berlinda: o pagamento de R$ 178 milhões, supostamente ilegal, a sindicatos de produtores de álcool de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais. O episódio teve a participação do diretor-geral da ANP, Haroldo Lima, uma liderança do PC do B. O acerto para quitar subsídios que seriam devidos aos usineiros teria sido lesivo aos cofres públicos, pois o valor, muito alto, foi pago em dinheiro, evitando o procedimento padrão de mandar os credores à fila dos precatórios. Além de Haroldo Lima, teriam participado da negociação o deputado José Mentor (PT-SP) e um amigo, o lobista Paulo Afonso Braga Ricardo, que ficaria com comissão de 30% do total, ou seja, quase R$ 50 milhões. O lobista disporia de empresa offshore e teria uma ex-empregada doméstica de "sócia".
Havia ainda indícios de fraudes em licitações para reformar plataformas marítimas, no valor de R$ 200 milhões, conforme investigação da Polícia Federal na Operação Águas Profundas, realizada em 2007. O TCU também apontara possíveis irregularidades em contratos para construir plataformas. Com base no trabalho dos federais, o Ministério Público denunciou 26 pessoas por formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva, fraude em licitação e falsificação de documentos, incluindo diretores da Iesa Óleo e Gás.
Apesar da ação criminal contra dirigentes da empresa, a Petrobras assinou um contrato com a Iesa Óleo e Gás no ano seguinte, no valor de R$ 190 milhões, para reformar plataformas. A empresa também participava do consórcio encarregado de construir a plataforma P-63, no valor de R$ 1,6 bilhão. Na investigação da Operação Águas Profundas, a Iesa Óleo e Gás admitiu ter entregue R$ 3,5 milhões à Angraporto, para comprar informações privilegiadas e vencer concorrência na Petrobras. A Angraporto, por sua vez, teria pago propina a funcionários da Petrobras, a fim de ganhar os certames. Com os dados, a Iesa obteria contrato para reformar a plataforma P-14. Em 2006, a mesma Iesa doara R$ 1,6 milhão para a campanha eleitoral do PT.
Como a Iesa, a GDK também se metera em confusão e sairia recompensada pela Petrobras. A empresa, com sede em Salvador, tornou-se famosa em 2005, após um de seus executivos presentear o então secretário-geral do PT, Silvio Pereira, com um jipe Land Rover. A revelação do mimo a Silvio Pereira ocorreu no auge do escândalo do mensalão. Na época, a GDK era dona de R$ 512 milhões em contratos com a Petrobras, sendo que a reforma da plataforma P-34, no campo de Jubarte (ES), teria sofrido sobrepreço de US$ 23 milhões. Conforme levantamento da Folha de S.Paulo, após o escândalo a GDK voltaria a ser contratada 19 vezes pela Petrobras. Total dos contratos firmados, entre 2007 e 2009: R$ 584 milhões. O mais alto, no valor de R$ 199 milhões, foi assinado com dispensa de licitação.
Diversas ocorrências justificaram a criação da CPI da Petrobras. Mas o Palácio do Planalto a manteve sob controle desde o início, em agosto de 2009. Oito de seus 11 integrantes eram da base aliada. Lula ainda dispunha do presidente da comissão, senador João Pedro (PT-AM), e do relator, senador Romero Jucá (PMDB-RR), seu líder no Senado. Requerimentos da oposição foram derrubados. Não houve acesso a dados considerados sigilosos. Engavetaram a investigação do convênio entre a Petrobras e a Fundação José Sarney. Não prosperaram as tentativas de averiguar a manobra contábil usada pela Petrobras, com a finalidade de alterar seu regime tributário e deixar de pagar R$ 2 bilhões em impostos em 2009.
Ao contrário da CPI dos Correios, que quase o derrubou, Lula, mais experiente, negociou antes e blindou a CPI da Petrobras. No editorial "Sob a regência de Lula", o jornal O Estado de S. Paulo abordou a relação estreita entre o presidente da República e o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP): "O apoio a Sarney é peça-chave nessa formidável construção de poder que Lula rege pessoalmente porque considera a sua prioridade número um. No primeiro mandato, Lula não raro delegou as articulações políticas do governo a Dirceu e aos ministros Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, e Antonio Palocci, da Fazenda. Neste segundo período, escaldado pelos tropeços no escândalo do mensalão, e até por falta de alternativas, tornou-se ele próprio o seu principal operador político".
Dois meses antes do início dos trabalhos da CPI da Petrobras, Lula já dava uma dica sobre como trabalhava a comissão de inquérito. O presidente estava ao lado de José Sarney, durante um evento em homenagem ao ministro e ex-presidente do TCU, Marcos Vilaça. Lula voltou-se a Vilaça:
- Hoje você é ministro e eu sou presidente. Mas, daqui a um ano e meio, eu não sou mais presidente e vamos estar tomando uma água de coco com uma pituzinha lá em Pernambuco, sem prestar contas à imprensa, sem prestar contas a nenhuma CPI da Câmara ou do Senado, apenas prestando contas ao que nós vamos fazer no futuro.
Logo após a instalação da CPI, Lula voltaria a se manifestar:
- O Senado só tem gente experiente. Você acha que tem algum bobo no Senado? O bobo é quem não foi eleito. Os espertos estão todos eleitos.
Perguntado se os senadores fariam a CPI acabar em pizza, Lula vaticinou:
- Todos eles são bons pizzaiolos.

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O CHEFE - Capítulo 17 - Dois anos depois, Polícia Federal desmantelou outra organização criminosa nos Correios

Capítulo 17

Dois anos depois, Polícia Federal desmantelou
outra organização criminosa nos Correios

Apesar de a ECT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos) ter sido a ponta do novelo do maior esquema de corrupção da administração federal do PT, Lula deixou a coisa correr solta. Lavou as mãos. Em 2005, no calor do escândalo, ainda demitiram três funcionários, incluindo Maurício Marinho, o chefe de Contratação e Administração de Material, afastado após gravação clandestina mostrá-lo recebendo propina. Remanejaram outros 20 servidores, todos ocupantes de cargos de chefia na época. Note-se bem: eles foram transferidos de função, mas mantidos na empresa. E as "cartas do jogo", antes divididas entre PMDB, PT e PTB se concentrariam no segundo mandato de Lula no partido do ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB-MG), cuja legenda se tornara a principal base de apoio do governo. Deu no que deu.
Dois anos após o escândalo do mensalão, a Polícia Federal e o Ministério Público desencadearam a Operação Selo. Era agosto de 2007. Prenderam uma quadrilha especializada em fraudar licitações, vender produtos e fornecer serviços para os Correios. A ironia é que entre os cinco presos estava o empresário Arthur Wascheck Neto, apontado como o responsável por encomendar a gravação das imagens de Maurício Marinho em 2005. Este o contrariara e a filmagem teria sido uma vingança. De qualquer forma, Arthur Wascheck Neto continuaria na ativa, operando dentro dos Correios. Para o delegado federal Daniel França, a corrupção nos Correios se assemelhava a um câncer, que ressurgia por metástase. Declaração do delegado:
- Como os traficantes fazem no morro, quando são mortos ou presos, acontece o mesmo no serviço público. Uma quadrilha sai e entra outra para praticar os mesmos atos ilícitos no seu lugar.
Por orientação de Lula, o PMDB indicara toda a nova linha de comando dos Correios. Do presidente Carlos Henrique Custódio aos principais dirigentes da empresa, todos eram padrinhos de Hélio Costa (PMDB-MG), José Sarney (PMDB-AP), Renan Calheiros (PMDB-AL), Ney Suassuna (PMDB-PB) e Romero Jucá (PMDB-RR), o líder do governo no Senado. As investigações apontaram a existência de uma tabela da propina, quitada com dinheiro, empregos, passagens, mimos e outras vantagens. As máfias incrustadas nos Correios englobariam cerca de 20 empresas.
A história do empresário Arthur Wascheck Neto vinha de longe. No governo do presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) ele foi envolvido com uma compra superfaturada de bicicletas. O escândalo ajudou a derrubar o então ministro da Saúde, Alceni Guerra. Com o tempo, Arthur Wascheck Neto concentraria suas ações nos Correios. Preso, foi acusado de ser lobista e intermediador junto ao grupo de empresários denunciado por fraudar licitações. A quadrilha corromperia funcionários para vender produtos com especificações abaixo do previsto em editais e, portanto, repassaria bens de qualidade inferior. Assim, podia oferecer preços menores. Venceu licitações para entregar cofres, geladeiras, tênis, botas, capas de chuva e guarda-chuvas.
Em consequência da Operação Selo, perdeu o cargo o diretor de Operações dos Correios, Carlos Roberto Samartini Dias. Foi afastado, apenas. Não houve anúncio de sua demissão. Ele manteria ligações com o empresário Marco Antonio Bulhões, preso pela Polícia Federal. Para o procurador Bruno Acioli, Arthur Wascheck Neto era um "símbolo, subproduto da corrupção e da impunidade que imperam no País". Do procurador Bruno Acioli, que estimou prejuízos em milhões de reais para a estatal federal:
- Ele lesa, frauda, chantageia e corrompe há anos, sem que nada aconteça.
Um dos casos que mais chamou a atenção foi o do transporte de cargas pelo correio aéreo noturno. Em novembro de 2007, a Justiça Federal determinou a indisponibilidade de aeronaves, imóveis e veículos das empresas Skymaster Airlines e Beta (Brazilian Express Transportes Aéreos), acusadas de fraudar licitação e desviar R$ 413 milhões dos Correios. Ambas agiriam em conluio para controlar contratos de prestação de serviços.
Sete meses antes, porém, o TCU (Tribunal de Contas da União) já havia determinado aos Correios a suspensão da licitação para o correio aéreo noturno. Considerou viciadas as regras do certame e não viu motivo para "contratação emergencial", com reajuste de 61% e valores despendidos que passariam dos R$ 82,5 milhões e atingiriam R$ 132,7 milhões. Os esforços da CPI dos Correios para apurar irregularidades quase não adiantaram nada.
Em janeiro de 2008, quase três anos depois das primeiras notícias acerca do esquema de corrupção nos Correios, a Polícia Federal apresentou um relatório de 130 páginas sobre o caso. O ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) foi denunciado por formação de quadrilha, acusado de realizar um "verdadeiro loteamento" da empresa federal, com vistas a operar o que se descreveu como "fábricas de dinheiro". As empresas contratadas pelos Correios teriam de destinar de 3% a 5% de tudo o que recebiam para engordar os cofres do PTB.
Computador apreendido com dirigente do partido mostrou detalhes da contabilidade da propina, incluindo nomes de empresas, valores de contratos, funcionários responsáveis pela cobrança de propina, frequência de pagamentos e porcentuais acertados e encaminhados ao PTB. Licitações dirigidas, compras supérfluas, empresas agindo em conluio e superfaturamento de produtos e serviços permearam contratos da ordem de R$ 8 bilhões. Do relatório da Polícia Federal:
"As solicitações de contribuições aos fornecedores da ECT por parte dos empregados dos Correios, membros da quadrilha, eram explícitas e algumas vezes chegavam à beira da extorsão. Além da entrega de dinheiro em troca de informações e de benefícios indevidos nos procedimentos administrativos de licitação, nas prorrogações de contratos, na repactuação de preços, os fornecedores da ECT também contribuíam diretamente para o partido nas campanhas eleitorais."
O relatório também apontou para o PT. O ex-diretor de Tecnologia dos Correios, Eduardo Medeiros, indicado para o cargo com o beneplácito da dupla José Dirceu/Silvio Pereira, teria favorecido a empresa Novadata, de Mauro Dutra, o "Maurinho", amigo de Lula. A Novadata teria obtido reajuste inexplicável no valor de um de seus contratos, além de ter vencido uma licitação com critérios supostamente irregulares. A empresa teria sido poupada de pagar multas por atrasos na execução de serviços. Do relatório:
"Apesar de ainda não ter sido cabalmente provado, Mauro Dutra é suspeito de ter feito acertos com servidores de pelo menos duas áreas dos Correios para vencer uma licitação e, também, para obter reajuste de R$ 5,5 milhões no valor de um contrato". O inquérito da Polícia Federal acrescentou:
"Ao longo dos anos vem ocorrendo, tanto nos Correios quanto em outras empresas estatais do País, uma espécie de 'loteamento' dos cargos em comissão a pessoas dos mais diversos matizes políticos que se alternam no poder. Através desse instrumento censurável, busca-se angariar recursos financeiros junto às empresas privadas fornecedoras de serviços e produtos ao aparelho estatal, em compensação aos ajustes escusos realizados pelos gestores de tais empresas. Esses recursos, geralmente provenientes de 'caixa 2', são, em parte, destinados aos partidos políticos infiltrados nas empresas públicas à custa da dilapidação do erário levada a cabo por meio de fraudes de toda ordem realizadas em licitações."
No arquivo de computador de Fernando Godoy, assessor de Antonio Osório Batista, diretor de Administração dos Correios, os federais encontraram uma planilha que registrava compra superfaturada de 1 mil furgões da marca Fiat. Cada veículo teria sido adquirido por R$ 34 mil, enquanto o preço de mercado era de R$ 27,5 mil. Além disso, a planilha indicava propina de R$ 1 mil por automóvel, totalizando R$ 1 milhão, do qual R$ 50 mil teriam sido destinados ao PTB. Tanto Antonio Osório Batista como Fernando Godoy foram indicados para ocupar postos estratégicos nos Correios por Roberto Jefferson.
Pode-se dizer que Jefferson era um símbolo da política brasileira. Acusado em diversos escândalos e falcatruas, manteve o cargo de presidente nacional do PTB. O partido, por sua vez, fez parte da base de apoio político do governo Lula, em seus dois mandatos. Em setembro de 2008, o Ministério Público Federal no Distrito Federal denunciou Jefferson e mais sete servidores dos Correios à Justiça, incluindo Antonio Osório Batista e Maurício Marinho, por formação de quadrilha e "prática de corrupção generalizada".
Para os procuradores da República Bruno Acioli, Raquel Branquinho e José Alfredo de Paula, os Correios foram "vítima da ação organizada de quadrilhas compostas basicamente por empregados públicos, políticos, empresários e lobistas". O grupo teria recebido R$ 5 milhões de propina em pouco mais de dois anos de governo Lula. Quanto a Roberto Jefferson, era o responsável por monitorar o desempenho de correligionários do PTB na estatal. "Um gênio do crime", na definição de Bruno Acioli. Sob comando de Jefferson, os petebistas tinham a missão de arrecadar fundos para o partido.
Os desvios de recursos nos Correios ocorreriam há mais de uma década e, portanto, viriam do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP). O grupo de Roberto Jefferson teria herdado o esquema. De acordo com a denúncia, Jefferson, líder da quadrilha, "repassava demandas financeiras e, assessorado pelo denunciado Roberto Garcia Salmeron, monitorava o desempenho do denunciado Antonio Osório em sua missão de arrecadar fundos para o PTB". Roberto Garcia Salmeron, amigo do presidente do PTB, trabalhou durante anos nos Correios e, conforme a denúncia, seria uma espécie de consultor para desvios de recursos de contratos da estatal.
Ao depor como réu no processo do mensalão, em fevereiro de 2008, Roberto Jefferson admitiu ter recebido R$ 5 milhões do caixa 2 do PT, em troca do apoio parlamentar do PTB ao governo Lula. Segundo ele, R$ 1 milhão pagaram a produção de comerciais de televisão do partido em 2003, e R$ 4 milhões serviram para quitar despesas da campanha petebista nas eleições municipais de 2004. O prefeito de Juiz de Fora (MG), Carlos Alberto Bejani (PTB), teria sido um dos agraciados, com R$ 750 mil. Ele também foi apoiado pelo PT. Em 2008, renunciou em meio a um escândalo de corrupção. De acordo com o relato de Roberto Jefferson, o PTB também recebeu, do governo Lula, o Ministério do Turismo, a presidência da Eletronorte, uma diretoria dos Correios e a presidência do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil).
A propósito de Mauro Dutra, o Maurinho. Além da Novadata, supostamente metida nas tramoias que ocorreram nos Correios, o empresário dirigiria a ONG Ágora, que durante quase quatro anos foi investigada pelo Ministério Público do Distrito Federal. Criada para organizar e dar cursos de capacitação a trabalhadores, a Ágora foi acusada de desviar R$ 900 mil do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). O valor fora corrigido para R$ 1,8 milhão em abril de 2008, quando da condenação do amigo de Lula. Cabia recurso.
No final de outubro de 2008, a Polícia Federal pôs em ação a Operação Déjà Vu, para desmantelar um suposto esquema fraudulento em licitações e na venda e transferência de agências franqueadas dos Correios, com o envolvimento de funcionários da estatal. A maracutaia representaria rombo de R$ 30 milhões por ano. Os federais prenderam 15 suspeitos, acusados de crimes de extorsão, tráfico de influência, corrupção ativa, corrupção passiva, advocacia administrativa, formação de quadrilha, falsidade ideológica e descaminho. Apreenderam R$ 500 mil em dinheiro, cinco automóveis de luxo e vários computadores. A Polícia Federal agiu em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Havia indícios de crimes em franquias, que serviriam para a remessa de mercadorias ao exterior.
A CPI dos Correios chegou a propor 21 projetos de lei para prevenir e combater a corrupção, com o intuito de eliminar mecanismos usados para desviar dinheiro público. Previam programas nacionais que estimulassem denúncias sobre fraudes, projetos com objetivo de reduzir o número de cargos políticos nos governos, leis contra a improbidade administrativa, propostas para alterar e dar mais rigor aos contratos de publicidade e fiscalizar fundos de pensão, movimentações atípicas de dinheiro e operações financeiras internacionais. Nada foi adiante.
Pior: um grupo de dez empresas investigadas pela Polícia Federal, com executivos indiciados e até presos, conseguiu manter contratos com o governo Lula. A União destinou R$ 514 milhões a essas empresas entre janeiro de 2005 e abril de 2007, conforme o relato do repórter Rubens Valente, na Folha de S.Paulo. Apenas cinco dessas empresas receberam a bagatela de R$ 396 milhões no período, a maior parte dos recursos proveniente do Ministério da Saúde. O então ministro Humberto Costa (PT-PE), aliás, chegou a ser indiciado pela Polícia Federal, durante as investigações da Operação Vampiro sobre fraudes em compras de hemoderivados, em 2004.
Outro caso intrigante foi o da Operação Sentinela, desencadeada pela Polícia Federal no mesmo ano de 2004. Cinco empresas de vigilância foram acusadas de fraudar contratos. Uma delas era a Confederal, cujo proprietário havia sido o ex-ministro das Comunicações, Eunício Oliveira (PMDB-CE). As cinco empresas receberam R$ 118 milhões de órgãos federais, entre janeiro de 2005 e abril de 2007, ou seja, após a ação dos federais. Detalhe: as injeções de dinheiro público nessas empresas dobraram após a Operação Sentinela. Nenhuma foi declarada inidônea pelo TCU (Tribunal de Contas da União).
A Operação Navalha foi das mais ruidosas. Derrubou o então ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, uma indicação do PMDB. Pois bem: em setembro de 2007, o Ministério de Minas e Energia decidiu arquivar os processos administrativos disciplinares abertos contra os funcionários Ivo Almeida Costa, assessor direto de Silas Rondeau, e José Ribamar Lobato Santana, diretor do programa Luz para Todos na época do escândalo. Ivo Almeida Costa foi acusado de intermediar propina de R$ 100 mil a Silas Rondeau, um suborno da empreiteira Gautama. Ficou por isso mesmo.
Outro final patético foi o do esquema criminoso de venda de ambulâncias superfaturadas para prefeituras, com recursos de emendas de parlamentares ao Orçamento da União. A maracutaia, "investigada" pela CPI dos Sanguessugas, era coisa grande: envolvia 493 prefeituras de todo o País e somou fraudes avaliadas em R$ 110 milhões. Em agosto de 2006, a CPI aprovou relatório parcial, apontando a ligação de 69 deputados e três senadores com a chamada máfia dos sanguessugas. Não foi além disso.
Em 21 de dezembro de 2006, o Conselho de Ética da Câmara encerrou os trabalhos daquela legislatura sem punir qualquer deputado. Os senadores também se livraram. Eles foram acusados de receber propina da empresa Planam em troca da apresentação de emendas que destinavam recursos para municípios adquirirem ambulâncias superfaturadas.
Importante ressaltar que o relator da CPI foi o senador Amir Lando (PMDB-RO), ex-ministro do governo Lula. Ele não pediu indiciamento de ninguém, ao contrário do que indicara seu relatório parcial. Livraram-se todos, pois: deputados, senadores, servidores federais, funcionários municipais, prefeitos e empresários, com a exceção de cinco ex-chefes de executivos municipais mato-grossenses e 26 servidores públicos. Eles foram denunciados em novembro de 2008 pelo Ministério Público Federal de Mato Grosso.
O STF (Supremo Tribunal Federal), por sua vez, instaurou outro processo contra 11 suspeitos de envolvimento no escândalo do mensalão, em abril de 2007. Entre os denunciados estavam José Genoino, ex-presidente nacional do PT, Delúbio Soares, ex-tesoureiro do partido, o empresário Marcos Valério e a mulher dele, Renilda Santiago, e dirigentes de bancos. Todos foram acusados por diversos crimes, como gestão fraudulenta e falsidade ideológica. A ação fora aberta pela Justiça Federal de Minas Gerais e o STF a ratificou.
De acordo com o Ministério Público, o BMG concedeu empréstimos ao PT e a empresas de Marcos Valério em troca de vantagens que deram lucros bilionários, decorrentes da autorização para o BMG fazer a "operacionalização de empréstimos consignados de servidores públicos, pensionistas e aposentados do INSS, a partir de 2003". As operações de crédito foram consideradas irregulares, pois "a situação econômico-financeira dos tomadores era incompatível com o valor", e também em razão das parcas garantias oferecidas pelo PT e por Marcos Valério, apontadas como insuficientes.
Em agosto de 2008, a Receita Federal multou o PT em R$ 1,3 milhão, por conta da suposta omissão de valores arrecadados pelo caixa do partido. As receitas não contabilizadas chegariam a R$ 2,4 milhões, dos quais R$ 1,4 milhão proveniente de contas de Marcos Valério. A maior parte teria sido usada para pagar dívidas do partido, por intermédio da agência SMPB.
Agora, Antonio Palocci (PT-SP). O desmembramento das encrencas nas quais o ex-ministro se meteu, no primeiro mandato de Lula, merece comentários. Em 2006, ao ser afastado do governo, Palocci era o principal auxiliar do presidente. Ele não resistiu à denúncia de que mandara quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, que o acusara de frequentar uma casa em Brasília para se divertir com garotas de programa.
Mais grave, ainda: Palocci era acusado de ter recebido propina de R$ 50 mil mensais, na época em que foi prefeito de Ribeirão Preto (SP). O contundente da história era que o autor da denúncia, o advogado Rogério Tadeu Buratti, fora secretário de Governo de Palocci, mantinha relações estreitas com o ex-ministro e havia sido vice-presidente da empreiteira Leão Leão, justamente a empresa que teria bancado o mensalão de R$ 50 mil para o prefeito.
Em seu depoimento original, após ser preso em agosto de 2005, Rogério Buratti relatou a seis promotores de Justiça e a um delegado de polícia que Palocci recebera propina durante os anos de 2001 e 2002, até se desligar da administração municipal para assumir o cargo de ministro da Fazenda de Lula. Pois bem: quase dois anos depois, em junho de 2007, Buratti decidiu fazer uma nova declaração oficial, para se retratar das "insinuações e atribuições feitas e da suspeita levantada em relação a Antonio Palocci".
Ou seja, não era mais verdadeira a história da propina de R$ 50 mil. Na época do primeiro depoimento, Buratti informara que os valores do mensalão estavam "vinculados ao contrato de coleta e varrição aqui em Ribeirão Preto, pois se não houvesse esse contrato, em tese não teria a contribuição". O advogado aceitara contar o que sabia em troca do benefício da delação premiada. A cooperação lhe devolveu a liberdade e garantiu que não fosse denunciado. Quando foi preso, Buratti era acusado de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Caso fosse condenado, poderia ficar preso por 13 anos.
Para recordar, Buratti foi assessor do então deputado estadual José Dirceu (PT-SP), em 1987. Na primeira gestão do prefeito Palocci em Ribeirão Preto (1993-1996), ocupou o cargo de secretário de Governo até ser afastado num caso de suspeita de corrupção. Em 1999 tornou-se vice-presidente da Leão Leão. A empreiteira foi a maior financiadora da campanha de reeleição do prefeito Palocci em 2000. Mantinha diversos contratos com a administração. Em troca de vantagens indevidas, daria propina. Buratti saiu da Leão Leão em 2004, depois de envolvido no caso da rumorosa extorsão à multinacional Gtech. A empresa norte-americana estava interessada em renovar um contrato com a Caixa Econômica Federal. O banco oficial era subordinado ao ministro da Fazenda, à época Antonio Palocci.
Ao justificar o novo depoimento que inocentava Palocci, Buratti argumentou que no anterior estava preocupado com a saúde da mãe. Por isso, "submeteu-se à vontade dos representantes do Ministério Público e da polícia, concordando com suas exigências para poder livrar-se das suas ameaças, que eram concretas, e daquela situação humilhante e constrangedora". Disse que, em 2005, ao depor à CPI dos Bingos, foi "tomado de pânico, temendo nova prisão diante das câmeras de televisão que transmitiam o evento para todo o País". Bobagem: os dois amigos, aliados históricos, orientados por bons advogados, esfriaram a cabeça e decidiram que o melhor era proteger Palocci.
O delegado de polícia seccional de Ribeirão Preto, Benedito Antonio Valencise, responsável pelas investigações da chamada máfia do lixo na cidade, minimizou a importância do novo depoimento de Buratti:
- Ele foi um caminho para as investigações, mas a chave de tudo foram as provas que nós encontramos. Havia notas falsas na empresa, ordens de serviço falsas na Prefeitura que eram usadas no esquema.
Em 26 de fevereiro de 2008, seis dias após ter feito a declaração acima, o delegado Benedito Antonio Valencise foi afastado do cargo. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, houve uma decisão administrativa. Mais de um ano depois de ter sido aberta ação no STF para investigar o envolvimento de Palocci com a máfia do lixo, o processo continuava parado em Brasília, sem a designação de um relator.
A suposta quadrilha chefiada por Palocci havia sido acusada de desviar R$ 30 milhões, por meio do superfaturamento dos serviços prestados pela empreiteira Leão Leão. Conforme o Ministério Público, a Leão Leão recebeu "quantia superior a três vezes o valor original do contrato". Para os promotores, a empreiteira "apresentava planilhas com valores de distância superiores ao que realmente tinham sido varridos". A ação citava casos de medição de 44 a 50 quilômetros de varrição diária, "quando na realidade eram varridos aproximadamente quatro quilômetros".
Palocci também era acusado de introduzir alterações no sistema de compras de produtos alimentícios em Ribeirão Preto, o que talvez beneficiasse determinadas empresas contratadas pela Prefeitura. Nove contratos teriam provocado prejuízos de R$ 2,1 milhões ao município. Uma das compras autorizadas por Palocci ficara famosa, por exigir um certo molho de tomate peneirado, refogado com ervilhas. Os promotores entenderam a especificação como forma de direcionar a contratação em benefício do fabricante Oderich, do Rio Grande do Sul. Também favoreceria a Cathita, fornecedora exclusiva do produto, da mesma forma que outras empresas ligadas a ela.
De acordo com o relatório do Ministério Público, "esquemas semelhantes ocorreram em outras administrações municipais, sendo a maioria administrada por prefeitos filiados ao PT. Apurou-se que vários artifícios foram utilizados para o favorecimento de tais empresas, que quase sempre concorriam entre si, longe de qualquer ameaça de concorrência de outros fornecedores". Palocci conseguiu imunidade parlamentar ao ser eleito deputado federal em 2006.
Em relação ao caso Gtech, o Ministério Público Federal possuía indícios de que a renovação do contrato entre a multinacional da área de informática e a Caixa Econômica Federal, com vistas ao gerenciamento do sistema de loterias, envolveria pagamentos suspeitos no exterior. A empresa norte-americana teria aberto canais de negociação para a sua recontratação em 2003. Mantivera contatos com Waldomiro Diniz, do grupo do então ministro da Casa Civil, José Dirceu (PT-SP), e com Rogério Buratti, ligado a Antonio Palocci, no Ministério da Fazenda. Ambos, Waldomiro Diniz e Buratti, foram acusados de exigir propina milionária. Em junho de 2007, o Ministério Público ainda tentava rastrear o pagamento de uma comissão de R$ 5,5 milhões. Investigava o ex-presidente da Caixa, Jorge Mattoso, também afastado por conta da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Santos Costa. Mattoso teria autorizado a renovação do contrato com a Gtech por 25 meses, por R$ 650 milhões.
Somente em dezembro de 2009 Waldomiro Diniz sofreu condenação no caso Gtech. A Justiça Federal de Brasília considerou o ex-subchefe de Assuntos Parlamentares de José Dirceu culpado por tráfico de influência ao "patrocinar interesses escusos e particulares" em contrato de suposto interesse da Caixa. Ele teria se encontrado duas vezes num hotel com dirigentes da multinacional, em reuniões das quais participaria "Carlos Cachoeira", o famoso empresário do jogo que filmara o próprio Waldomiro Diniz pedindo propina para facilitar negócios com o Governo do Rio, em 2002. De acordo com a denúncia, Waldomiro condicionara a parceria Caixa/Gtech à contratação de Buratti como consultor, por "valor superior a R$ 10 milhões".
Enfim, o episódio da violação do sigilo bancário de Francenildo Costa. O Ministério Público Federal entendeu o crime como parte da estratégia de Palocci para tentar provar que o caseiro recebera pagamento para acusá-lo. O ministro teria determinado a violação, cumprida por Jorge Mattoso. Conforme a Procuradoria-Geral da República, os telefonemas entre os envolvidos comprovariam a trama. Em fevereiro de 2008, Palocci, Mattoso e o assessor de imprensa do ex-ministro, Marcelo Netto, foram denunciados ao STF.
Em outubro de 2008, a revista Piauí relatou que haveria oferta em dinheiro para Francenildo Santos Costa inocentar Palocci. O ex-ministro precisava se livrar da acusação para tentar a candidatura a governador de São Paulo, em 2010. O advogado do caseiro, Wlicio Chaveiro Nascimento, segundo a revista, fora procurado por um intermediário do dono de um restaurante frequentado por dirigentes do PT. Francenildo Costa foi ouvido pela revista. Palavras dele:
- Eles falaram em R$ 1 milhão, mais uma casa, para eu negar tudo. O Wlicio me disse assim: "O conhecido falou em R$ 1 milhão de reais. O dinheiro é bom: você arranja a tua vida e eu fico com a metade. Mas o dinheiro também é ruim: você vai ter que mentir e vai correr perigo. No teu lugar, eu não aceitaria".
O caseiro não aceitou.
Palocci, contudo, se deu bem. O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, acabou recomendando ao STF (Supremo Tribunal Federal), em 23 de abril de 2009, a rejeição e o arquivamento da denúncia de envolvimento do ex-prefeito com a máfia do lixo de Ribeirão Preto. Segundo ele, não haveria provas para fundamentar a denúncia criminal. O requerimento de Souza foi acatado pelo STF. Por outro lado, a Procuradoria-Geral defendia a abertura de processo criminal para julgar Palocci pela violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa. Quatro meses depois, porém, por cinco votos a quatro, o STF decidiu que Palocci não deveria sequer responder pela quebra do sigilo. Para o presidente do STF e relator do caso, ministro Gilmar Mendes, não havia elementos suficientes para comprovar a participação do ex-ministro da Fazenda. Dá para acreditar? Palocci escapou.
O senador Romero Jucá (PMDB-RR), ex-ministro da Previdência Social do presidente Lula, deixou o cargo em 2005. Havia a acusação de que, com um sócio, oferecera propriedades rurais fantasmas como garantia de um empréstimo no Basa (Banco da Amazônia) para pôr em operação um abatedouro de aves em Boa Vista. O abatedouro não chegou a funcionar e o empréstimo deixou de ser pago. Ficaram R$ 25 milhões de prejuízos. O caso ficou conhecido como o escândalo do frangogate. Note-se que Romero Jucá manteve prestígio junto ao presidente da República, tanto que, no segundo mandato de Lula, foi nomeado líder do governo no Senado.
Em novembro de 2008, o STF arquivou o caso, por prescrição da pena. O STF não chegou nem a analisar o mérito da ação. O pedido de prescrição foi feito pelo advogado do senador. Da denúncia formulada pelo procurador-geral Antonio Fernando de Souza: "Os denunciados obtiveram, em 27 de junho de 1996, mediante fraude, financiamento em instituição financeira, uma vez que se utilizaram de imóveis inexistentes como garantia, a fim de receberem a segunda parcela do empréstimo". Romero Jucá também se saiu ileso no STF.
Vale registrar declaração do caseiro Francenildo Santos Costa ao repórter Rubens Valente, publicada na Folha de S.Paulo de 8 de junho de 2009:
- Nós estamos no Brasil, e no Brasil hoje em dia acontece de tudo em termos de política. O cara apronta, apronta, e ainda sai livre da acusação, é candidato, faz o que quer. Isso é a política do Brasil.

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O CHEFE - Capítulo 16 - STF abriu processos contra 40 mensaleiros. José Dirceu foi acusado de corrupção ativa e formação de quadrilha

Capítulo 16

STF abriu processos contra 40 mensaleiros. José Dirceu foi acusado de corrupção ativa e formação de quadrilha

Dois anos e três meses após a divulgação da fita em que Maurício Marinho, alto funcionário dos Correios, pôs no bolso do paletó R$ 3 mil e com o gesto marcou o início do escândalo do mensalão, o STF (Supremo Tribunal Federal) começou o julgamento dos 40 políticos e empresários acusados de envolvimento com o esquema de corrupção, na maior denúncia criminal da história investigada pela corte suprema do País. Em 22 de agosto de 2007, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, sustentou a denúncia no plenário do STF. Para ele, "o mensalão não existiria se não tivesse integrantes do governo" envolvidos na maracutaia. Referindo-se diretamente ao ex-ministro José Dirceu (PT-SP), afirmou: "É fato público que Dirceu sempre teve e ainda tem grande importância nas decisões do PT".
O procurador-geral da República citou José Dirceu e os dirigentes do PT José Genoino, Delúbio Soares e Sílvio Pereira para dizer que os quatro líderes do partido do presidente da República "ditavam as diretrizes, tinham o comando do procedimento criminoso". Para Souza, "a promiscuidade com o poder é o caldo de cultura perfeito para a viabilidade de interesses escusos". O procurador-geral falou em "quadrilha" e "organização criminosa":
- Os autos revelam de forma incontroversa os repasses, especialmente para parlamentares, de elevadas quantias em espécie, muitas vezes entregues em hotéis, a beneficiários que nem conferiam os valores recebidos, dinheiro acondicionado em pastas, sacolas e em envelopes de grande porte, valores depositados em conta no exterior não declarada, mediante a utilização de doleiros e de empresa offshore.
Os quatro petistas foram denunciados por agirem no que Souza chamou de "núcleo central da organização criminosa", cujo objetivo era buscar apoio político de parlamentares, pagar dívidas partidárias e arcar com gastos de campanhas eleitorais do PT e de partidos da base aliada do presidente Lula. Ele qualificou o empresário Marcos Valério como o "principal artífice do procedimento criminoso". Lembrou um jantar que reuniu José Dirceu e Marcos Valério em 2004, como evidência de que os dois mantinham relação próxima. Deu como exemplo, ainda, um fato que envolveu Simone Vasconcelos, ex-diretora da SMPB, agência de publicidade de Valério:
- Os autos revelam uma fartura incrível de dinheiro em espécie que transitou por caminhos tortuosos. Era tanto dinheiro circulando de modo atípico que Simone Vasconcelos, em determinada oportunidade, teve que pedir um carro-forte para transportar R$ 650 mil para a sede da empresa em Brasília, onde o montante foi repassado.
O procurador-geral acrescentou:
- Os repasses sempre à margem dos procedimentos bancários mais expedidos e mais seguros. Tal descrição, que é típica do submundo do crime, revela a rotina vivenciada pelos denunciados por muito tempo. Ao invés de valer-se dos mecanismos bancários mais ágeis e seguros, sempre se efetuava repasses de valores em espécie, acondicionados em pastas 007, em pacotes ou sacos de lona, em locais inadequados, tais como recepção e quartos de hotéis, bancas de revistas, ou mediante depósitos de contas no exterior, sempre com a máxima preocupação de impedir a identificação dos destinatários.
Na sustentação da denúncia, a menção ao caso Visanet, esquema por meio do qual dinheiro público do Banco do Brasil foi repassado a empresas de Marcos Valério e, em seguida, serviu para irrigar a corrupção:
- Foram recursos privados, oriundos de empresas com interesses patrimoniais escusos perante o governo, e dinheiro público, como no caso Visanet, as fontes que mantiveram ativo o ilícito sistema de transferência de recursos para parlamentares, dirigentes partidários e credores de partidos.
A denúncia foi corroborada por relatórios reservados do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda), segundo os quais haveria indícios de operações suspeitas contra 27 dos 40 julgados pelo STF. Segundo reportagem de Andréa Michael, da Folha de S.Paulo, documentos do Coaf registraram que mensaleiros fizeram operações financeiras suspeitas para lavar R$ 1,2 bilhão entre 2001 e 2007.
Além disso, o Ministério Público do Distrito Federal propôs cinco ações de improbidade administrativa por mau uso do dinheiro público contra 35 dos 40 denunciados. Todos responderiam a processos civis por participação no esquema de compra de apoio político no Congresso. Entre os acusados estavam José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, Silvio Pereira, Marcos Valério, Roberto Jefferson (PTB-RJ) e Anderson Adauto (PMDB-MG).
Em outra ação por improbidade administrativa, o Ministério Público do Distrito Federal decidiu processar o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) por enriquecimento ilícito e violação dos princípios de moralidade na administração pública. Ele foi acusado de ter recebido R$ 50 mil de Marcos Valério no Banco Rural, dinheiro sacado pela mulher do parlamentar. Em troca da propina, teria havido a contratação da agência SMPB pela Câmara dos Deputados, presidida na época por Cunha. A ação implicou também Silvana Paz Japiassu, assessora do deputado, que teria recebido de Marcos Valério passagens aéreas e hospedagens para ela e a filha.
Para completar, as supostas dívidas contraídas nos Bancos Rural e BMG para sustentar o chamado valerioduto, atualizadas em mais de R$ 100 milhões, não haviam sido pagas após mais de dois anos. Um indício de que não passavam mesmo de "pseudos-empréstimos", "empréstimos simulados" ou, em português claro, operações de lavagem de dinheiro para irrigar o esquema de caixa 2 que teria sido engendrado por lideranças do PT a fim de obter apoio e maioria no Congresso, favorecendo o governo Lula. Os empréstimos, portanto, teriam sido forjados e não faria sentido quitá-los.
Em 28 de agosto de 2007, o STF decidiu abrir processos criminais contra todos os 40 acusados pela Procuradoria-Geral da República. José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares foram acusados por corrupção ativa e formação de quadrilha, ou seja, por oferecer ou dar vantagens indevidas, e por associação em bando com o objetivo de cometer crimes. Outros dois ex-ministros de Lula também estavam entre os denunciados. Luiz Gushiken (PT-SP), da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, por peculato, ou seja, uso do cargo para fazer apropriação indevida, e Anderson Adauto (na época no PL, atual PR), do Ministério dos Transportes, por corrupção ativa e lavagem de dinheiro, isto é, ocultar ou dissimular a origem criminosa de dinheiro ou bens.
Além dos cinco denunciados, mais dez se destacaram entre os demais. São os seguintes: Marcos Valério, Duda Mendonça, Roberto Jefferson, Silvio Pereira, João Paulo Cunha, Valdemar Costa Neto, José Janene, José Borba, Paulo Rocha e Henrique Pizzolato. Eis a relação dos outros 25 nomes: Pedro Corrêa, Pedro Henry, Bispo Rodrigues, João Magno, Emerson Palmieri, Romeu Queiroz, Jacinto Lamas, João Cláudio Genu, Enivaldo Quadrado, Breno Fischberg, Carlos Alberto Quaglia, Antonio Lamas, Ramon Hollerbach, Cristiano Mello Paz, Rogério Tolentino, Simone Vasconcelos, Geiza Dias, Kátia Rabello, José Roberto Salgado, Ayanna Tenório, Vinícius Samarane, José Luiz Alves, Anita Leocádia, Professor Luizinho e Zilmar Fernandes.
Ao defender o processo contra José Dirceu, o ministro Joaquim Barbosa, relator do caso no STF, afirmou que o ex-ministro "era o mentor e o comandante supremo da trama, em que outros personagens faziam o papel de meros auxiliares". Do relator Joaquim Barbosa:
- Está suficientemente demonstrado na denúncia que José Dirceu seria o mentor, o chefe incontestável do grupo, a pessoa a quem todos os demais prestavam deferência.
José Dirceu, como ministro da Casa Civil, era o principal auxiliar do presidente Lula. Não há dúvida sobre isso. Mas ele não engendraria um esquema de tamanha complexidade, com o intuito de corromper parlamentares com dinheiro público, sem a anuência do chefe. Lula, aliás, foi o grande beneficiário da maioria forjada, que lhe deu apoio e votos no Congresso. Só Lula poderia ser considerado o "comandante supremo da trama", ou o "chefe incontestável do grupo", como definiu o ministro Joaquim Barbosa.
O STF aceitou investigar uma nova denúncia da Procuradoria-Geral da República, que não havia sido incluída anteriormente. De acordo com a acusação, dinheiro público repassado pelo Ministério do Esporte à agência de publicidade SMPB, de Marcos Valério, acabou na conta bancária de Anita Leocádia Pereira Costa, assessora do deputado Paulo Rocha (PT-PA).
Funcionou assim: R$ 202 mil do Ministério do Esporte foram depositados em conta da SMPB no Banco do Brasil, em 16 de dezembro de 2003. Dois dias depois, houve transferência de R$ 200 mil daquele total para outra conta da SMPB, desta vez no Banco Rural. No mesmo dia, R$ 146 mil seguiram para uma segunda conta da SMPB, no mesmo Banco Rural. O destino do dinheiro seria ainda uma terceira conta da agência de publicidade, naquela agência do Rural. No mesmo 18 de dezembro, Anita Leocádia Pereira Costa sacou R$ 120 mil do total. Conforme a denúncia, o dinheiro que ficou com a petista era, originalmente, do Ministério do Esporte.
Também fez parte da denúncia da Procuradoria-Geral da República ao STF a acusação de Lúcio Bolonha Funaro, operador do mercado financeiro. Ele havia feito um acordo de delação premiada. Afirmou que, com outros dois doleiros, emprestou R$ 3 milhões ao então presidente do PL (atual PR), deputado Valdemar Costa Neto (SP). O dinheiro serviria para cobrir supostos gastos da campanha eleitoral do presidente Lula em 2002.
De acordo com Lúcio Funaro, Valdemar Costa Neto era beneficiário de uma conta secreta abastecida com dinheiro de propina no banco BCN de Nova York. O doleiro disse que tomou conhecimento dessa conta em 2002. Quem lhe contou foi Henrique Borenstein, ex-diretor do BCN, ao procurar dar garantias de que os R$ 3 milhões emprestados a Valdemar Costa Neto seriam mesmo devolvidos. Havia a conta secreta do BCN. De Henrique Borenstein:
- Fique tranquilo. Eu administro essa conta e ela tem um saldo de US$ 1,2 milhão. Se Valdemar não pagar, eu transfiro o dinheiro para você.
Conforme reportagem de Diego Escosteguy, na revista Veja, a conta em Nova York foi abastecida pelo pai de Valdemar, o ex-prefeito de Mogi das Cruzes (SP) Waldemar Costa Filho. Ele contraíra empréstimos do BCN para os cofres da administração municipal, no começo dos anos 90, a juros "muito acima" dos praticados no mercado. Da reportagem publicada em 29 de maio de 2009: "O pagamento pela camaradagem do prefeito, ou seja, a propina, era depositado na conta aberta por Borenstein em Nova York, cujo beneficiário era o filho, o deputado Valdemar Neto".
Em três depoimentos prestados entre novembro de 2005 e março de 2006, Lúcio Funaro disse ainda que José Dirceu poderia ter recebido R$ 500 mil de fundos de pensão. Trecho do depoimento:
"Que tem conhecimento de que o diretor-presidente e o diretor financeiro da Portus foram indicados por Dirceu; que essa transação envolveu um pagamento 'por fora', que não sabe se destinado ao próprio deputado ou ao PT, da ordem de R$ 500 mil."
O doleiro acusou o deputado José Mentor (PT-SP) de receber propina para livrar suspeitos que deveriam ser investigados pela CPI do Banestado, da qual José Mentor foi relator, em 2004. Funaro admitiu ter sido sócio oculto da empresa de fachada Guaranhuns, acusada de repassar dinheiro do mensalão.
Três meses após o início do julgamento do mensalão pelo STF, o procurador-geral anunciou novas provas baseadas em perícias do Instituto de Criminalística, da Polícia Federal. De acordo com Antonio Fernando de Souza, foi possível rastrear dinheiro público do Banco do Brasil, de forma a comprovar o uso de recursos do fundo Visanet no esquema de corrupção.
A denúncia criminal havia sido feita com base no depoimento de testemunhas. Com a conclusão dos trabalhos de perícia, ficou registrada a "dança" de R$ 73,8 milhões do Banco do Brasil para as agências de publicidade DNA e SMPB, de Marcos Valério, a partir da suposta determinação do ex-ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Luiz Gushiken (PT-SP). Depois disso, o mesmo dinheiro público teria abastecido o valerioduto.
Conforme o laudo do Instituto de Criminalística, a DNA se apropriou indevidamente de pelo menos R$ 39,5 milhões do Banco do Brasil. O dinheiro lastreou empréstimos que engordaram o caixa 2 do PT. Os peritos fizeram uma varredura em números de contas bancárias, valores envolvidos, datas e locais das retiradas. Os R$ 39,5 milhões incluíram lucros em aplicações financeiras feitas com dinheiro antecipado pelo Banco do Brasil, serviços devidamente quitados sem que houvesse comprovação da execução dos trabalhos e honorários considerados exagerados.
Entre as operações irregulares, a DNA embolsou R$ 5,3 milhões ao obter deságios com fornecedores, desconto que deveria ter sido devolvido ao cliente. A autorização formal para depositar R$ 73,8 milhões da Visanet na conta da DNA foi dada pelo então diretor de Marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato. Anteriormente, os valores eram destinados direta e individualmente aos fornecedores.
Após o acolhimento da denúncia pelo STF, todos os mensaleiros, um a um, depuseram sob orientação de advogados dos mais bem pagos do País. Trataram de refutar as acusações e desqualificar a denúncia do procurador-geral da República. Nada de ilegal teriam cometido. Todos – garantiram e reiteraram – não tinham envolvimento com quaisquer fatos que os desabonassem. Negaram todas as evidências. Admitiram tão somente o uso de dinheiro de caixa 2, e para pagar despesas de campanha eleitoral. Um crime menor. Articulados, advogados de defesa evitaram fazer perguntas que pudessem prejudicar os outros réus. Ao contrário. Trataram de se reunir constantemente e interpelar os denunciados de forma a ajudar uns aos outros.
O depoimento do ex-deputado Pedro Corrêa (PP-PE), cassado na esteira do escândalo do mensalão, foi exceção. Ele afirmou ter negociado com o PT o pagamento de serviços advocatícios para o então deputado Ronivon Santiago (PP-AC), em troca de apoio parlamentar ao governo Lula. O dinheiro teria sido pago em três parcelas, sendo duas de R$ 300 mil, em agência do Banco Rural em Brasília, e outra de R$ 100 mil, entregue em hotel da capital federal.
Deu-se bem Silvio Pereira, o ex-secretário-geral do PT que durante os bons tempos do mensalão ganhou de presente um jipe Land Rover de empresa fornecedora da Petrobras. Ele fez acordo com a Procuradoria-Geral da República para suspender o processo que seria obrigado a responder. A punição de "Silvinho": durante três anos, teria de prestar 750 horas de serviços comunitários à Prefeitura de São Paulo. Além disso, o ex-secretário-geral se comprometeu a comparecer periodicamente à Justiça e a comunicar previamente qualquer viagem longa que pretendesse fazer.
Silvinho se disse "aliviado" com o que conseguiu. Ao aceitar a punição dos trabalhos comunitários, contudo, admitiu ter cometido práticas delituosas e pôs em situação constrangedora os outros acusados, companheiros seus, que respondiam por crimes mais graves e não puderam se beneficiar do acordo que o livrou de uma condenação mais rigorosa.
No governo Lula, Silvinho foi responsável pela distribuição de cargos de segundo escalão. Como se sabe, as posições na máquina administrativa não valiam pelos salários que representavam, mas sim pelo poder que seus ocupantes desfrutavam ao usar o emprego público para enriquecer, fraudando licitações, contratos e desviando os recursos que deveriam servir para atender as necessidades do povo e do País. Afinal, o dinheiro que sustenta as máquinas públicas vem de impostos arrecadados da população.
Apesar dos serviços comunitários, Silvinho usufruiu o segundo mandato de Lula. Em 2007, Júlio César dos Santos, dono da TGS Consultoria e sócio do onipresente José Dirceu, subcontratou a DNP Eventos, empresa registrada em nome da mulher de Silvinho, Deborah Neistein, e do irmão dele, Ademir Pereira. Aparentemente, a empresa era dirigida mesmo por Silvinho e deveria organizar um evento cultural no Espírito Santo. A TGS, por sua vez, havia sido contratada sem licitação pela Petrobras. A prestação de serviços rendeu R$ 55 mil à DNP. Sempre a Petrobras na vida de Silvinho.
Em 2008, Silvinho estaria construindo uma pousada em Ilha Bela, praia do litoral norte de São Paulo. Lá, foi visto com frequência desfilando num novo automóvel. Não um Land Rover, como o que provocara o escândalo em 2005, mas um autêntico Toyota Fielder, avaliado em R$ 65 mil.
Outro personagem que "brilhou" na era Lula, o publicitário Duda Mendonça. Ao depor no processo do mensalão, em janeiro de 2008, disse desconhecer a origem dos R$ 10,5 milhões repassados a ele por Marcos Valério, numa empresa offshore, em pagamento por serviços prestados em campanhas eleitorais, entre as quais a que elegeu o presidente Lula em 2002.
Em seu depoimento, Duda Mendonça admitiu o não-pagamento de impostos e informou ter quitado multa referente à sonegação, no valor de R$ 4,3 milhões. Apesar da acusação de lavagem de dinheiro, o publicitário continuou prestando serviços à Petrobras no segundo mandato de Lula, dentro de um contrato de R$ 250 milhões. Duda Mendonça também teria expandido negócios agropecuários em propriedade rural no sul do Pará.
Ao depor à CPI dos Correios, em 2005, o diretor de Marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato, afirmou ter recebido ordem do então ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Luiz Gushiken (PT-SP), para repassar recursos de publicidade do fundo Visanet a empresa de Marcos Valério. O dinheiro, como se sabe, acabaria no PT e financiaria atividades de caixa 2 do partido do presidente da República.
Ao depor à Justiça no processo do mensalão, acusado de corrupção passiva, Henrique Pizzolato voltou atrás e livrou o ex-ministro Luiz Gushiken de qualquer responsabilidade. Em fevereiro de 2008 justificou a reviravolta ao alegar que, na época da CPI, "estava sob ameaça de que iam me prender. Não tive condições de raciocinar. Fui coagido, ameaçado e humilhado". É mesmo?
Henrique Pizzolato teve dificuldades ao explicar à Justiça o episódio em que mandou o officeboy Luiz Eduardo Ferreira pegar envelope com R$ 326 mil em agência do Banco Rural no Rio de Janeiro. Ele estava atendendo, segundo ele mesmo, a um pedido de uma secretária de Marcos Valério, a quem não conhecia. Tampouco conhecia o conteúdo do envelope, o qual Marcos Valério desejava que chegasse às mãos do PT. Segundo Pizzolato, ele simplesmente deixou o envelope com os "documentos" para "pessoa do PT", na portaria do prédio em que residia. Obviamente não revelou o nome do recebedor.
O incrível da história é que, após pôr as mãos no envelope com R$ 326 mil, em janeiro de 2004, o então diretor do Banco do Brasil comprou um apartamento em Copacabana, na badalada zona sul do Rio, por R$ 400 mil. Aqui, Pizzolato se contradisse: depois de garantir ter quitado o imóvel com pagamento em cheque, acabou por confessar a entrega de R$ 100 mil em dinheiro vivo. Mas a vida não deixou de sorrir para Pizzolato: aposentado pelo Banco do Brasil com R$ 13 mil mensais, continuava morando no mesmo e bem situado apartamento em Copacabana.
Luiz Gushiken também se deu bem. Apesar de denunciado por peculato e acusado pelo desvio de recursos de contratos de publicidade do Governo Federal para empresas de Marcos Valério que irrigaram o caixa 2 do PT, o ex-ministro, um dos auxiliares mais próximos de Lula, abriu uma empresa de consultoria em 2007. E voltou a morar numa chácara no interior de São Paulo.
O único revés do ex-ministro teria sido a decisão do TCU (Tribunal de Contas da União) de aplicar-lhe multa de R$ 30 mil. Mesmo assim, Gushiken iria recorrer. De acordo com o levantamento do TCU, em sua gestão houve contratos de publicidade com orçamentos forjados e falta de controle sobre a veiculação de anúncios federais. Uma auditoria apuraria supostos prejuízos de R$ 9 milhões com serviços de publicidade não-prestados ou superfaturados. A maracutaia envolveria, entre outros, o publicitário Duda Mendonça.
Os deputados Valdemar Costa Neto (PR-SP, ex-PL) e Paulo Rocha (PT-PA) definitivamente não tiveram do que reclamar. Com medo de cassação depois de acusados de envolvimento com o mensalão, renunciaram aos mandatos, ainda em 2005, para se candidatarem no ano seguinte. Reeleitos, os dois tiveram os processos por decoro parlamentar arquivados pelo Conselho de Ética da Câmara. A medida também beneficiou o deputado João Magalhães (PMDB-MG), que fora envolvido com a máfia das ambulâncias.
Note-se que tanto Valdemar Costa Neto quanto Paulo Rocha foram denunciados pelo procurador-geral da República por fazer parte de organização criminosa e, por isso, passaram a ser investigados pelo STF (Supremo Tribunal Federal). O primeiro sofreu a acusação de receber R$ 6,5 milhões do valerioduto. O segundo, teria posto as mãos em R$ 920 mil.
Interessante o adendo ao relatório que livrou os mensaleiros, de autoria do deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), segundo o qual parlamentares não devem ser investigados pelo Conselho de Ética por fatos ocorridos em legislaturas passadas, exceto se acusados após as eleições ou se surgirem fatos novos na denúncia. Ou seja: a investigação de deputados que renunciaram seria uma afronta à vontade dos eleitores, não importando se os senhores parlamentares abriram mão dos mandatos aproveitando brecha na legislação para fugir da cassação, nem se usaram o dinheiro supostamente desviado a fim de comprar os votos necessários para garantir os novos mandatos. Para constar: o patrimônio de Paulo Rocha teria subido 1.248% entre os anos de 2002 e 2006, isto é, ainda no primeiro mandato do presidente Lula.
Cabe ressaltar, ainda, o paradeiro de dois mensaleiros, estrelas de primeira grandeza em razão dos cargos ocupados. José Genoino (PT-SP) e João Paulo Cunha (PT-SP), respectivamente presidente nacional do partido e presidente da Câmara dos Deputados, no primeiro governo Lula. Ambos voltaram a Brasília em 2007, protegidos por mandatos de deputado federal. Se antes eram participantes e eloquentes, passaram a se "esconder" no fundo do plenário, como se o tempo fosse capaz de apagar a mácula do escândalo do mensalão.
Agora Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT, para quem as investigações do mensalão dariam em nada e seriam, no futuro, motivo de "piada de salão". Apesar de receber como professor da rede pública de Goiás durante sete anos, sem trabalhar, Delúbio Soares ainda mantinha o direito de lecionar, mais de dois anos após a descoberta do "fantasma". Ele não fora desligado do cargo, apesar de já condenado a restituir R$ 164 mil recebidos indevidamente.
Em Buriti Alegre (GO), conforme descreveu o repórter Hudson Corrêa, na Folha de S.Paulo, Delúbio Soares era uma celebridade. Em 15 de agosto de 2007, por exemplo, ele subiu no palanque com o governador Alcides Rodrigues Filho (PP) para inaugurar um frigorífico. Depois, Delúbio Soares acompanhou o governador ao aeroporto local, num automóvel Vectra registrado em nome do irmão do ex-tesoureiro, o vereador de Goiânia Carlos Soares (PT). Detalhe: um outro veículo escoltava o carro de Delúbio, com dois homens. Para dar segurança ao ex-tesoureiro.
Em 23 de janeiro de 2008, Marcos Valério, enigmático, encaminhou quatro questões a Delúbio Soares, que depunha à Justiça no processo do mensalão. Vale a pena: 1) O interrogando participou de alguma reunião nos anos 2003 a 2005 com Antonio Palocci? Para tratar de qual assunto? 2) Se encontrou alguma vez Marcos Valério fora do Brasil? 3) Se encontrou alguma vez com alguma autoridade chinesa? 4) Frequentou a Granja do Torto, em Brasília? Em caso afirmativo, em companhia de quem?
Não se sabe o que Marcos Valério pretendia. Pareceu ser uma ameaça velada ao PT, inclusive a Lula, como quem diz "façam o que estou pedindo". Não há notícias se obteve êxito. É provável que sim, tanto que não voltou mais ao assunto. Ao contrário. Seu depoimento à Justiça tratou de refutar todas as evidências que existiam contra ele e contra outros personagens do mensalão. Confirmou-se, por outro lado, que Marcos Valério se encontrou com petistas, depois de espernear. Quanto a Delúbio Soares, manteve-se frio. Característica dele. Não respondeu a provocação de Marcos Valério. Pelo menos em público.
Em seu depoimento, o ex-tesoureiro agradeceu Marcos Valério pelos empréstimos que abasteceram os cofres do PT nos anos de 2003 e 2004, o que teria permitido a ele cobrir dívidas e despesas do partido. Por outro lado, Delúbio Soares disse não ter tomado decisões sozinho, e que o comando do PT sabia do rombo nas finanças do partido. Nas palavras do ex-tesoureiro:
- Fizemos uma reunião no Partido dos Trabalhadores, com todos os Estados, agora estou me lembrando, quase R$ 26 milhões era a dívida dos diretórios regionais. E eu apresentei esse problema à executiva. A executiva: "Encontra uma solução".
Da reunião teriam participado, conforme Delúbio Soares, o senador Aloizio Mercadante (SP), o deputado Jorge Bittar (RJ), a então prefeita Marta Suplicy (SP), o presidente da legenda, José Genoino (SP), e os dirigentes partidários Silvio Pereira, Valter Pomar, Romênio Pereira e Joaquim Soriano. A solução encontrada por Delúbio Soares, soube-se depois, foi o valerioduto.
Bode expiatório, Delúbio Soares acabou sendo o único expulso do PT por conta do escândalo do mensalão. Silvio Pereira solicitou a própria desfiliação, e José Genoino e Marcelo Sereno, secretário de Comunicação, renunciaram aos cargos. Mas Delúbio Soares não se deu mal. Como celebridade, o velho amigo de Lula dos tempos de sindicalismo andava para cima e para baixo em São Paulo. Quando não estava na capital paulista, passava a maior parte do tempo na fazenda de Buriti Alegre, registrada em nome do pai. Em Goiânia, o ex-tesoureiro passou a se apresentar como consultor de empresas. Lá teria aberto uma agência de publicidade, para vender anúncios na internet.
Daqueles que perderam o emprego em decorrência do escândalo do mensalão, o ex-ministro José Dirceu parece ter sido quem mais demonstrou competência para se adaptar à condição de consultor de empresas. Segundo a revista Veja, o capitão do time de Lula, fora do governo, embolsava até R$ 150 mil por mês em consultorias, circulava em carro com motorista e frequentava os melhores restaurantes, onde era visto com charutos cubanos.
José Dirceu comemorou com festa o lançamento de seu site na internet, implantou fios de cabelo para melhorar o visual e teria comprado uma casa para a mãe, no interior de Minas Gerais. Sócio de um escritório de advocacia, tocava uma empresa de consultoria, mas a maior parte do tempo viajava para a Europa, Estados Unidos, Canadá e vários países da América Latina, sem contar os numerosos percursos dentro do Brasil.
O ex-ministro Dirceu tinha para descansar o belo sobrado em Vinhedo (SP), dentro de condomínio fechado. Ali ocorreu talvez a única dor de cabeça do ex-deputado, além do constrangimento de ter de reconhecer, em depoimento à Justiça, que se reuniu com Marcos Valério e diretores dos bancos Rural e BMG no Ministério da Casa Civil. Quatro meses após deixar o governo, ladrões arrombaram a casa de Vinhedo e levaram aparelho televisor de plasma, charutos, chocolates e um tapete vermelho.
Como José Dirceu, Marcos Valério também virou consultor de empresas e fez implante de cabelo para mudar a aparência. Apesar de ter ficado com os bens bloqueados pela Justiça, o empresário reformou sua mansão no bairro de Castelo, em Belo Horizonte, e arrendou uma fazenda no interior de Minas Gerais, a fim de criar cavalos de raça. Manteve também a mansão em Brumadinho, região metropolitana da capital mineira, e atendia clientes no elegante escritório do bairro de Savassi, na zona sul de Belo Horizonte. No lugar das malfadadas agências de publicidade SMPB e DNA, Marcos Valério comandava a nova agência Bárbara Comunicação. Vida nova.
Um dos pivôs do escândalo do mensalão, denunciado por formação de quadrilha, corrupção ativa, peculato, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, Marcos Valério seguia confiante de que se livraria das acusações de envolvimento com operações de crédito milionárias, supostamente forjadas para justificar a movimentação de caixa 2 do PT. Ao depor à Justiça Federal, em fevereiro de 2008, disse que o então ministro José Dirceu sabia dos empréstimos tomados pela SMPB junto aos bancos Rural e BMG, embora tivesse tratado do assunto apenas com o "amigo" Delúbio Soares e o secretário-geral do PT, Silvio Pereira.
Como o lendário Al Capone, os maiores apuros de Marcos Valério pareciam girar em órbita dos problemas com o Imposto de Renda. Em junho de 2007, a Justiça Federal instaurou ação penal por sonegação de R$ 54,7 milhões de tributos da agência de publicidade DNA, entre 1999 e 2002. Conforme o Ministério Público, Marcos Valério e seus sócios lesaram o Fisco com a "simulação do furto de um veículo que, segundo os réus, transportava documentação exigida pela Receita durante autuações que tinham o objetivo de apurar a real movimentação financeira da empresa".
Para se livrar de uma condenação de dois anos e 11 meses por crime contra a ordem tributária, Marcos Valério pagou R$ 6,8 milhões ao INSS (Instituto Nacional de Seguro Social) em maio de 2006. De acordo com o Ministério Público, a fraude ocorrera no pagamento de funcionários da DNA, entre 1996 e 1999. Alguns receberam salários por fora da folha de pagamento, enquanto outros ganharam mais do que o declarado na contabilidade da empresa.
Em maio de 2008, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais condenou Marcos Valério por falsidade ideológica e por comprar notas fiscais frias para a agência SMPB nos anos de 2002 e 2003. O empresário pagaria entre 3% e 4% do valor de cada nota falsa emitida. Condenado a um ano de prisão em regime aberto, teve a pena convertida em multa de dois salários mínimos somada à prestação de serviços comunitários por dois anos.
Dois meses depois, a 9ª Vara Criminal da Justiça Federal de Belo Horizonte recebia denúncia do Ministério Federal. Marcos Valério e a mulher, Renilda Santiago, passariam a responder, com outros ex-sócios da SMPB, por crimes de sonegação tributária, falsificação de documentos públicos, uso de documentos falsos e formação de quadrilha. Os réus teriam sonegado pelo menos R$ 90 milhões em impostos, entre 2003 e 2004.
Foram detectadas fraudes na movimentação bancária da agência SMPB junto a várias instituições financeiras. Conforme a acusação, recursos vultosos saíram e entraram nas contas da empresa, lançados, na maioria dos casos, como empréstimos para o PT. Ao mesmo tempo, valores incorretos sobre as operações eram registrados na contabilidade da SMPB. A agência de publicidade não teria recolhido vários impostos.
Em novembro de 2008, o Ministério Público Federal em Belo Horizonte denunciou Marcos Valério e outras 26 pessoas, incluindo dirigentes e ex-diretores do Banco Rural, por crimes ligados ao chamado mensalão mineiro. O esquema de caixa 2 teria desviado pelo menos R$ 3,5 milhões de recursos públicos para a campanha de reeleição do governador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) em 1998. Entre os acusados estava João Heraldo Lima, que ocupava o cargo de secretário da Fazenda de Eduardo Azeredo na época do mensalão mineiro. Ele havia se tornado presidente do Banco Rural. Também foi denunciado Rogério Tolentino, sócio de Marcos Valério. Em 1998, Rogério Tolentino era juiz eleitoral em Minas Gerais. Teria recebido R$ 300 mil para favorecer Eduardo Azeredo nas eleições.
Da mesma forma que José Dirceu, pouco se soube das atividades de Marcos Valério como consultor de empresas depois do escândalo do mensalão. Um dos "trabalhos" do empresário, porém, veio à tona em 10 de outubro de 2008. Deu o que falar. Naquele dia foram presos Marcos Valério, o sócio Rogério Tolentino, policiais federais e advogados, durante a Operação Avalanche da Polícia Federal. A acusação: forjar um inquérito policial contra dois fiscais da Fazenda paulista, responsáveis por multar em R$ 104,5 milhões a empresa Praiamar, do empresário Walter Faria. A Praiamar fazia parte grupo Petrópolis, detentor da marca de cerveja Itaipava.
O falso inquérito tinha a finalidade de intimidar e constranger os fiscais. Familiares deles seriam interrogados e desmoralizados, e com isso se esperava forçar a anulação da multa por fraude fiscal no comércio de cerveja. Marcos Valério teria contratado dois advogados que, associados a três investigadores de polícia, teriam levantado informações pessoais sobre os fiscais. Com base nos dados obtidos, encomendaram o inquérito policial a dois delegados federais. Valério teria armado tudo na condição de conselheiro da Praiamar.
A Justiça Federal de Santos, no litoral sul de São Paulo, aceitou acusação do Ministério Público Federal contra Marcos Valério. Ele passou a responder por formação de quadrilha, corrupção ativa e denunciação caluniosa. Teria havido uma trama para provocar um acidente automobilístico com a finalidade de ferir um dos fiscais da Fazenda que multaram a cervejaria. Walter Faria, dono da Petrópolis, também virou réu. De acordo com a Polícia Federal, ele ofereceu R$ 3 milhões pela abertura do falso inquérito e o vazamento da história para a imprensa. Se os fiscais fossem presos, pagaria R$ 5 milhões.

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