9 de dez. de 2011

A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JOVEM GUARDA Escrito por Rui Martins



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A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JOVEM GUARDA
Escrito por Rui Martins
Publicado pela Editora Fulgor em 1966

CAPÍTULO I
AS REBELIÕES JUVENIS CONTEMPORÂNEAS

a) Oposição natural nas sociedades urbanas
Uma franca hostilidade juvenil aos padrões da sociedade organizada, em busca de novos valores, parece ser a constante na maioria dos países do mundo contemporâneo. Demonstrando possuir uma posição independente diante da existência, os jovens desafiam a validade das estruturas aceitas pelo mundo adulto e, não raro, promovem manifestações, nas quais deixam bem patente essas discordâncias.
Essa oposição, em muitos casos, é bastante compreensível, pois ~ natural que as novas gerações não aceitem passivamente as estruturas, costumes e convenções observados pelos que as antecederam. De certa forma, esse comportamento rebelde contra a experiência dos adultos parece ser uma maneira encontrada pela natureza para permitir a renovação da sociedade e possibilitar-lhe a observância de uma dinâmica que os velhos conservadores jamais permitiriam.
Cada geração, então, no esforço que despende antes de se integrar no mundo dos adultos, provoca, como conseqüência dos atritos surgidos, a formação de um clima propício a uma nova compreensão de determinados fatos por toda a sociedade. Essa regular reinterpretação e reconsideração pela sociedade de fatos e conceitos, até ali tidos como definitivos, seria a grande contribuição da juventude no sentido de impedir a estratificação social. O sangue novo funcionaria, assim, como uma espécie de revitalizador.
Nas sociedades urbanas industriais ou em industrialização, a influência da mocidade faz-se sentir de forma ainda mais marcante. O fenômeno dos grandes aglomerados urbanos é uma novidade que a raça humana só veio a conhecer no nosso século. Isto equivale a dizer que, nas urbes, onde os valores tradicionais de comportamento se desatualizam, com a sociedade dos adultos aturdida e debaixo do impacto de uma nova maneira de conviver, os jovens destroem tabus seculares preservados pelas comunidades que tinham a seu favor um perfeito aparelho de compulsão social.
Nos grandes centros urbanos, tudo se dilui, não havendo mais possibilidade do controle rígido do comportamento de seus habitantes como ocorria nas antigas organizações sociais. Os próprios membros mais conservadores da nova sociedade percebem que vivem uma nova situação, diferente daquela compreensão rural de existência que possuíam. Conscientes, portanto, de que seus antigos padrões e conceitos estão sendo superados, os mais conservadores se chocam e se desarticulam, sem saber como enfrentar a nova situação. A maioria rebela-se contra esse novo tipo de organização social, que consideram desumano e destrutivo, porém, o processo é irreversível e a cada dia mais populosos se tornam os centros urbanos, num mundo em explosão demográfica e em franca expansão industrial.

b) O mundo autônomo da juventude
Nesse momento histórico de transformação, a juventude aproveita-se dos desencontros existentes no mundo dos adultos para demonstrar seu inconformismo e seu desinteresse por esquemas forjados de comportamento. E, então, difíceis de controlar porque são muitos, os moços aturdem e agridem a sociedade com atitudes ousadas. Criam um mundo autônomo, cuja ideologia é a franca oposição a tudo quanto esteja aceito como definitivo.
Nesse mundo autônomo, a todo instante é aumentado de novos componentes, ao mesmo tempo, que dele saem todos aqueles jovens ingressantes na «vida séria» dos adultos, recém-engajados no esquema de produção da sociedade. Para estes, a necessidade de produzir para sobreviver determina sua integração social. A partir desse momento, têm de adotar a linguagem, os modos, os trajes aprovados pelos adultos para conseguir sua confiança. Em pouco tempo, integram-se de tal forma no novo ambiente que a incerteza inicial da juventude é esquecida, passando a encontrar nos ideais defendidos pela sociedade os seus próprios ideais de existência.
Entretanto, o mundo dos jovens, constantemente renovado, permanece sempre irrequieto como um foco constante de preocupações. Naturalmente, têm os jovens razões suficientes para demonstrar seu descontentamento perante a sociedade. Há uma natural dificuldade para compreender a razão de sua presença num mundo cada vez mais conturbado.
Até há algum tempo, a religião resolvia o problema, apresentando aos jovens soluções para as suas perguntas de conteúdo metafísico. A juventude atual, porém, não se satisfaz facilmente com as explicações que confortaram as gerações passadas. De fato, o mundo mudou, criando com o seu fantástico desenvolvimento técnico e científico as bases para o ceticismo. Não um ceticismo definido, consciente, mas de atitudes.
A maioria dos jovens não rompe seus vínculos tradicionais de religiosidade, apenas os relega a um plano secundário. Mantêm como herança atávica o medo do sobrenatural e por isso não o desafiam, embora também não o cultuem, porque desconfiam da veracidade das soluções que a religião apresenta. Nascidos numa época de fatos concretos, de experiências de laboratório, de milagres visíveis, não conseguem aceitar verdades que a razão não pode explicar.
A natural dificuldade do jovem compreender sua presença no mundo é agravada, também, pelas próprias contradições da sociedade. Encontrando toda uma estrutura já montada, a juventude resiste para aceitá-la, pois o idealismo que a caracteriza não pode compreender os vícios da engrenagem que os adultos permitem existir. Não podem compreender que tenham de aceitar como seus mentores aqueles que têm falhado ao consentir na formação de uma sociedade egoísta, materialista e por isso corrupta. Não entendem, igualmente, a manutenção dos preconceitos de raça, de cor, de crença ou de classe, porque no seu mundo juvenil prepondera a fraternidade, desconhecendo-se as diferenças, pois elas foram diluídas no fato principal de tf)dos serem moços desejosos de grandes mudanças.
Há, ainda, uma razão de ordem emotiva, consubstanciada na resistência dos jovens em aceitar uma sociedade dominada pela técnica e pelas máquinas, causadora, desta forma, da despersonalização de seus membros. O exato, o certo, o calculado dentro de um esquema considerado perfeito, ofende, nos aglomerados urbanos, o instinto criador da juventude, amante das tentativas e das inovações.
Sentindo-se ameaçados pelo perfeccionismo das máquinas, os jovens buscam uma afirmação maior no seu mundo juvenil que consideram mais humano porque menos controlado por fórmulas ou mecanismos de precisão. São individualistas e, por essa razão, lutam contra a possibilidade da estandardização, resistindo a uma sociedade que despreza o seu romantismo.
Sentem que neles está a esperança de um mundo novo e sonham com o instante em que convencerão a todos de que viver é a coisa mais importante da existência. Longe das preocupações de ordem econômica mais imediatas, detestam aqueles que as têm e adotam como princípio o desperdício.

c) A mocidade nos países subdesenvolvidos
Esses comportamentos até aqui citados são, naturalmente, próprios de mocidade que vivem em centros urbanos de regiões desenvolvidas, onde as diferenças sociais não são tão marcantes e a classe média reúne a maioria da população.
Nas regiões subdesenvolvidas, a integração do jovem na sociedade chega a ser dolorosa, pois ele sente o distanciamento das classes e a quase impossibilidade de superá-lo. Os pertencentes às classes menos favorecidas têm uma participação muito pequena no mundo dos jovens, obrigados que são, ainda adolescentes, a produzir para ajudar a subsistência de suas famílias.
Da absorção do trabalho poucas energias lhes restam depois para grandes exteriorizações. O trabalho também os afasta da cultura, pelo que, não são estes os jovens que podem manifestar sua indisposição aos padrões dos adultos. Precocemente se tornam sérios e assumem responsabilidades que os integram, rapidamente, no mundo adulto da classe a que pertencem.
Daí, serem mais conservadores e mais identificados com os adultos, pois a luta diária pela sobrevivência e o tipo de necessidades que têm são iguais para ambos. Por isso, serem as classes pobres, nos centros urbanos, as mais zelosas pelas tradições, mantendo com fidelidade suas crenças, festas, músicas e superstições sem grandes mudanças. Os morros cariocas são um exemplo vivo, no zelo com que pais passam para filhos o amor pelo samba que, anualmente, trazem para as ruas. Embora a influência da televisão seja um fato novo a considerar, as diferentes vogas estrangeiras não chegam a atingi-los com violência.
O movimento juvenil fica restrito, portanto, a dois principais: o dos jovens classe média (pequena burguesia) e o dos jovens ricos (alta burguesia). Por ser a classe média aquela em que seus componentes aspiram e imitam os da classe superior, parece ser mais difícil a integração na sociedade dos jovens a ela pertencentes. Mantidos e sustentados pelos pais até uma certa idade para que estudem, convivem nesse período com os colegas mais abastados, participam de suas aspirações, têm os mesmos gostos, tornando-se difícil para eles o instante em que devem retornar à realidade. Assim, enquanto os jovens dos países desenvolvidos podem desfrutar de uma série de comodidades, embora exista a possibilidade de uma guerra que lhes tira um pouco da fé no futuro, a maioria dos jovens dos países subdesenvolvidos contenta-se em conviver ou procura imitar os amigos mais privilegiados, conscientes, entretanto, da própria situação.
Essa a razão porque, nestes países, é comum a mocidade promover e participar de movimentos políticos, nos quais injeta todo dinamismo mas, ao mesmo tempo, toda a sua inconstância juvenil. Assim, ocorre, freqüentemente, que jovens mais privilegiados ao verificarem que seus companheiros lutam com dificuldades se revoltam contra a sociedade, unindo-se a eles nos seus movimentos de protesto.
Na maioria das vezes, falta-lhes o lastro necessário, bastando que assumam seus postos no mecanismo da produção para passar-lhes como por encanto todo o ardor revolucionário. Os seus companheiros, aspirantes da situação privilegiada, cessam igualmente seus ardores para que não aconteça terem de entregar alguma boa posição depois de a conquistarem com esforços.
A incoerência dessas atitudes explica-se pelo fato de ao ideal defendido não corresponder uma realidade efetiva. O desejo de ser diferente, o gosto da aventura e a vontade de agredir os padrões vigentes são, porém, satisfeitos na militância de uma posição tida como perigosa que põe, inclusive a família, em polvorosa. A verificação, posterior, diante de fatos concretos de que a conjuntura social lhes pode ser vantajosa, é suficiente para liquidar com suas teorias idealistas.
Entretanto, quando a situação não favorece a participação em movimentos nacionais de rebeldia, a juventude desses países adota tomo seus os movimentos originários de regiões desenvolvidas, numa tentativa de vertê-los para o mundo em que vivem. As condições diferentes de existência revelam, porém, a artificialidade do movimento. me é simples conseqüência do mimetismo e do desejo de novidades, além de permitir aos jovens uma identificação de atitudes com os companheiros das regiões mais evoluídas. Naturalmente, os meios de comunicação exercem preponderante papel na divulgação desses movimentos no âmbito global, dando uma característica internacional às grandes mobilizações juvenis.

d) Três tipos atuais de manifestações juvenis
Considerando os últimos movimentos juvenis registrados no mundo, poderemos afirmar que os mesmos estão divididos em três categorias principais. Manifestações de rebeldia com propósitos bastante definidos que afetam a estrutura política ou social das regiões em que ocorrem; manifestações marcadas pelo «non sense» e destituídas de objetivo, nas quais a juventude revela uma espécie de prazer sádico em afrontar o mundo dos adultos, sem quaisquer objetivos reformadores da estrutura social; e manifestações destituídas de periculosidade, nas quais a juventude reveja possuir uma ingenuidade e um ideal de pureza inesperados, como se quisesse mostrar ao mundo serem os seus princípios mais sadios que os dos adultos.
Quando estudantes norte-americanos fazem passeatas contrárias ou favoráveis ao envio de tropas ao Vietnã, quando tomam posições quanto ao problema do preconceito racial ou quando estudantes de qualquer país promovem greves de protesto, exigindo reformas de ensino ou qualquer outra medida, estão, de forma certa ou errada, tomando posições definidas e também válidas, diante de problemas que lhes dizem respeito. A energia que possuem é canalizada numa direção determinada, tornando-se o protesto não simples rebeldia natural, mas o fruto da necessidade de uma tomada de posição. As próprias manifestações artísticas refletem essa tendência, apoiando a juventude os artistas que externam seu estado de espírito. É o caso de Joan Baez, nos Estados Unidos, que transforma todos seus espetáculos numa demonstração hostil à política externa dos Estados Unidos.
O exemplo típico da outra espécie de rebeldia, a chamada «sem causa» ou mais corretamente sem objetivos, é a dos «play-boys» ou transviados. Esta consiste em negar o sistema naquilo que ele tem de menos essencial, espécie de substituição do conformismo abúlico da apatia pelo conformismo dilacerante da rebeldia. Embora rechaçada pela estrutura social em que se manifesta, não afeta nenhuma instituição e, por isso mesmo, não conduz a coisa alguma.
Há, por último, a manifestação juvenil que, pela sua falta de agressividade efetiva à sociedade estruturada, adquire feições típicas de uma rebelião romântica, consentida, permitida e até estimulada pelo mundo dos adultos. Como a anterior, não leva a caminho algum, tem, porém, uma característica que a diferencia: um anseio de bondade e de pureza contraposto à violência. A necessidade de agredir destes jovens satisfaz-se com a adoção de outros padrões no que diz respeito à vestimenta e à apresentação pessoal. No mais, o protesto é vazio, destituído de conteúdo, revelando na juventude um desinteresse por qualquer coisa séria, donde a impossibilidade de tomadas de posição. Esse desinteresse provém em grande parte, da própria situação atual do mundo, no qual os jovens, apesar do seu anseio de viver, sentem-se inseguros por não encontrarem um clima de segurança para o futuro da humanidade. Os jovens cheios de energia entregam-se, então, aos ritmos frenéticos como que tomados pelo mesmo delírio das máquinas.
Esta interpretação seria, em parte, válida para o fenômeno dos «Beatles», na Europa, entretanto, não explicaria convenientemente o fenômeno do «ié-ié-ié» no Brasil, onde há ainda uma série de outras circunstâncias que contribuíram para o seu aparecimento.

CAPÍTULO II
OS ADULTOS E SUA INTEGRAÇÃO NO MUNDO JUVENIL

a) Causas e disponibilidade de liderança
Até aqui se procurou dar uma visão do significado das rebeliões juvenis dentro da sociedade, demonstrando-se que, à simples e natural oposição aos padrões estabelecidos pelo mundo dos adultos podem juntar-se outros fatores circunstanciais. O surgimento dos grandes aglomerados urbanos veio agravar, de certa forma, o choque de gerações, permitindo à juventude novas maneiras de hostilizar os costumes e convenções defendidos pela sociedade. A conquista de uma certa independência, permitiu aos jovens a tomada de posições e a participação em movimentos de protesto com objetivos bastante definidos. Este, porém, não é o caso do «ié-ié-ié« nacional que, destituído de qualquer agressividade ou objetivo é considerado uma autêntica rebelião romântica, sem maiores conseqüências.
Sabendo-se, contudo, que a nova manifestação musical atinge, no Brasil, também adultos e crianças, surge a necessidade de encontrar-se as determinantes dessa aceitação. Como todo fenômeno social, esse comportamento não deve ser provocado pela ocorrência· de uma única circunstância causal, mas ser o resultado de todo um complexo no qual se interligam anseios, expectativas, frustrações e tendências diante de Jatos consumados. Apontar as causas responsáveis, torna-se, por isso, uma atitude temerária, mormente quando não se pode recorrer a dados concretos fornecidos por pesquisas. Serão, portanto, discutidas as causas prováveis do fenômeno, podendo todas elas serem válidas e terem, ao mesmo tempo, contribuído para sua ocorrência.
Inicialmente, a adesão maciça em torno do jovem cantor parece indicar a existência, no País, de uma disponibilidade de liderança, da qual resulta um vazio que conduz todos a atitudes irracionais. Apesar dos esforços despendidos, os atuais governantes não conseguiram atrair para si o entusiasmo popular. São públicas as declarações do chefe do governo de que sua administração tem aspectos impopulares, sabendo-se que suas medidas de ordem econômica provocam, geralmente, desagrado geral.
Conduzido ao poder na crista de um movimento vitorioso, o atual presidente não possuía um anterior lastro de popularidade que o levasse ao exercício de uma liderança consentida. Recebido com satisfação por uns e com indiferença ou hostilidade por outros, não conseguiu se transformar, nestes dois anos, naquele líder que o povo se acostumara a ter. Esse costume criou-se na longa ditadura de Getúlio, cujo paternalismo satisfazia as necessidades de liderança do povo, enquanto impedia a formação de outros chefes políticos.
A queda do Estado Novo encontrou o País numa crise de líderes, pelo que o povo, nas primeiras eleições, recolocou no poder aqueles que satisfaziam sua necessidade de tutela. O povo revelava, nessa atitude, uma tendência para formas de governo autoritário, como resultado do longo aprendizado. Porém, o exercício da democracia foi, lentamente, corrigindo essa tendência, embora continuassem a existir poucos líderes. Acreditava-se, então, numa gradual libertação popular da necessidade dos líderes carismáticos e no aparecimento de maior número de políticos capazes de exercer liderança.
Entretanto, após os episódios de 1964, seguiu-se um gradativo esvaziamento dos poucos líderes populares, não só os de esquerda como seria inevitável, como também os de direita e centro. Paulatinamente, Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Carvalho Pinto e Adhemar de Barros foram sendo postos de lado pelo novo esquema, participando, de certa forma, do mesmo ostracismo de Juscelino, Jânio e outros, cujos direitos políticos haviam sido cassados, de imediato.
Em contrapartida, não se ofereceu ao povo nenhuma figura popular de projeção nacional, o que determinou a atual disponibilidade de liderança. A subseqüente reforma eleitoral, instituindo o voto indireto para a escolha dos ocupantes dos cargos majoritários, teve efeitos semelhantes aos dos esvaziamentos, ressentindo-se o povo de ter sido posto à margem na escolha de seus governantes. Disso, proveio um indisfarçável desinteresse pelas coisas políticas. Esse vazio, contudo, precisava ser preenchido. Havia necessidade de acreditar-se em alguém ou em alguma coisa.
Surgiram, nesse momento, diversos agentes catalisadores destacando-se, entre eles, pela !lua importância a passada voga das telenovelas. Considerando-se, superficialmente o problema, não se compreende como telenovelas de pouco conteúdo humano e mínima expressão artística puderam ser tão aceitas a ponto de mudar hábitos familiares. esse comportamento irracional foi, entretanto, a exteriorização da necessidade do preenchimento de um vazio geral. A identificação com os heróis e situações da trama propiciou, além disso, uma reconfortante fuga às inquietações.
No caso do «ié-ié-ié», o cantor Roberto Carlos preencheu a disponibilidade existente, embora comandando um simples movimento musical. Sua inconseqüência veio ao encontro do desinteresse reinante, enquanto sua música permitiu «mandar tudo pro inferno».

b) Aparecimento da consciência de massa
Pela segunda hipótese, o fenômeno Roberto Carlos seria a manifestação de um estado particular de consciência coletiva nos meios urbanos. Esta explicação não subestima a importância do tipo físico do cantor, da música, da televisão e dos interesses econômicos a ela ligados, porém, ajunta a estes fatores a influência decisiva da existência de uma sociedade de massas no País. Assim, idêntica à manifestação dessa situação no plano político, caracterizada no chamado populismo, estaria ocorrendo outra, agora, no plano da arte popular, confirmando estar concluída a formação de uma consciência de massa no Brasil.
Essa consciência de massa é capaz de reagir e se movimentar em termos de valores e estímulos os mais elementares.
O exemplo típico seria o movimento populista de Jânio, cujo símbolo era uma vassoura, perfeitamente compreendida como instrumento de limpeza, num instante em que uma parcela da massa desejava um moralista enérgico.
No populismo, o único vínculo consciente que existe para a massa é a imagem do líder que transcende os conteúdos ideológicos da relação. A pessoa do chefe torna-se a representação de um senhor poderoso ao qual seus seguidores se submetem. No caso de Jânio, era mais importante sua representação de homem duro, moralista enérgico, reservado e quase inacessível, do que sua posição diante dos problemas sociais ou políticos. Portanto, a predisposição de uma consciência de massa é para a aceitação de líderes carismáticos, forma irracional de liderança política.
Aliás, o sociólogo Karl Mannheim, na sua obra O Homem e a Sociedade, ao se referir à possibilidade da verificação das origens dos elementos racionais e irracionais na sociedade moderna, coloca a questão nos seguintes termos:
«A sociedade moderna, que no curso da industrialização racionaliza um número cada vez maior de pessoas e de esfera da vida humana, reúne grande massa de gente em enormes centros urbanos. Sabemos agora, graças a uma psicologia absorvida pelos problemas sociais, que a vida entre as massas de uma grande cidade tende a tornar as pessoas muito mais passíveis de sugestões, explosões incontroladas de impulsos e regressões psíquicas do que as pessoas organicamente integradas e firmadas em tipos de grupos menores. Assim, a sociedade de massa industrializada tende a produzir um comportamento muito contraditório, não só na sociedade, mas também na vida pessoal do indivíduo».
«Como sociedade industrial em grande escala, cria toda uma série de atos que são racionalmente calculáveis no mais alto grau e que dependem de toda uma série de repressões e renúncias de satisfações impulsivas. Como sociedade de massas, por outro lado, produz todas às irracionalidades e explosões emocionais características das aglomerações humanas amorfas. Como sociedade industrial, aperfeiçoa o mecanismo social de modo que a menor perturbação irracional pode ter os efeitos mais remotos, e como sociedade de massa, favorece um grande número de impulsos irracionais e de sugestões, provocando uma acumulação de energias psíquicas não sublimadas que, a todo o momento, ameaçam esmagar a sutil maquinaria da vida social». Mais adiante, Mannheim acentua que «o irracional nem sempre é prejudicial, mas que, pelo contrário está entre as forças mais valiosas do homem, quando age como força motriz no sentido de finalidades racionais e objetivas, quando cria valores culturais pela sublimação ou quando, como puro impulso, intensifica a alegria de viver sem romper a ordem social com a falta de planejamento. De fato, mesmo uma sociedade de massas corretamente organizada leva em conta todas essas possibilidades de condicionamento de impulsos. Deve, realmente, criar uma saída para um desabafo de impulsos, já que a objetividade da vida quotidiana, provocada pela racionalização generalizada, representa uma repressão constante de impulsos. É sob esse ângulo que a função do «esporte» e das «comemorações» na sociedade de massas, bem como dos objetivos culturais mais gerais da sociedade devem ser entendidos».
Entretanto, o sociólogo lembra a possibilidade de surgir um perigo específico da irracionalidade e explica: «numa sociedade em que as massas tendem a dominar, as irracionalidades que não tiverem sido integradas na estrutura social podem abrir caminho na vida política. Esta situação é perigosa porque o aparato seletivo da democracia de massas abre as portas para as irracionalidades precisamente nos pontos onde a direção racional é indispensável. Assim, a própria democracia produz sua antítese e proporciona armas aos seus inimigos».
Logo, a formação de uma consciência de massas teria possibilidade de, repentinamente, evoluir para um estado em que se lançam os pré-requisitos de uma ordem política de tipo autoritário, baseada no irracional com seus mitos e símbolos. De acordo com esta hipótese, o movimento Roberto Carlos poderia, então, revelar uma disponibilidade do povo para a aceitação das palavras de ordem de índole autoritária.

c) Influência dos meios mecânicos de comunicação
Outro fator determinante do prestígio desmedido de Roberto Carlos parece estar diretamente ligado aos meios mecânicos de comunicação, no caso a televisão, capaz de levar a todos os lares imagens de pessoas que agem como seres presentes. Deve-se assinalar que esses meios de comunicação despertam um certo fascínio sobre as pessoas, justamente pelo fato de serem mecânicos e terem, por isso, alguma coisa de extraordinário. A televisão como meio mais miraculoso e mais difundido torna-se, então, uma técnica capaz de criar padrões para a sociedade. Embora passível de crítica, qualquer coisa que apareça na televisão passa a ser considerada como possuidora de um mínimo de aceitabilidade e um certo grau de importância. Daí, sua influência sobre as nossas populações urbanas, onde praticamente todos os lares possuem e assistem, religiosamente, programas de televisão.
Dessa forma, a televisão pode repetir, em escala muito maior, a formação de imagens e ídolos, como ocorreu com o cinema e o rádio. Foi o cinema mudo que permitiu o aparecimento do mito Rodolfo Valentino e o cinema falado, Frank Sinatra. No rádio brasileiro, surgiu Orlando Silva, figura que provocava grandes manifestações entre o elemento feminino.
A televisão tem ainda a força de integrar no universo familiar aqueles que projeta no seu vídeo. As pessoas aceitam e incluem entre seus heróis os tipos que, por um processo de seleção, vão considerando ideais. Esses heróis tornam-se pouco a pouco quase reais, pois podem ser vistos e ouvidos dentro dos próprios lares. Cria-se assim a necessidade do encontro periódico entre o espectador e o seu herói.
Naturalmente, a televisão não pode ser encarada como uma simples criadora de figuras de compensação para todos os espectadores. Haverá sempre aqueles que não se deixam influenciar pelo fascínio do aparelho e poderão escapar, por isso, da tentação de projetar seus anseios em alguma figura particular. Entretanto, para a maioria é indispensável o encontro periódico. Não como conseqüência do exercício de uma crítica que permite a escolha de bons programas, porém, como possibilidade para satisfação de necessidades íntimas, geralmente inconscientes. Para promover os encontros periódicos, surge a propaganda, cujo objetivo é o de criar afinidades entre imagem e espectador com vistas a promoções comerciais ou utilizar as imagens já bem recebidas pelos espectadores para fins publicitários.
O cantor, ator ou animador não é o produto que a propaganda quer vender. me vai ser o instrumento para a publicidade tornar conhecido e vendável determinado produto. Assim, geralmente, a propaganda tem de criar primeiro a imagem para de. pois usá-la a serviço de um produto. Entretanto, ocorrem, não raro, circunstâncias que permitem o aparecimento de imagens, ante as quais o público reage de modo favorável, por encontrar nelas a satisfação de certos anseios.
Nestes casos, a máquina publicitária não precisa criar, basta desenvolver a imagem para depois utilizá-la comercialmente. Contudo, há sempre a exigência de um deslocamento do interesse do público, da imagem para o produto, que nem sempre é conseguido. Verifica-se, constantemente, uma margem de perda consubstanciada nos que se fixam na imagem e não aceitam o produto.
Logo, o ideal seria encontrar-se uma imagem que, ao mesmo tempo, fosse produto. Impondo-se a imagem aos telespectadores estariam, automaticamente, criadas as condições para sua venda como produto.
Com Roberto Carlos pode-se dizer que esse ideal foi atingido. Transformado em imagem aceita pela maioria, o cantor permite que seus admiradores possam identificar-se com ele pela compra de sua figura. Isto é, sendo ao mesmo tempo a imagem e o produto, Roberto Carlos pode não somente ser visto como também adquirido, possibilitando isso aos seus admiradores um contato muito mais direto do que o permitido pela simples visão ou audição.
Cada telespectador pode ter o cantor para si, de modo individual. Não só naquele momento em que, no vídeo, ele parece :; lhe pertencer, mas todas as vezes em que adquirir e usar aquelas coisas que fazem parte da sua personalidade. Há, portanto, a possibilidade quase real da identificação telespectador-herói, não conseguida por outras imagens.

d) A ação dos adultos no comportamento infantil
Foi a conquista dos adultos pelo cantor que permitiu a sua penetração até a área infantil. O instrumento para o cantor «ié-ié-ié» chegar até as crianças continuou sendo a televisão.
Não existem ainda pesquisas exatas que demonstrem se a televisão é benéfica ou maléfica para as crianças. O fato é que os pais, enquanto não chega uma opinião da ciência sobre o assunto, iniciam seus filhos, desde a mais tenra idade, na apreciação do absorvedor aparelho.
Disposta a imitar tudo, a criança logo reproduz os gestos e as atitudes dos artistas mais vistos, ao mesmo tempo que se revela capaz de reconhecê-los de imediato. Sem dúvida, esse comportamento é interpretado pelos pais como indício de inteligência e vivacidade, pelo que passam a ser vistos com maior freqüência os programas diante dos quais as crianças tornam-se mais excitadas. Assim, havendo música, elas dançam; havendo muito movimento, batem palmas ou gritam.
Orientada pelos pais, a criança passa, então, a ter suas preferências. Reage, naturalmente, e de forma positiva aos estímulos da música moderna, tomada pelo seu ritmo que exige, inclusive, o movimento de corpo. Encontra também as fisionomias que a agradam e não esconde sua satisfação ao vê-las.
Apesar de liderar um movimento de oposição juvenil ao mundo dos adultos, Roberto Carlos tem trânsito livre em qualquer lar conservador. Além das razões já apresentadas para explicar seu êxito entre os adultos, sabe-se que a figura do cantor consegue despertar grande simpatia junto aos pais e provocar instintos maternais nas mães. Isto porque todos o consideram um bom rapaz, Í!1ofensivo e afetivo. A circunstância de ter sofrido um acidente e de, mesmo assim, ter lutado até chegar ao êxito, torna-o ainda mais simpático para todos. Há, sempre, uma admiração em torno do «self-made man» que parece confirmar a regra de que quem lutar vence. Ele se torna, portanto, um estímulo e um desafio para todos.
Conquistados os pais, o cantor foi apresentado às crianças que aceitaram, prontamente, a nova fisionomia incluída no seu mundo infantil. Essa aceitação parece estar muito ligada a simples questão de simpatia pessoal e a uma faculdade inerente no cantor de cativar as crianças.
Na conquista das crianças de idade escolar, embora ainda seja grande a parcela do fascínio exercido sobre elas pelo cantor, entram em cena outros fatores. É a música bastante viva e alegre, são as letras simples e, às vezes, até baseadas em estoriazinhas de revistas infantis, com as quais os pequenos estão familiarizados. Acresce, ainda, a circunstância de muitas professoras terem difundido a música de Roberto Carlos entre os menores, nas aulas de música ou canto, por considerá-la sadia e fácil de memorizar.
Portanto, a não oposição dos pais que, pelo contrário, até estimulam e a aceitação dos professores criaram o terreno para a difusão do cantor na área infantil. A propaganda percebeu devidamente essa penetração do cantor da juventude entre a infância e, imediatamente, tratou de atingir esse mercado que, no Brasil, é imenso.
Por isso, os pais que haviam levado a música de Roberto Carlos para seus fi1hns logo tiveram, também, de comprar-lhes todas aquelas coisas usadas e anunciadas pelo intérprete. O atingimento do mundo infantil de forma tão maciça com a conseqüente criação de novas necessidades a serem satisfeitas, demonstrou a força que os modernos meios de comunicação podem ter, quando aliados à propaganda.

CAPÍTULO III
RAZÕES DO DECLÍNIO DA BOSSA NOVA

a) A mensagem social da bossa nova
O "ié-ié-ié" quando chegou ao Brasil, encontrou a «bossa nova» no pleno vigor da segunda fase. Tom Jobin, Carlos Lyra, e Vinícius de Moraes eram os grandes compositores, enquanto uma dezena de intérpretes conseguia mobilizar grandes audit6rios e vender milhares de discos. Embora iniciada com «o amor, o sorriso e a flor», totalmente desvinculada de questões sociais, a «bossa nova» em determinado instante aderiu ao chamado movimento das reformas de base, tornando-se um tipo de manifestação de arte engajada. A partir desse momento, suas composições passaram a apresentar mensagens reformistas, abordando problemas nacionais e retratando aquilo que se acreditava serem os anseios populares.
Foi a fase dos grandes espetáculos, promovidos por estudantes, dos quais participavam os artistas mais destacados da «bossa nova». Embora falando muito de povo e seus problemas, em virtude de ser uma música muito elaborada, com letras bastante intelectualizadas, a «bossa nova» não atingiu como se esperaria as camadas populares. Paradoxalmente, alcançou mais êxito na classe média, enquanto era prestigiada pelos intelectuais. 
Transformada num veículo de doutrinação, apesar do êxito que alcançava, não se corporificou em nenhum artista específico. Nara Leão, Maria Bethânia, Os Cariocas, Edú Lobo, Geraldo Vandré ou Ellis Regina todos eram aceitos como legítimos intérpretes da bossa, manifestando-se a juventude com entusiasmo quando se faziam ouvir as músicas de vanguarda, nas quais a mensagem social era mais ousada. Aplausos irrompiam nos :auditórios aos acordes de «Deus com a família», «Terra de ninguém» ou «Carcará», dando a entender que os ouvintes não se fixavam no cantor mas nas letras que satisfaziam sua oposição ao sistema vigente. A «bossa nova» não era, portanto, uma simples manifestação musical da juventude. Era, também, um movimento de rebeldia política, consciente e com objetivos bem ,definidos. A juventude, principalmente universitária, que a prestigiava tinha na «bossa nova» a interpretação musical de seus :anseios. 
Deve-se notar, contudo, que a «bossa nova» tornou-se mais ofensiva após a queda do governo Goulart e a ascensão do atua] presidente. Vinculada com os tipos de mensagens do governo anterior, a «bossa nova» demonstrou sua desaprovação aos novos -detentores do poder com a composição de músicas francamente contrárias às novas estruturas. Tutelada por intelectuais e criada por aqueles que não participaram da mudança do governo, a «bossa nova» manteve-se na oposição, desagradando com isso a classe média, responsável em grande parte pela nova situação. Nesta classe, passaram a ter livre trânsito apenas as composições tipo «Garota de Ipanema», destituídas de qualquer matiz político. Compensando a perda, a «bossa nova» conseguiu uma certa penetração nas camadas populares que visualizaram nela a oportunidade de externar seu descontentamento face às medidas econômicas do novo governo. Nesse instante, houve o êxito de «Carcará» e, embora não sendo uma bossa propriamente, surgiu o «Comedor de Gilete», com Ary Toledo. 
Fiéis ao objetivo de transmitir mensagens por intermédio da música popular, autores e intérpretes organizaram diversos shows, entre os quais se sobressaíram «Opinião» e «Arena Conta Zumbi», recebidos com entusiasmo pela maioria da juventude universitária. Nesse ínterim, o novo governo se firmou no poder, fazendo desaparecer, pouco a pouco, entre seus oponentes a esperança de uma reviravolta, arraigando-se a crença de que as atuais estruturas deverão permanecer por longo período. 
Vivendo de mensagens de reforma, a «bossa nova», então, entrou em crise, pois a nova situação - já recebida como definitiva - não favorecia mais aquele tipo de criação. Terminado o clima das euforias reformistas, esfriou o entusiasmo pela «bossa nova», pelo fato de suas mensagens se terem tornado inviáveis e não corresponderem à realidade atual. 

b) A música importada e o aparecimento do mito 
Nesse instante, o «ié-ié-ié» começou a substituir a bossa, descobrindo-se àquela altura que a nova manifestação musical já possuía grande prestígio entre os adolescentes. Realmente, a «bossa nova» não se preocupara em atingir o mundo dos adolescentes que, no Brasil, constitui uma parcela considerável da população. Gênero muito elaborado, não só na própria música como na letra, a «bossa nova» ficava acima da compreensão dos adolescentes que desejavam apenas um ritmo alegre. As questões sociais não estavam em suas cogitações. 
O «ié-ié-ié», enfim, os satisfez por ser uma música muito mais simples e alegre, capaz de provocar, inclusive, movimentos físicos e utilizar o seu excesso de energias. A própria letra, que se permanecesse no original funcionaria sempre como um obstáculo a uma maior adesão, não chegou a causar dificuldades. Além das simples versões, foram feitas composições nacionais que chegaram a ter mais êxito que as importadas. 
Fugindo das letras intelectualizadas da bossa, os novos autores desenvolveram temas encontrados em revistas infantis, com cuja leitura estavam acostumados. A simplicidade das letras, pràticamente sem conteúdo, agradou aos adolescentes também familiarizados com os personagens das revistas infantis, ao mesmo tempo que atingiu o interesse das próprias crianças. 
O aparecimento de Roberto Carlos, logo transformado em ídolo, imprimiu um tremendo impulso ao movimento, conquistando jovens, adultos e velhos para o «ié-ié-ié». Da ligação do cantor com uma empresa de propaganda, resultou, também, um lucrativo empreendimento comercial que movimenta uma série de produtos subsidiários de seu sucesso. 
Ao contrário do que ocorria com a bossa, os aficionados do «ié-ié-ié» escolheram Roberto Carlos como a personificação da nova manifestação musical, ao mesmo tempo, que o transformaram no seu líder e modelo, procurando imitá-lo, buscando de todos os modos uma identificação com ele. Diferenciando-se mais ainda da bossa que não se preocupara em criar novos tipos de indumentária, o «ié-ié-ié» introduziu algumas inovações, além de adotar o cabelo comprido como a nota marcante do movimento e alguns «slogans». 
Interessante assinalar-se que, pela primeira vez, a música importada adquiriu feições nacionais, tomandO-se o «ié-ié-ié» brasileiro bastante diferenciado do europeu. Isso não aconteceu com o «rock and roil», «twist» ou «hully gully», pois a música importada só fazia sucesso no Brasil, na sua versão original, interpretada pelo cantor estrangeiro. Foi a fase de «Bill Haley and His Comets», Paul Anka, Neil Sedaka, Trini Lopez e Elvis Presley, representantes de outra cultura que uma bem montada máquina publicitária conseguia impor entre a juventude. Isso já não ocorre com os «Beatles». Não obstante tenham grande aceitação entre a juventude, é o intérprete nacional Roberto Carlos quem monopoliza toda a música «ié-ié-ié». Levando-se em conta o interesse das gravadoras em promover mais a gravação estrangeira, conclui-se pela existência de fatores novos no êxito de Roberto Carlos.

CAPÍTULO IV 
O PAPEL DA PROPAGANDA NA CRIAÇÃO DE IMAGENS 


a) Futebol e queda de audiência na televisão 
Os aficionados de Roberto Carlos preferem, evidentemente, ignorar os motivos apresentados por sociólogos, psicólogos ou psiquiatras para explicar o êxito alcançado por seu ídolo. Basta-lhes o fato de o cantor ser hoje um sucesso sem precedentes. Têm mesmo uma certa antipatia por todos aqueles interessados em encontrar as prováveis causas, pois há um certo mistério no seu ídolo que deve ser preservado. 
De certa forma possuem alguma razão, pois as condições de ordem social ou psíquica existentes no instante do aparecimento do ídolo não seriam suficientes para explicar seu êxito. Boa parte deveu-se à associação de Roberto Carlos com técnicos de publicidade dotados de grande poder criador. 
Naturalmente, entre a juventude nacional dos centros urbanos existia predisposição para a aceitação de um líder que atendesse determinados anseios. Roberto Carlos surgiu porque na sua pessoa eram atendidos esses anseios. Entretanto, tudo parece indicar que qualquer outro jovem, possuidor de personalidade semelhante à de Roberto Carlos, poderia alcançar o mesmo êxito se fosse bem lançado pela publicidade. 
À criação· do ídolo Roberto Carlos estão vinculados o Canal 7, Paulo Machado de Carvalho e a empresa de publicidade Magaldi, Maia & Prosperi. Apesar de parecer meio absurdo, na criação de condições favoráveis ao aparecimento do cantor do «ié-ié-ié», papel preponderante foi desempenhado pelos clubes de futebol de São Paulo. 
Tudo começou quando os clubes de futebol, alegando crescente queda na arrecadação, proibiram a transmissão dos prélios esportivos pela televisão. Todos os telespectadores paulistanos já estavam habituados ao seu programa esportivo domingueiro e a proibição deixou-os sem ter o que assistir. A televisão perdeu, assim, um grande número de te1espectadores que, religiosamente', acompanhavam as transmissões das partidas futebolísticas. 
As pesquisas que setores especializados realizam, sistemàticamente, para saber da audiência dos diversos canais de televisão entre a população, passaram a revelar um grande número de televisores desligados durante as tardes de domingo, enquanto as pessoas que mantinham seus aparelhos ligados não demonstravam interesse específico por nenhum programa existente naquele horário. No lugar das transmissões esportivas ficara, então, um hiato, cuja audiência era mínima e que precisava ser conquistado. 
No Canal 7, as preocupações eram maiores, pois durante as transmissões esportivas era ele que acusava maior audiência. A mudança de situação atingiu, é óbvio, seus interesses comerciais, pois se não há audiência não há também anunciante. Acresce ainda ter a queda de audiência nos domingos afetado a média semanal, passando a emissora a ocupar um lugar inferior em comparação com suas concorrentes. 
Surgiu, nesse momento, a idéia de se fazer um programa com bastante música e alegria, dedicado à juventude. Participariam dele jovens cantores, em início de carreira, que tivessem algum prestígio entre a mocidade. Para liderar o programa, Paulo Machado de Carvalho lembrou-se de Roberto Carlos, cantor que ele considerava possuir todo o «charme» exigido pelo lugar. O jovem já havia tido sucesso com algumas músicas e possuía uma fisionomia bastante simpática, capaz de conquistar os telespectadores. Prova disto fora a música «Não quero ver você triste», pràticamente uma declamação, muito bem recebida pelo público juvenil. 
Para Paulo Machado de Carvalho as características próprias de Roberto Carlos (um ar de tristeza misturado com ternura e bondade) poderiam cativar uma boa parcela de jovens e permitir a elevação do índice de audiência da Televisão Record. Os técnicos em publicidade Magaldi, Maia e Prosperi foram ouvidos a respeito e também acreditaram no empreendimento. 
Como estivessem em negociações com uma grande loja de roupas, interessada em patrocinar um programa de jovens para vender seus produtos nessa área, os publicitários adquiriram, então, o programa com idéias de transferi-lo a essa firma. Entretanto, a pouca audiência do horário e o fato de o programa ser novo impediu a consumação do negócio. Alegou a firma que o programa poderia não pegar e que o jovem animador, com seus cabelos compridos, tinha uma certa aparência «acafajestada». 
A vista disso, os publicitários elaboraram um cuidadoso plano para o programa, acompanhado de um estudo demonstrando sua possibilidade de atingir a juventude. Consultaram duas grandes empresas, ligadas ao mercado juvenil, e tiveram respostas negativas. As reservas eram as mesmas, continuando a existir restrições à figura do jovem cantor. No fundo, estas empresas receavam ferir as susceptibilidades dos adultos e de incorrer no perigo de perder o seu mercado de pessoas conservadoras. 

b) O registro da marca «Calhambeque» 
Diante da negativa sistemática das empresas consultadas e dos ônus decorrentes da sustentação do programa «Jovem Guarda» sem anunciante, Magaldi, Maia e Prosperi resolveram tomar o programa para si mesmos. Examinaram, portanto, tudo quanto estivesse ligado à personalidade do cantor Roberto Carlos e chegaram à conclusão de que uma música de grande sucesso permitia a criação de um símbolo comercial. A música era «Calhambeque» e seu nome. foi registrado, imediatamente, como marca de propriedade da agência de publicidade. 
Sócio da agência nesse empreendimento, Roberto Carlos passou a anunciar os produtos «Calhambeque» que, pouco a pouco, foram se tomando o traço marcante da «Jovem Guarda», como se passou a designar o novo movimento juvenil. Colocada a questão nestes termos, além daqueles que passaram a comprar os produtos «Calhambeque» pela oportunidade que traziam de identificação com o ídolo, muitos foram obrigados aderir para não serem chamados de quadrados pelos seus colegas. Assim, a força da propaganda instituindo uma nova moda para adolescentes, crianças e jovens, adquiriu feições de compulsão social. 
Atualmente, os produtos «Calhambeque» incluem calças, saias, chapéus, cintos, sapatilhas, botinhas, blusas de inverno, blusões de couro, chaveiros, bolsas e fichários escolares, havendo um mercado sequioso para adquiri-los. A fim de manter relações bastante cordiais com os pais dos jovens adolescentes e crianças, os publicitários selecionam os produtos que desejam usar a marca «Calhambeque». mês sabem que o mercado juvenil e infantil terá bons compradores enquanto os pais prestigiarem a Jovem Guarda e a considerarem como divertimento inofensivo. Há, portanto, a necessidade de tomar-se certas precauções para satisfazer uma sociedade que é bastante moralista e até quase puritana na educação dos filhos, embora permita certas liberdades para os adultos. 
Daí, terem negado a marca para bebidas. Muitos país se decepcionariam com o cantor, cuja imagem para eles é pura e ingênua, e passariam a hostilizar o movimento juvenil. Aliás, é interessante repetir-se que a Jovem Guarda, apesar de querer ser um movimento independente de juventude, como oposição ao mundo já estruturado, tem toda aprovação e tutela dos adultos. Isto porque ela não ameaça ninguém e nem põe em dúvida as verdades aceitas pela sociedade. Pelo contrário, parece animar os jovens uma pureza de propósitos e uma ingenuidade de adolescentes que encantam os adultos. A oposição fica apenas nas roupas e nos cabelos e, portanto, é inofensiva. 
Não é a agência de publicidade quem fabrica os produtos «Calhambeque», ela apenas cede o uso da marca às indústrias interessadas,  mediante o pagamento de «royalties». Para a confecção das calças, por exemplo, é cobrado um «royalty» por dois metros de tecido utilizado. O tecido é fabricado por uma indústria têxtil com exclusividade para a Magaldi, Maia & Prosperi. 
Desse modo, a agência estabelece um mecanismo de controle sobre o volume de produtos fabricado pelo confeccionista, cujo contrato assinado estabelece especificações de fabricação, colocação de etiquetas e modelo, ao mesmo tempo que garante ampla cobertura publicitária do produto. O controle para outros produtos baseia-se em estimativas de produção e vendas. 
Os produtos «Calhambeque» têm sido vendidos, por enquanto, apenas nas grandes capitais, onde a mocidade se identifica de pronto com o cantor. Entretanto, se o êxito de Roberto Carlos permanecer, a agência publicitária pretende vender esses produtos em todo o Interior, sabendo que o consumidor juvenil do Interior procura sempre imitar os movimentos verificados entre os jovens das metrópoles. 
Levando-se em conta o fato de que mais de 53% da população brasileira tem menos de 20 anos de idade, pode-se avaliar a importância do movimento Roberto Carlos, no aspecto comercial, por ter chamado a atenção para esse enorme mercado de consumidores considerados, até, há pouco, como existente apenas em potencial.

CAPÍTULO V 
UMA MÚSICA QUE SATISFEZ A TODOS 

a) A reação dos adultos ao «vá tudo pro inferno» 
Uma música em especial exerceu influência decisiva na aceitação do cantor Roberto Carlos pelos diversos grupos etários, tornando-o suficientemente conhecido e consolidando seu sucesso. «Quero que vá tudo pro inferno» chamou a atenção dos adultos para o cantor predileto de seus filhos, pelo fato de ter incorporado à sua letra uma imprecação, bastante usada, mas ainda recebida com certa reserva pelos mais velhos. 
Passada, porém, a primeira impressão dos adultos, foram eles mesmos os principais divulgadores da composição que lhes possibilitava uma válvula de escape. O estribilho «e que tudo o mais vá pro inferno» deixou de ser apenas o encontro de uma boa rima para sintetizar o desinteresse da geração moça ante os padrões da sociedade constituída e o desencanto dos adultos diante de uma situação política que não evoluiu na medida de suas expectativas. 
A composição, naturalmente, não foi intencional, contudo, incluiu uma frase que todos estavam pensando. A aceitação foi rápida porque todos reconheceram na letra da nova música um pouco de sua autoria, sentindo-se também co-autores. 
O mandar alguma coisa para o inferno já faz parte das expressões brasileiras usadas normalmente e expressa bem a atitude de quem, impossibilitado ou cansado de fazer alguma coisa, dela se desinteressa. Tem força de imprecação e sempre revela um descontentamento ou desânimo. 
Para os jovens, a expressão representou o retorno a uma posição individualista, de simples defesa dos próprios interesses. Contraposta, portanto, à precedente atitude de preocupação coletiva da «bossa nova», caracterizada por uma oposição construtiva. «Vá tudo pro inferno» sintetizou a posição do jovem que diante de problemas que lhe são apresentados, reage com um «que me importa?», numa demonstração de uma precoce acomodação, de um desinteresse por tudo aquilo que ultrapasse seu desejo de ser «aquecido no inverno», ou seja, de ter suas necessidades individuais satisfeitas. 
Para alguns, os versos «quero que você me aqueça neste inverno e que tudo o mais vá pro inferno» revelam, também, uma irresponsabilidade ética diante do amor, considerado como uma simples aventura temporal e inconseqüente. Nesta interpretação, a atitude imediata, é uma outra demonstração do revigoramento do individualismo entre a juventude «ié-ié-ié». 
Entre os adultos, todavia, o motivo determinante da aceitação da música, está ligado à necessidade de desabafo e, de algum modo, a frustrações de ordem política. A classe média, principalmente, que desempenhou papel relevante no movimento contrário ao governo Goulart, não se considera satisfeita com a situação atual e não esconde suas decepções. Isto porque esperava, de imediato, uma atitude mais drástica do governo para com os corruptos e porque se vê atingida, em cheio pela política econômica, responsável pela redução do seu poder aquisitivo. 
Assim, os adultos juntaram-se aos jovens no cântico -da melodia que lhes permitiu externar um pouco do seu sentimento. A questão da disponibilidade de liderança aqui também Se aplica, pois os seguidores dos líderes esvaziados unem-se aos" demais e também desejam que «tudo o mais vá pro inferno»,' numa demonstração de desinteresse. 

b) Desafogo e solidão 
Depois, há problemas de outra ordem. A população urbana, contida em apartamentos pequenos, apertada nos coletivos, posta em filas de cinemas e teatros e, ainda sofrendo as conseqüências da falta de planejamento das grandes cidades, precisa desabafar para poder sobreviver. O desabafo do «vá tudo pro inferno», embora nada solucione, traz um certo alívio da tensão diária para aquele que, mesmo em casa, não pode se- descuidar para não incomodar o vizinho que vive sob o seu apartamento. 
Acrescentam-se ainda, os problemas próprios do trabalho, o trânsito que congestiona, a água que falta, o telefone que não dá linha ou o ônibus que não pára e passa lotado, tudo num desafio constante ao habitante da cidade grande. Para a juventude, além desses problemas, há o da dificuldade de diálogo com a geração de seus pais.
Criados numa fase em que o mundo se desenvolve abruptamente no campo da tecnologia e da ciência, os jovens têm uma nova compreensão da vida, bem diferente da que tiveram e ainda têm os adultos. Daí, sentirem-se incompreendidos e sozinhos na cidade que tem excesso de população. 
A mesma composição que manda «tudo pro inferno» fala, também, na existência dessa solidão entre os jovens. «Onde quer .que eu ande tudo é tão triste» e o lamento de que a «solidão me dói» certificam a existência na juventude de um vazio, nascido da incompreensão. Parece que a mocidade não tem recebido a atenção, a assistência e o carinho devidos pelos pais e adultos a ela mais achegados. 
Procuram, então, chamar a atenção sobre sua tristeza, enquanto explicam que de pouco lhes vale as vantagens de uma vida de «play-boy» e as facilidades proporcionadas pela posse de um carro, se a solidão lhes acompanha e torna a sua existência fria, como um inverno. O inverno não seria, portanto, a estação do ano em que o jovem deseja ser aquecido, mas a metáfora encontrada para designar a sua situação solitária e a frieza conseqüente da falta de afeto. 
A composição que exerceu o papel preponderante na ascensão e êxito de Roberto Carlos parece ter resumido, de forma bastante feliz, as diversas tendências e anseios da juventude e da maioria dos adultos. O verso rebelde e irreverente, o desinteresse, o individualismo, a acomodação, o lamento e a petição de afeto e carinho coexistem na mesma melodia. 
Comentários do Barbieri
Eu comprei este livro num sêbo perto da Praça da Sé em São Paulo lá pelo princípio de 1980. Este livro acabou vindo para Londres onde vivo e agora faz parte da minha bibliotéca. Paara colocá-l aqui neste site, com um scanner "escaneei" todas as páginas do livro, incluindo a capa e, depois usei um programa OCR (optical caracter recognizer) para checar todas as página usando um programa de inteligêcia artificial e assim transformar os "scans" num documento em Microsoft Word. Como o texto do livro foi encrito nos anos 60, com o Word fiz a correção do texto. O texto então foi reeditado para este web site. Todo cuidado foi tomado para evitar problemas horotgráfico e de compreenção de  texto. Se o caro leito encontrar algum problema ficarei feliz em ser comunicado para poder fazer a correção.
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CAPÍTULO VI 
A REBELIÃO ROMÂNTICA DA JUVENTUDE NACIONAL 

a) A falta de agressividade e o ideal de pureza 
O que mais chama atenção na juventude «ié-ié-ié» é a sua falta de agressividade e a plena aprovação que lhe dão os adultos, os quais chegam mesmo a incentivá-la. Embora essa falta de agressividade possa ser motivo para elogios, torna-se bastante curiosa, pois a nota marcante da juventude sempre tem sido a de colocar em dúvida as conquistas das gerações passadas e agredi-la com a apresentação de novos valores. 
Entretanto, excetuadas as mostras de rebeldia relacionadas com vestimenta e uso de cabelos longos, essa juventude não agride, não ameaça e nem coloca em dúvida o nosso tipo de organização social. No máximo, os jovens «ié-ié-ié» retiram os esguichadores de água do pára-brisa dos automóveis de determinada marca (brucutus) para com eles fazeres anéis que imitem os usados pelos seus líderes. 
Sucedendo um movimento musical que era comandado por jovens preocupados com questões sociais, a Jovem Guarda confessa-se desvinculada de tais problemas e animada apenas pelo desejo de ser alegre. Essa alegria terr., porém, traços de inconseqüência por demonstrar um total alheamento dos moços diante de problemas ligados à sua existência e à sua participação dentro da sociedade. 
Assim, embora essa juventude fale muito em amor e cante letras inocentes em ritmos alegres, a sua falta de qualquer objetivo não constitui um bom indício. A própria adesão dos adultos conservadores parece indicar não trazer o movimento aquele sopro renovador próprio da mocidade. 
Pode-se argumentar que, depois da Jovem Guarda, decresceu a ocorrência de desordens, arruaças e violências praticadas por jovens. A maioria adquiriu um instrumento musical, transformando-se as antigas «gangs» em estridentes conjuntos musicais. Pode-se ainda acrescentar ser essa mocidade portadora de bons propósitos e de ideais puros, na medida em que demonstra uma prévia disposição para um ajustamento indolor à estrutura social. 
Entretanto, o desinteresse dessa juventude por questões mais sérias e a sua superficialidade não são animadores, exceto para os que pretendem manter os jovens marginalizados. Na velha Inglaterra o aparecimento dos «Beatles» coincide, pràticamente, com um renascimento comandado pela juventude. Hábitos, tradições e convenções seculares estão sendo rompidos e derrubados por uma juventude culta e saudável que deseja mudar a fisionomia velha e austera do país para outra, .alegre e juvenil. 
O Brasil, porém, é um país novo em que tudo ainda está em formação. Portanto, um movimento juvenil, sem propósitos e sem quaisquer ideais transforma-se num hiato nada salutar para o desenvolvimento nacional. Satisfaz, entretanto, aos conservadores, sempre contrários a mudanças e, por isso, animados com a inconseqüência juvenil que não põe em perigo a estrutura social. 
Daí, ser bastante correta a designação de rebelião romântica para o atual movimento de adolescentes e jovens. É uma rebelião, no sentido da oposição natural dos moços aos adultos, externada na adoção de novos padrões de roupas e de apresentação pessoal. Entretanto, o uso de toda energia juvenil apenas em músicas movimentadas e o desinteresse por coisas mais objetivas faz dela uma simples rebelião romântica, que não é contra e nem a favor de ninguém. 
Surpreendentemente, os líderes dessa juventude parecem aspirar, inclusive, ideais de pureza que os adultos se revelaram incapazes de manter. Senão vejamos. A cantora Wanderléia, em artigo escrito para determinada revista, deixou claro uma certa irritação para com os que procuram interpretar o comportamento da juventude, afirmando que com o canto e a dança apenas dão vazão às energias. Acrescenta que os jovens não destroem nada, cantam músicas puras e dançam sem sensualidade. E conclui com uma mensagem em que fala em um mundo novo. 
Embora negando a existência de uma rebeldia no seio da mocidade, não consegue a cantora esconder uma certa indisposição para com os adultos. Depois de enumerar os hábitos das juventudes passadas, aos quais critica, ela procura demonstrar que a mocidade atual é alegre e viva mas sem maldades. Percebe-se, -então, existir entre a mocidade uma prevenção contra os adultos que lhes fixam as normas de comportamento e que, contudo, não as observam. A desagregação familiar das grandes cidades não passou despercebida aos jovens. Eles assistiram e assistem com desgosto que seus mentores não praticam os preceitos que lhes querem impingir. 
Esse comportamento falso de pais ou de mestres, provoca nos moços a aspiração por ideais nobres e a descrença no mundo adulto. Contudo, enredados pela moral pregada pelos que não foram capazes de praticá-la, os jovens têm uma reação paradoxal e querem provar ser muito mais superiores. Assim, embora tenham atitudes mais ousadas, fazem questão de cercar o seu mundo de um clima de sinceridade não existente entre os adultos. 
Essa reação, porém, satisfaz aos adultos que não percebem a sua sutileza e julgam tratar-se da manifestação de um simples espírito sadio entre os jovens. Dão, então, todo apoio ao movimento pela tranqüilidade que ele traz, pois consideram toda a juventude inofensiva. Os ritmos, gritos, pulos e cabelos longos são entendidos como tendência natural para extravasar energias e parecer diferente. 
Dessa forma o protesto não atinge seu objetivo, ao mesmo tempo que os jovens, inconscientemente, enquadram-se, de modo precoce, dentro de todo complexo social.

b) Conseqüências da emancipação da mulher 
Há, porém, outra hipótese para explicar esse surto de pureza ou nostalgia de pureza entre a juventude. Seria uma conseqüência da gradual emancipação da mulher, que, hoje, nos centros urbanos equipara-se ao homem, determinando isso um equilíbrio de convivência que parece retardar a maturidade. Em razão desse 
equilíbrio, os jovens passam a apresentar um comportamento típico de adolescentes em disponibilidade amorosa. 
A moda masculina e feminina revelam, realmente, uma tendência mundial para uniformização, diminuindo gradualmente as diferenças marcantes que existiam entre as roupas para moços e moças. Outro fato interessante refere-se ao uso dos cabelos, com os rapazes passando a usar cabelos longos, enquanto as mulheres os encurtam. 
Essa uniformização de indumentária, que não distingue mais os grupos sexuais, parece estar muito relacionada com a mudança da situação da mulher. Durante muitos séculos, a mulher viveu segregada. Era o homem quem providenciava a manutenção da família, enquanto a mulher permanecia em casa cuidando das coisas domésticas. A situação dela era pouco superior à de um objeto. 
Não tendo tarefas a cumprir e sendo mantida pelo homem, podia esmerar-se no realce de sua beleza. Seus vestidos eram bastante ornamentados, seus cabelos exibiam penteados complicados, ao mesmo tempo que a pintura realçava sua beleza. 
A gradual libertação da mulher que também passou a trabalhar ao lado do homem, exigiu dela indumentária mais prática. Assim, os trajes que possuía apenas para se apresentar tiveram de ser substituídos por outros que lhe dessem maior mobilidade no trabalho. Logo, surgiu o «tailleur», a versão feminina do terno masculino. 
À medida que a mulher foi ingressando no mundo do homem, as diferenças foram se tornando mínimas, principalmente nos trajes esportivos. Isso poderia, então, indicar que estivéssemos a caminho de uma civilização in diferenciada ou andrógina. No momento, porém, ocorre uma pequena e inexplicável inversão. 
As mulheres aderiram aos saltos baixos, cortam os cabelos e usam calças. Entretanto, os homens passaram a adotar o cabelo comprido, usam camisas esporte parecidas com blusas femininas e gostam do colorido preferido pelas mulheres. 
Tudo parece indicar que o homem, acostumado a exercer o domínio sobre a mulher, sente-se agora receoso. Obrigado a aceitá-Ia como companheira e sua igual, apenas com as diferenças do sexo, o homem vacila. Na Europa, embora a liberdade sexual seja muito grande entre a mocidade, o ajustamento homem e mulher torna-se doloroso. 
Os próprios filmes dos «Beatles» demonstram esse clima. Apesar de surgirem mulheres nas cenas, não há o desejo ou a relação erótica, sàmente companheirismo, como se todos fossem adolescentes. Muitos críticos viram alguma relação entre os «Beatles» e os Irmãos Marx, notaram, contudo, nos primeiros, a falta de agressividade e sensualidade que sobrava nos Irmãos Marx. 
O sexo masculino estaria vivendo, portanto, um período de digestão difícil, que seria este da emancipação da mulher. Em síntese, a mulher, no momento em que deixou de ser objeto, tornou-se má companheira para o homem. Isto porque passou a ter desejos, vontades e consciência de si mesma, rompendo aquele equilíbrio antes mantido pela liderança autoritária masculina. 
A nova realidade tem dupla conseqüência: o aparecimento das sociedades matriarcais, nas quais o homem cede ante a nova mulher; e a multiplicação do homossexualismo, que demonstra o retraimento do homem e a sua incapacidade de juntar-se com uma mulher em condições de igualdade. 
Sentindo esse impacto, a juventude retarda sua maturidade e se fixa num amor platônico porque, no fundo, teme a realização sexual. Esse comportamento é parecido com a atitude das adolescentes para com os ídolos cabeludos. Receosos ainda da idéia do sexo elas preferem amar criaturas não bem definidas, que parecem masculinas mas conservam características femininas. Sentem-se, assim, mais seguras.

CAPÍTULO VII 
APOIO E RESERVA DOS ADULTOS AOS MOVIMENTOS JUVENIS 

a) Autocrítica mostra desejo de convivência 
Para a melhor compreensão da mocidade «ié-ié-ié» brasileira, não deve ser desprezado o significado da letra de uma composição que alcançou grande êxito. Isto porque ela constitui uma verdadeira autocrítica de seu cantor e de seus admiradores, de modo geral. Trata-se da música «Mexerico da Candinha». 
Nela, Roberto Carlos comenta os defeitos que lhe atribuem e apresenta sua justificativa. Naturalmente, a autocrítica foi feita inconscientemente e é, por isso mesmo, mais válida. Ela também confirma que a juventude por ele liderada está interessada em obter a aprovação dos adultos. 
A Candinha funciona, no caso, como representação da opinião geral da sociedade. A composição responde às principais críticas feitas à juventude moderna com o objetivo evidente de romper as reservas de certos adultos, para que tolerem os moços se não for possível estimulá-los. 
Há também na composição o interesse de formar a imagem do pseudo-rebelde, isto é, aquele que faz e usa uma série de coisas extravagantes mas que está, plenamente, integrado na sociedade comandada pelos adultos. O jovem aceita os valores estabelecidos pela sociedade e deixa bem claro ser, no fundo, um bom rapaz. Esse temor de desagradar aos adultos confirma o caráter romântico da rebelião juvenil e demonstra de modo cabal a inconseqüência do movimento. 
A letra da composição «Mexerico da Candinha», que enseja um melhor entendimento do espírito juvenil, é a seguinte: 
A Candinha vive a falar de mim em tudo. 
Diz que eu sou louco, 
esquisito e cabeludo 
e que eu não ligo para nada, 
que eu dirijo em disparada, 
acho que a Candinha gosta mesmo de falar; 
ela diz que eu sou maluco 
e que o hospício é o meu lugar, 
mas a Candinha quer falar. 
A Candinha quer fazer 
da minha vida um inferno, 
já está falando do modelo do meu terno, 
e que a minha calça é justa, 
e de ver ela se assusta 
e também da bota que ela acha extravagante. 
Ela diz que eu falo gíria 
e que é preciso maneirar, 
Mas a Candinha quer falar. 
A Candinha gosta de falar de toda gente. 
Mas as garotas gostam 
de me ver bem diferente, 
a Candinha fala mas no fundo me quer bem, 
e eu não vou ligar 
pra mexericos de ninguém. 
Mas a Candinha agora já está falando até demais, 
porém, ela no fundo 
sabe que eu sou bom rapaz 
e sabe bem que essa onda 
é uma coisa natural 
e eu digo que viver assim é que é legal. 
Sei, que um dia, 
a Candinha vai comigo concordar 
mas sei que ainda vai falar. 
Como se vê, ao apresentar suas explicações, Roberto Carlos diz que vivem a falar dele em tudo: que é louco, esquisito e cabeludo, que dirige em disparada e que o hospício é seu lugar. Lembra as críticas ao modelo de seu terno, à sua calça justa e às suas botas tidas como extravagantes, para depois apresentar suas justificativas. 
O primeiro argumento do cantor contra esses falatórios torna claro a necessidade da diferenciação sentida pela juventude. A alegação de que as garotas gostam de vê-lo bem diferente revela a oposição dos moços à possibilidade de parecerem iguais aos adultos, cuja maneira de ser e atitudes são tidas como «quadradas». 
o segundo argumento é o de que, apesar de suas esquisitices, ele é um bom rapaz. O fato de ele declarar ser um bom rapaz traduz o seu engajamento à sociedade com o conseqüente reconhecimento da validade das regras por ela estabelecidas. Por outras palavras: «Não precisam se preocupar comigo, pois minhas manifestações exteriores de oposição não revelam uma convicção íntima e nem descrença nos valores morais aceitos pela sociedade». 
Daí, a complacência da sociedade para com o comportamento dos moços, pois os adultos sabem que, na realidade, todos querem ser bons, não passando a revolta deles do desejo de deixar crescer o cabelo, usar roupas diferentes ou ter uma gíria própria. 
Prova disso, é o prestígio que o movimento vai recebendo das mais diversas organizações. Entidades de assistência, a fim de conseguir mais fundos para suas obras de benemerência, promovem «shows» com o ídolo «ié-ié-ié», convictas de que estão dando à juventude o melhor em matéria de recreação. Até o próprio clero procura falar a linguagem «ié-ié-ié», preocupado em mostrar à juventude que não condena a nova música e que considera o jovem Roberto Carlos um modelo para a mocidade. Assim, entre promoções filantrópicas e ofícios religiosos celebrados ao ritmo da nova música, os adultos vão assumindo paternalmente a direção do movimento juvenil, encantados com a docilidade dos jovens. 
E a juventude torna-se, simplesmente, barulhenta mas boazinha. Alguma coisa assim como uma criança peralta que gosta de chamar a atenção. Pena que seja também irresponsável e, à escassa cultura, junte uma dose de indiferença pelas questões mais sérias.  

b) Restrições aos movimentos sérios
Entretanto, a juventude brasileira não é toda ela constituída de adeptos do «ié-ié-ié». Há mesmo um movimento, em franca expansão, cuja finalidade é reunir jovens para ouvir a música clássica. É constituído de milhares de estudantes secundários ou universitários que freqüentam teatros e até auditórios de emissoras de televisão para ouvir orquestras sinfônicas e música de câmara. 
Trata-se da Juventude de São Paulo que procura melhorar o gosto artístico da mocidade e que apresenta, com grande freqüência, ótimas orquestras interpretando os mais famosos compositores. E, embora poucos saibam, em todas essas apresentações os auditórios ficam repletos de jovens. 
Há, também, um grande interesse entre os moços pelo teatro. Apesar das dificuldades, quase toda escola superior tem o seu grupo teatral. Entre eles destaca-se o Teatro da Universidade Católica, o conhecido TUCA, cujos componentes foram, recentemente, premiados em festival promovido na França. Para participar do festival, esses estudantes dependeram de contribuições de amigos e empresas, pois não possuíam o necessário para pagar as passagens e não contavam com o apoio oficial. 
Estes movimentos, porém, não recebem os mesmos estímulos que favoreceram a Jovem Guarda. Lutam com dificuldades financeiras e não conseguem despertar o entusiasmo dos adultos que chegam a recebê-lo com reservas. No caso típico dos teatros universitários, paira sobre eles a eterna desconfiança de que prestigiam tendências ideológicas contrárias às tradições nacionais. 
Assim, entre movimentos sérios, que exigem «background» cultural e que abrem novas fronteiras para os jovens, ou movimentos inofensivos e assinalados por uma total pobreza de conteúdo, a sociedade prefere ficar com estes últimos. Partidária da filosofia que defende a marginalização da juventude, a sociedade brasileira olha com restrições quaisquer manifestações juvenis que pretendam submeter à uma análise suas estruturas. 
Acham os adultos, de uma forma geral, que os moços devem se divertir e não se preocupar com as coisas mais sérias. Confiam que o seu amadurecimento lhes trará, conseqüentemente, o engajamento na sociedade, sem a exigência da realização das transformações que o idealismo da juventude julga imprescindíveis. Essa resistência é perfeitamente compreensível numa sociedade conservadora como a nossa, cuja organização já arcaica passa pelo período de crise de ajustamento aos novos padrão exigidos pela realidade atual. 
Ora, o movimento «ié-ié-ié», patrocinado por uma bem montada máquina publicitária, conseguiu mobilizar grande parte dos adolescentes e jovens que vivem nos centros urbanos, desviando-os do debate de temas julgados perigosos. Formou, inclusive, um contingente de jovens totalmente alheio aos acontecimentos nacionais e preocupado apenas em imitar seu ídolo nos mínimos pormenores. 
Talvez, por isso, tenha recebido tanto apoio. A última manifestação de aprovação dada aos jovens «ié-ié-ié» pela sociedade foi a entrega do título de Cidadão Paulistano ao cantor Roberto Carlos, capixaba de Cachoeira do Itapemirim. Por expressiva maioria, tendo sido contrários apenas quatro vereadores, a Câmara Municipal de São Paulo outorgou ao cantor uma honraria que só é concedida a personalidades de grande destaque que tenham prestado serviços de alta significação para a metrópole. Houve, naturalmente, uma dose de imitação, pretendendo reeditar o episódio em que os «Beatles» foram agraciados com um honraria pela Coroa britânica. Não faltou, também, o interesse simplesmente político de agradar os novos e futuros eleitores juvenis. 
O principal, porém, está na formalização da aprovação já tàcitamente dada pela sociedade adulta à figura do jovem líder e a tudo quanto ele significa. Enquanto isso, a propaganda insiste na apresentação do ídolo, junto aos adultos, como figura de elevados dotes morais e de austeros princípios. A atitude mais explorada é a de ter negado a marca de sua propriedade a uma fábrica de bebidas, demonstrando assim - dizem - ótima formação e preocupação pelo resguardo da juventude. A atitude não deixa de ser comovedora, entretanto, não será com medidas idênticas que se diminuirá o consumo de bebidas. Nem será com tais desprendimentos que salvará a Pátria. O povo porém é vulnerável a tais estímulos e se emociona com apelos sentimentais. 
Para a campanha do agasalho valem as mesmas críticas. Foi uma promoção bem planejada, semelhante à «(Quanto vale uma criança», que deu bastante destaque a Moacir Franco. Tais promoções, embora tenham alguma utilidade, pecam pelo exagerado personalismo, enquanto desenvolvem no povo um conceito já superado de assistência social. 

CAPÍTULO VIII 
OS TRAÇOS CONSERVADORES DO LÍDER JUVENIL 


a) A suposta liberalidade 
Roberto Carlos, o líder da juventude «ié-ié-ié» nacional, embora tenha um modo próprio de se vestir e deixe crescer seus cabelos, agindo numa e noutra forma em desacordo com as convenções sociais, é, no fundo, um jovem conservador. O conhecimento de suas impressões sobre diversos assuntos e de seu comportamento em determinadas circunstâncias especiais não revelam nenhum inconformismo e nenhuma interpretação mais arrojada para os problemas que a sociedade julga já ter dado a última palavra. 
A suposta liberalidade diante dos tabus mantidos pelas gerações passadas não existe. Ele guarda os mesmos preconceitos preservados pelos adultos e, nas entrevistas que concedeu aos mais diversos órgãos de difusão, jamais revelou possuir um espírito renovador ou reformador. Há nele concordância com o pensamento dos mais velhos em todos os assuntos importantes. 
Talvez alguém argumente que essa posição favorável ao pensamento da sociedade constituída seja uma autodefesa. Isto é, para não provocar uma reação que poderia frustrar-lhe o sucesso. Entretanto, essa atitude de autodefesa - se houvesse - confirmaria seu caráter conservador. Nenhum jovem possuidor de interpretações novas, colocado em situação de liderança e crendo em suas idéias, iria preocupar-se em mascarar seu pensamento. Pelo contrário, o desafio e o quixotismo são a característica marcante da mocidade. Há um certo prazer para o jovem rebelde em violentar os esquemas que considera superados. 
Isso não significa que o jovem, pelo simples fato de ser contrário ao convencional, tenha razão. Mas o fato de ele ser contra e de não fazer segredos disso revela a sua juventude. Todos os grandes movimentos de jovens quer na literatura, pintura ou política sempre significaram o rompimento com o que era aceito, dogmàticamente, como verdadeiro. O posterior amadurecimento permitia uma reavaliação da decisão inicial. Entretanto, foi sempre o impulso rebelde da juventude o revitalizador da sociedade que, de tempos em tempos, é assim submetida a um reexame geral. 
A aquiescência aos padrões do mundo em que vive não é,porém, o traço marcante da juventude sadia. Não há dúvida de que essa aceitação satisfaz aos responsáveis pelos destinos da sociedade. Os adultos julgam já ter encontrado a explicação definitiva para as questões da existência e para o comportamento social do homem. Sentem-se seguros quando a geração moça os entende, pois a apresentação de outras explicações sempre lhes é dolorosa. 
Entretanto, o mundo encontra-se em fase de constante transformação pelo que é impossível a manutenção de fórmulas rígidas de comportamento. Dia a dia, novos conhecimentos obrigam a revisão de fatos anteriores, quer no campo da ciência, da técnica ou da própria moral. Verdadeiros tabus das gerações passadas são discutidos abertamente em nosso tempo. Até mesmo a religião reformula suas crenças e <;e readapta para não envelhecer nesse mundo dinâmico. 
Roberto Carlos, porém, não traz nada de novo para a juventude brasileira. Nenhum protesto e nenhuma nova posição, aceitando e enquadrando-se docilmente na estrutura social em funcionamento. Não faz uma crítica, foge delas. E para a juventude desorientada das grandes cidades oferece apenas uma alternativa: cantar e dançar o «ié-ié-ié». 

b) A manutenção dos tabus 
Suas preocupações são todas de ordem externa. Para deixar-se fotografar, demora bem uns dez minutos ajeitando os cabelos, enquanto revela um desusado requinte no trajar. Nas questões de ordem interna suas posições são retrógradas, refletindo, exatamente o pensamento da geração passada. 
Suas expectativas diante da mulher não têm nada em comum com o pensamento moderno. Para ele, a mulher deve ser feminina e simples, não sendo essencial a. inteligência. Ora, por ser feminina se entende fragilidade, fraqueza e capacidade de sujeição; ser simples, significa ser de manejo fácil, com muita docilidade e por achar que a mulher deve ter pouca inteligência entende-se ser ele partidário da velha escola que não exigia da mulher grandes dotes intelectuais, pois o homem é quem deveria resolver sempre pelos dois. 
Sobre a igualdade dos direitos da mulher, Roberto Carlos tem duas atitudes. Pela teórica, não ergue qualquer obstáculo a essa conquista. Mas na prática, é bem diferente. Respondendo a uma jornalista sobre a questão, o jovem rebelde demonstrou estar comprometido com todos os preconceitos que tolhem e marginalizam a mulher. Sua posição sobre a virgindade feminina é tão conservadora e convencional como a de qualquer respeitável senhor. 
Não enfrenta o problema, e embora afirme que, na nossa época, virgindade não é mais importante, continua achando que as moças bem educadas casam virgens. Entretanto, não mais existindo a virgindade (no sentido físico), não há mais necessidade de preocupar-se com ela (no sentido moral). Ele é, portanto, um defensor das teorias de nossos avós, embora pareça liderar posições mais evoluídas. Por último, parece achar que o homem é polígamo por natureza, pelo que as mulheres devem se conformar com essa realidade. 
Quanto aos problemas gerais da humanidade, o líder juvenil não demonstra maior interesse. Está feliz no seu universo familiar e mais ainda com o sucesso que lhe tem proporcionado uma sensação de realização pessoal. Pobreza, miséria, injustiça, insegurança, ameaça de guerra são preocupações que, às vezes, lhe vêm à cabeça quando lê jornais. Não é, porém, seu costume ler muitos jornais. E como não se demora na análise desses temas não tem qualquer opinião formada sobre eles. 
Sobre os nossos próprios problemas tem reação idêntica. Em síntese, não tem qualquer interesse pelas questões que chama, para se justificar, de problemas de adultos. Não sabe direito quem é o seu homônimo Roberto Campos, nem quem é governador em Minas ou o que seja Congresso Nacional. 
Informado apenas por revistas infantis, não se interessa por saber e não sabe o que se passa no Vietnã, guardando sérias reservas quanto à possibilidade de o homem chegar à Lua. É contudo, o líder de uma grande parcela da geração que assiste o desenvolvimento da técnica e que poderia ser a primeira a interessar-se pela extraordinária conquista do nosso século, como será o desembarque do homem na Lua. 
Deixa, inclusive, de ter semelhanças com o conjunto dos «Beatles», ao demonstrar seu desinteresse pelo mundo em que vive. Isto porque o conhecido conjunto inglês, em recente entrevista concedida em Tóquio, tomou posição numa das mais controvertidas questões internacionais. Interrogados sobre o que achavam da política norte-americana no Vietnã, os «Beatles» afirmaram que os Estados Unidos nada têm a fazer naquela região do sudeste asiático, tendo John Lennon - um dos quatro afirmado que eles pensam todos os dias nisso e que não concordam com o que está acontecendo. 

c) Lideranças sem perspectivas 
Na realidade, Roberto Carlos surgiu porque, à semelhança da disponibilidade - de liderança existente entre os adultos, ocorre outra entre os jovens. Há um desacerto, uma insegurança e uma falta de perspectiva para a juventude brasileira, ainda sofrendo as restrições de má formação cultural e sujeita aos choques familiares, pois os adultos insistem em manter padrões superados de comportamento, diante de uma nova realidade social. 
Escasseiam os líderes juvenis capazes, porque só se é líder quando se tem segurança. Apesar de sua ingenuidade diante da existência e de sua irresponsabilidade, Roberto Carlos está seguro nos padrões familiares que lhe foram legados. Os demais jovens, mesmo os intelectualizados, têm dúvidas e por isso não lideram. Outros são líderes apenas para grupos reduzidos, porque sua mensagem é muito elevada para ser entendida pela maioria. 
A conclusão de que Roberto Carlos encarna o espírito conservador e, por isso, exerce uma liderança aceita como benéfica pela sociedade constituída, chegou também o juiz da 12.a Vara Criminal de São Paulo, ao julgar o episódio em que o cantor teve de fazer alguns disparos para se livrar da ameaça de malfeitores. 
Citando inclusive alguns trechos de nossa reportagem «Juventude vive a rebelião romântica», publicada no jornal O Estado de São Paulo, e outros do jornalista Roberto Freire, foi o seguinte o despacho do meritíssimo juiz: 
«O moço, ao qual grande parte dos adolescente dedica intensa veneração, é fenômeno no momento, merecendo um estudo profundo dos entendidos. É claro que não é nos limites de uma sentença que se há de estudar sua personalidade. Psicanalistas e conhecedores das manifestações e relações sociais afirmam que este rapaz e todos os seus seguidores são jovens que adotaram a rebeldia do protesto. Eles têm nos «Beatles» um símbolo maravilhoso de rebelião contra a sociedade dos adultos. Esclarecem ainda que uma das causas dominantes do processo é o choque das gerações. Os mais velhos estão sempre em oposição ao que é novo, pois não querem abrir mão do que têm, sobre o que fundamentaram e justificaram toda a sua existência. Os antigos repelem tudo o que foge aos padrões tradicionais. 
Mas para ser o líder de uma parcela da mocidade, Roberto Carlos revelou-se possuidor de uma simpatia cativante. Para as moças o seu olhar triste, um ar de desamparado, mais o fato de ter sofrido um acidente e de parecer muito bom para seus colegas, provocam sempre uma atitude maternal. A música que interpreta pessoalmente assinala um espírito de revolta da juventude. Mas esta manifestação, pela sua falta de agressividade efetiva à sociedade estruturada, adquire feições típicas de uma rebelião romântica, consentida, permitida e até estimulada pelo mundo dos adultos. 
A influência que exerce sobre os que o seguem passa a ser benéfica. Pelo menos, até o presente momento, nota-se grande afabilidade de todos os que o cercam em torno de suas ações. Isto se poderá verificar facilmente. Em todas as manifestações de personalidades marcantes na vida social e política, a tônica é a da amizade e apreço pelo cantor. O Cardeal D. Agnelo Rossi o recebeu com muita cordialidade. A Câmara Municipal de São Paulo já lhe concedeu o título de Cidadão Paulistano. 
Sem dúvida, tais fatos revelam uma pessoa orientada para o bem. E, agora, a campanha que realiza em benefício dos pobres, conseguindo-lhes agasalho, alcança intensa repercussão pública.» 
Entretanto, apesar de todas as manifestações favoráveis ao jovem cantor parece que num ponto há concordância geral: sua liderança não apresenta quaisquer perspectivas para a mocidade. Talvez pelo fato de ele mesmo não se ter convencido da influência que poderia desempenhar entre uma juventude urbana que procura se encontrar. Ou ainda pela simples circunstância de não estar preparado para essa responsabilidade, pelo que seu movimento adquire feições apenas comerciais.

Comentários do Barbieri
Eu comprei este livro num sêbo perto da Praça da Sé em São Paulo lá pelo princípio de 1980. Este livro acabou vindo para Londres onde vivo e agora faz parte da minha bibliotéca. Paara colocá-l aqui neste site, com um scanner "escaneei" todas as páginas do livro, incluindo a capa e, depois usei um programa OCR (optical caracter recognizer) para checar todas as página usando um programa de inteligêcia artificial e assim transformar os "scans" num documento em Microsoft Word. Como o texto do livro foi encrito nos anos 60, com o Word fiz a correção do texto. O texto então foi reeditado para este web site. Todo cuidado foi tomado para evitar problemas horotgráfico e de compreenção de  texto. Se o caro leito encontrar algum problema ficarei feliz em ser comunicado para poder fazer a correção.
Direitos Autorais
Queremos deixar claro que não estamos tendo nenhum benifício financeiro com a publicação online deste texto. Nosso intuito é puramente educacional uma vez que este livro está esgotado. Se o autor ou a editora tiver alguma objeção quanto a publicação online deste material, peço-lhes que se comuniquem conosco imediatamente para que, com pesar, retiremos este documento do nosso site. 

8 de dez. de 2011

Paradigmas De Uma Economia Fraterna


Postagem Dag Vulpi 17/04/2011 11:06

PARADIGMAS DE UMA ECONOMIA  FRATERNA

por Hélcio de Castro Padrão, Thaïs Abi-Sâmara e Berenice von Rückert

Se aprofundarmos na principal razão ou razões da existência humana, acreditamos que o aprendizado ocupa posição de destaque.
Podemos dividir o aprendizado em três partes:
• Auto - conhecimento;
• Desenvolvimento do relacionamento social;
• Agir fraterno (contribuir para a sociedade / comunidade).
Ao analisamos o ideal trimembrado que surgiu na Revolução Francesa, liberdade, igualdade e fraternidade, tanto a liberdade no pensar quanto a igualdade nas relações haviam sido descritas na Carta dos Direitos do Homem  em 1789 (que posteriormente foi inserida na Constituição Francesa por Napoleão Bonaparte):
“Artigo l. Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As distinções sociais não podem ser fundamentadas senão sobre a utilidade comum”.
“Artigo 11. A livre comunicação dos pensamentos e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo pelo abuso dessa liberdade nos casos determinados pela lei”.
“Artigo 12. A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública; por conseguinte, esta força fica instituída para o benefício de todos, e não para a utilidade particular daqueles a quem ela for confiada”.
Embora fizesse parte do ideal francês, a palavra “fraternidade” não aparece nesta Carta e sequer fora relacionada com o “querer” ou com a vida econômica. Por quê?
Bem, o homem precisou desenvolver o seu eu, tomar consciência de seus direitos para
poder reivindicá-los, e lutar contra as formas de opressão.
Mas a fraternidade não é um direito. É um dever. Por isso não poderia estar presente em uma carta de direitos. Outro motivo é que a Revolução Francesa fora encabeçada pela burguesia mercantilista, que queria a liberdade na economia uma vez que sofriam com a excessiva intervenção do Estado neste setor.
Atualmente vivemos o momento de uma nova tomada de consciência por parte da humanidade: a conscientização de que também temos deveres. E este processo é mais doloroso porque significa abrir mão de muitas coisas, compartilhar e, antes de tudo, requer aprendizado contínuo. Em contrapartida é um caminho que traz muitas realizações.
E é este aspecto que gostaríamos de enfatizar, o da Fraternidade no Querer ou da Economia Fraterna.
Embora o aprendizado tenha relevante importância na vida humana e que o trabalho seja a melhor forma de contribuir para a comunidade, o que motiva este trabalho ainda é o auto-sustento, a realização pessoal e a satisfação dos desejos individuais. Uma pessoa que trabalha com este impulso não contribui com o quanto é capaz, mas com o quanto ele quer ganhar.
Como disse R. Steiner:
“É que ser auto-sustentador significa trabalhar para o ganha pão; já trabalhar para os outros significa trabalhar a partir das necessidades sociais”.
Mudar de um sistema centrado no individualismo (ego centrista) e ir em direção a um sistema voltado para o social significa uma mudança radical em nossos conceitos. O jargão “temos que atender às necessidades de nossos clientes”, embora maciçamente utilizado pelas organizações, ainda não foi amplamente entendido e sequer utilizado de forma pura. O que ainda motiva as ações da maioria das organizações e das pessoas é o lucro e não atender as reais necessidades dos clientes. O que não entendemos é que, a longo prazo, atender realmente às necessidades dos clientes e ter lucro estão intimamente ligados.
O lucro e o acúmulo de capital permitem o desenvolvimento humano, pois possibilitam o investimento em estudos e pesquisas. O problema é quando o homem se apropria deste capital, se sente dono dele. O capital surge na atuação do Espírito do homem no trabalho. E esta atuação resulta no surgimento de novos produtos e do aumento de produtividade, enriquecendo a comunidade. E é da comunidade o resultado deste trabalho. Ao homem, cabe sua remuneração, de forma que atenda suas necessidades. Quando ele se apropria deste capital e o acumula, pura e  simplesmente, ele o estanca, fazendo o efeito inverso, não permitindo o desenvolvimento da sociedade, uma vez que este não movimenta a economia, e não facilita a atuação de outras pessoas com capacidade empreendedora no sistema.
E esta mudança não virá de forma imposta, pois cabe ao empreendedor o destino da aplicação do capital excedente. Temos sim que nos conscientizar todos das conseqüências reais de nossos atos, para que possamos agir de forma mais construtiva.
E o primeiro passo nesta direção, voltando ao início deste texto, significa justamente:
• Auto - conhecimento;
• Desenvolvimento no relacionamento social;
• Atuação fraterna.
Este é um dos paradigmas da economia desta nova era. Precisamos investir no desenvolvimento humano como um todo. E esta necessidade já se faz sentir em todas as organizações.
Quando conseguirmos quebrar este sistema individualista e caminharmos para um sistema cooperativo, a humanidade terá dado um importante passo para seu desenvolvimento. E construiremos uma sociedade mais justa, menos desigual, onde todos tenham as mesmas oportunidades e onde as diferenças sejam respeitadas, transformando a Terra em um lugar melhor para todos vivermos. E se observarmos bem ‘a nossa volta, poderemos perceber que esta mudança já está começando.

O CÂMBIO E OS JUROS
Vivenciamos uma economia globalizada.
O comércio entre os povos existe há milênios. E não será diferente. E nem poderia ser, pois vivemos em um planeta onde todos os seres humanos estão interligados, formando uma comunidade global. A maioria dos países não é auto-suficiente e depende deste comércio para sobreviver.
Como disse R.Steiner no livro Economia Viva:
“Os diferentes Estados podem ser comparados às células de um organismo e, somente toda a Terra, como corpo econômico, pode ser comparada a um organismo....A Terra toda, tomada como um organismo econômico, é um organismo social.”
Dentro desta estrutura global, um fato econômico se torna perverso: as diferenças cambiais entre as moedas dos diversos países.
O câmbio, da forma como é praticada hoje é completamente absurda. Um verdadeiro jogo especulativo, sem nenhuma regra lógica, completamente incoerente, onde o que vale, na verdade, é o ganho fácil e o que é pior: sem produzir nada. Uma pessoa que vive da especulação nada produz, mas se alimenta, se veste, se diverte, ou seja, consome como qualquer outro. Todos têm direito a este consumo. Mas aqueles que consomem, sem nada produzir em troca, são fardos para a sociedade, pois outros terão que trabalhar para mantê-los.
Para se ter noção da falta de coerência e da perversidade que hoje significa o sistema cambial, basta observar os fatos presentes:
Se os Estados Unidos entrarem em guerra contra o Iraque, por que o Real se desvaloriza em relação ao dólar? Não é estranho? Não deveria a moeda norte americana se desvalorizar, já que são eles que estão gastando bilhões de dólares nesta batalha? Ou seja, tudo que acontece no cenário mundial desvaloriza nossa moeda. Que lógica há nisto tudo? A única lógica é que alguém ganha e alguém perde com toda esta especulação. E com certeza não é o setor produtivo, que se vê como um barco à deriva, em meio a toda esta tormenta. Para uma economia realmente globalizada, assim como fez a União Européia, teremos que caminhar gradativamente para uma moeda única e mundial. Sabemos que não será fácil, pois requer significativas melhorias nas condições econômicas dos países menos desenvolvidos. Mas este será um caminho necessário.
Outro problema que estrangula a economia é o juro. Nosso governo insiste na fórmula de aumentar o juro para conter a inflação. Embora tenha efeitos no curto prazo, uma vez que retém uma parte do capital especulativo mundial, no longo prazo os efeitos são arrasadores.
O que acontece quando o país aumenta sua taxa de juro?
A dívida do governo aumenta de forma geométrica, que por sua vez necessita aumentar seus impostos, que hoje, no Brasil, já chega a 34% do PIB. Com isso o setor produtivo enfraquece, uma vez que o dinheiro em circulação diminui (está sendo sugado para o governo pagar suas dívidas) e o custo do dinheiro para investimentos fica cada vez mais caro. Por sua vez, os novos  empreendedores se vêem em dificuldades para criar novas organizações. Sem esta atuação do Espírito humano no trabalho, forma-se menos capital. Sem capital a população empobrece. E sem surgimento de novas empresas e sem novos investimentos no setor produtivo o desemprego aumenta. E este é um círculo vicioso que corrói e destrói a base econômica do nosso país. O governo alega que necessita conservar o juro alto para manter o capital especulativo estrangeiro no país. Mas um dia ele terá que deixar-nos uma vez que este só visa lucro fácil. Ou o governo favorece o setor produtivo ou favorece o especulativo. E se o governo não favorecer a produção, sua maior
base de arrecadação, ele também morre.
Outra alegação do aumento do juro foi defendida pelo Banco Central baseando-se no aumento da inflação. E que esta inflação estaria elevada pelo aumento de circulação de dinheiro na economia. Este dado não condiz com o relatório do próprio Banco Central, que em 2002 constatou a diminuição das remunerações dos brasileiros. Se a renda diminuiu, como o dinheiro em circulação poderia ter aumentado? Em nossa opinião a inflação atual tem base em três pilares principais:
• o jogo especulativo do câmbio que desvalorizou sobremaneira a nossa moeda;
• os aumentos constantes das tarifas públicas, bem acima da inflação e os aumentos programados pelos setores regulados pelo governo, como energia e telecomunicações;
• o aumento dos impostos.
No fundo não sabemos se a dívida brasileira é ou não pagável. Mas não é difícil entender o quanto estamos sendo sacrificados para saldar seus juros. E também não é difícil prever que, se hoje seja possível quitá-la, com estas taxas de juros exorbitantes, em pouco tempo não mais será.
Não será fácil para o país agir para não mais atrair este capital especulativo que aqui hoje reside. Será um remédio amargo e com certeza aprofundaremos em uma crise. Mas se não tomarmos as providências necessárias em tempo hábil, certamente experimentaremos algo muito pior.
Como citou R.Steiner, aumentar os juros para conter a alta dos preços é o mesmo que estar sentindo frio e aumentar a coluna de mercúrio de um termômetro.

Hélcio de Castro Padrão, Thaïs Abi-Sâmara e Berenice von Rückert, são membros da Associação de Pedagogia Social e consultores da Éthica Consultoria e Treinamento



Cientistas fazem vídeo da atividade cerebral durante orgasmo feminino

Estudo mostra sinapse em regiões díspares do cérebro, até uma união dessa atividade crescente antes de recuar suavemente.

Um estudo realizado pela Universidade Rutgers, de Newark, New Jersey, detectou o fluxo sanguíneo no cérebro de uma mulher quando atinge o orgasmo e a influência dessa sensação na redução da percepção da dor.
O professor Barry Komisaruk, um dos responsáveis pela pesquisa, usou imagens da atividade cerebral para criar o primeiro filme do mundo mostrando o orgasmo feminino e o momento imediatamente posterior ao clímax. A animação mostra o acúmulo constante de atividade dos neurônios em regiões díspares, que depois se reúnem em uma atividade crescente antes de recuarem suavemente.
Para realizar o vídeo, os pesquisadores monitoraram o cérebro de uma mulher enquanto ela se auto-estimulava deitada em uma ressonância magnética.
A pesquisa vai ajudar os cientistas a entender como o cérebro realiza o conjunto de atividades que leva uma mulher ao clímax sexual e, com isso, descobrir como alguns homens e mulheres não conseguem atingir o orgasmo.
O filme de cinco minutos mostra mudanças de atividade em 80 regiões distintas do cérebro. A animação utiliza uma escala de cores que começa no vermelho escuro, variando pelo laranja e amarelo até chegar ao branco, que indica os mais altos níveis de atividade.
“O objetivo geral desta pesquisa é entender como o orgasmo se acumula a partir de estimulação genital e quais partes do cérebro ficam ativas até, finalmente, constituir um orgasmo”, disse Komisaruk, que apresentou o trabalho na reunião anual da Society for Neuroscience, em Washington, na segunda-feira (14). O trabalho ainda será publicado em um jornal científico.
“É um bom estudo para entender a conectividade do cérebro”, finalizou Komisaruk.
Clique aqui para assistir ao vídeo

Dez Vinhos para iniciantes

Lista de dez Vinhos selecionados para iniciantes, para que você possa escolher de forma rápida o melhor Vinho para seu almoço ou jantar. São vinhos Argentinos, Chilenos, Espanhóis e Brasileiros que são adequados a quem está criando o hábito de tomar Vinho. Ou seja, para um iniciante, são os melhores Vinhos a serem comprados.
Um dos problemas mais comuns com alguém que começa a tomar Vinho é a escolha do Vinho a ser tomado. Parece um problema sem sentido se você pensar em qualquer outra bebida. Diga isso a um amante da cerveja e ele fará cara de que não sabe do que você está falando.
O que ocorre com o Vinho, e não ocorre com nenhuma outra bebida, é que a variedade de rótulos é tão grande que você demora certo tempo para entender o que se refere à marca, a região ou ao produtor. Mesmo que você entenda, ainda resta o problema de que a variedade não está só nos rótulos, mas sim no sabor do Vinho, ou melhor, em toda a experiência olfativa e gustativa, que você vai ter, ao tomar um gole.
Assim se um amigo lhe recomenda um Vinho, há uma razoável chance de que você não goste. O Vinho bom para seu amigo pode não lhe agradar, e esse é um dos lados interessantes desta bebida. Você tem que conhecer os melhores Vinhos para você, é uma questão pessoal.
Não tome esta lista como um padrão de qualidade ou algo definitivo. Também não há nada de comercial nela, não ha nenhuma relação comercial com produtores ou importadores. Tome esta lista como sugestão para você que é um iniciante ou tem contato pouco freqüente com o Vinho.
Os nomes estão separados por “\” e se encontram na ordem provável que você verá no rótulo olhando de cima para baixo (ordem normal da leitura). A Lista não está em ordem, e, portanto não representa uma seqüência a ser tomada. Bem vamos à lista: 
01 - Trivento \ Shiraz-Malbec (Tinto) 
02 - Santa Helena \Carmenré (Tinto) 
03 - Terrazas de los Andes \ Malbec (Tinto) 
 04 - Torres Coronas \ Tempranillo (Tinto) 
 05 - Miolo Reserva \ Cabernet Sauvignon (Tinto) 
06 - High Altitude \ Malbec-Cabernet (Tinto) 
07 - Casa Valduga \ Chardonnay (Branco) 
08 - Sunrise \ Chardonnay (Branco) 
 09 - Trivento \ Chardonnay-Chenin (Branco) 
10 - Carmen \ Cardonnay (Branco)
Lógico que, como toda a lista, há mais Vinhos fora do que dentro dela, assim não significa que não possamos incluir outros Vinhos que são apropriados para um iniciante, apenas se fossemos tentar ser justos a lista teria mais de 100 Vinhos.

18 de out. de 2011

Desmistificando Maquiavel


Desmistificando Maquiavel
Ensaio acerca de sua história, obras e conceitos


Angela Birardi
Gláucia Rodrigues Castelani

"Minha opinião é de que é melhorser ousado que prudente".

INTRODUÇÃO


Nosso objetivo, neste pequeno ensaio, é apresentar ao leitor a vida e obra de um dos maiores pensadores da Época Moderna, inovador em seu entendimento da Política e que até hoje influencia gerações de pensadores de diversas áreas de conhecimento. Tentaremos, a partir de sua análise da mais importante e conhecida obra - O Príncipe - do secretário florentino Nicolau Maquiavel, entender e esclarecer as polêmicas teorias do pensamento "maquiavélico". Para tanto, nosso intuito no presente texto será fazer uma análise sem lançar mão de conceitos pré-concebidos (como a idéia geral da imoralidade política que se tem sobre sua obra).

Parque Michelangelo - Florença
Esperamos que o leitor possa desfrutar desse trabalho que aqui introduzimos e que, a partir dele, tenha interesse em conhecer a obra desse pensador - considerado "o fundador da Ciência Política Moderna".
 
FLORENÇA NA ÉPOCA DE NICOLAU MAQUIAVEL
 
 


Nicolau Maquiavel
"O homem prudente deve seguir
sempre as vias traçadas pelos
grandes personagens…".
  A obra que será aqui analisada é um dos livros mais conhecidos e estudados de todos os tempos. E não apenas isso: as análises que constam nele revolucionaram toda a teoria política. A obra de que estamos falando é O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. Está obra contém ensinamentos políticos de como um príncipe deve governar e quais as estratégias que deve usar para manter o seu Estado.
Maquiavel concluiu O Príncipe entre a primavera e o outono de 1513, na cidade italiana de San Casciano. Tudo o que aprendera através da leitura dos homens ilustres do passado e a serviço da república florentina fundiu-se numa filosofia prática e simples, mas profunda. 
Quando ele pensa nos assuntos políticos, faz uma ligação entre autores antigos e as experiências do mundo moderno. Como resultado de tudo isso temos O Príncipe, que traz ensinamentos de como conquistar Estados e conservá-los sob domínio. Trata-se de um manual para governantes.
 


Henrique VIII
O Príncipe foi dedicado a Lourenço II (1492-1519), potentado da família dos Médicis e duque de Urbino, mas ele não teve tempo de aprender-lhe as lições, pois faleceu logo depois. Porém, outros souberam aproveitá-lo, como o caso do monarca inglês Henrique VIII e o de Catarina de Médicis, rainha-mãe da França, que teria seguido os ensinamentos de Maquiavel ao jogar católicos contra protestantes e ordenar o famoso massacre de 1572. Com isso manteve a soberania para os filhos, indolentes e incapazes de agir maquiavelicamente como a mãe. 

Catarina de Médicis
Ela era filha de Lourenço, ao qual tinha sido dedicada a obra que certamente leu interessada.
"Essas e outras histórias de ardis, assassinatos e espoliações de governantes têm sido atribuídas à inspiração de O Príncipe, e chegam a ter algum valor para compreender-lhe o significado. Mas, freqüentemente, servem a penas para deformar-lhes o conteúdo mais profundo e a relevância dentro da história das idéias. Conteúdo e relevância que só podem ser apreendidos quando se conhecem as circunstâncias em que a obra veio à luz, dentro do quadro da vida pessoal do autor e das coordenadas econômicas, sociais e políticas da Europa dos séculos XV e XVI. A essa condições vincula-se a situação especial da Itália, pátria de Maquiavel." (MAQUIAVEL. 1996)
 

Na Itália do Renascimento reinava grande confusão. A tirania imperava em pequenos principados, governados despoticamente por casas reinantes sem tradição dinástica ou de direitos contestáveis. A ilegitimidade do poder gera situações de crise e instabilidade permanente, onde somente o cálculo político, a astúcia e a ação rápida e fulminante contra os adversários são capazes de manter o príncipe. Esmagar ou reduzir à impotência a posição interna, atemorizar os súditos para evitar a subversão e realizar alianças com outros principados constituem o eixo da administração. Como o poder se funda exclusivamente em atos de força, é previsível e natural que pela força seja deslocado deste para aquele senhor. Nem a religião, a tradição ou a vontade popular legitimam o soberano, e assim ele tem de contar exclusivamente com sua energia criadora. A ausência de um Estado central e a extrema multipolarização do poder criam um vazio, que as mais fortes individualidades têm capacidade de ocupar.

A Itália fragmentada no Renascimento
"Os condottiere são hábeis nisso. Especialistas na técnica militar, aventureiros e filhos da fortuna, vendem serviço de segurança e conquista ao príncipe que melhor pague. Os pequenos Estados não têm recursos para financiar tropas regulares e não é politicamente possível a criação de exército, pois isso implicava entrega das armas ao povo, fato perigoso para governantes de populações descontentes. Os condottiere adquirem importância crescente e alguns conquistam principados para si e estabelecem alianças com reis, cardeais e papas.
Esse panorama fluido e mutável, de um país dividido em múltiplos Estados, contrasta com a situação da maior parte da Europa ocidental, em que alguns governos enfeixam todo o poder. A Itália sofre as conseqüências de um permanente intervencionismo. Os principados italianos apelam freqüentemente para as monarquias absolutas européias, a fim de solucionar as disputas internas; com isso a Itália torna-se vítima impotente. Alguns pequenos Estados sofrem a soberania do Império Germânico, e França e Espanha disputam a posse de vários de seus territórios." (MAQUIAVEL. 1996)
 

É estranho que tudo isso acontecesse num país cuja economia tinha conhecido muito antes as formas responsáveis pelo poderio espanhol, francês e inglês. Na verdade, o capitalismo comercial já tinha quase dois séculos na Itália quando surgiu nos demais países e fundamentou as monarquias absolutistas. Mas seu desenvolvimento na península foi diferente e a congelação do capitalismo italiano parece ter resultado do próprio êxito econômico, expressado sob a forma de uma expansão bem sucedida do capital mercantil e financeiro. A nascente economia comercial italiana, a partir do século XI, articulava-se com o mundo feudal circulante, estreitando vínculos de dependência recíproca.

Duomo de Florença
A clientela era constituída pela Igreja, Estados feudais, grandes senhores de terras, cortes aristocráticas e camadas superiores da burguesia, assim como pelas coroas representativas dos interesses dos novos Estados nacionais europeus. As necessidades de consumos desses setores especializaram a economia na produção de tecidos caros, no comércio de especiarias do Oriente e nos negócios bancários com os potentados dos demais países. Essa solidariedade entre a economia italiana e as condições e contradições características da Europa medieval acarretará sua ruína, quando ocorrer a decadência da ordem feudal. Por outro lado, a relativa facilidade com que os senhores feudais são afastados do poder nos núcleos burgueses mais fortes elimina a necessidade de unificação nacional como tarefa socialmente necessária. A burguesia dispensa o monarca como peça essencial para submeter os senhores feudais, como ocorreu no caso clássico da França. Ela mesma se concebe como aristocracia reinante, mas a organização estatal resultante sofre de uma debilidade insanável, mostrando-se totalmente incapaz de fazer frente aos gigantescos aparelhos de Estado, em vias de aparecimento.
A produção manufatureira, instalada nos territórios dos antigos clientes italianos, procura ampliar mercados, abaixando os preços dos produtos e estabelecendo medidas de rígida política protecionista. Apesar disso, a decadência acentua-se, especialmente depois da queda de Constantinopla para os turcos, em 1453, e da descoberta do caminho marítimo para as Índias em 1494, acontecimento que deu primazia aos portugueses e espanhóis no comércio com o Oriente.
A fraqueza militar e política da península, já no começo do século XIV, representa forte impedimento para expansão e acumulação de capital. Periodicamente, organizam-se progrons antilombardos e as cidades italianas não têm como se garantir das declarações de falência dos reis europeus. A Itália é, assim, desarmada política, militar e institucionalmente pelo anacronismo da organização das cidades-Estado e pela ausência de liderança central incontrastável. A essas razões acrescenta-se a política temporal do papado que, não sendo suficientemente forte para reduzir todos os Estados ao seu domínio, não é também tão fraca a ponto de impedir a unificação, através da figura de um príncipe secular.
No século XV são evidentes os sintomas da decadência. Florença envia seu último navio para a Inglaterra em 1480. Lourenço, o Magnífico (1449-1492), e Júlio de Médicis (1453-1478) instalam manufaturas de lanifício no arquipélago britânico e 33 barcos florentinos transferem suas sedes para Lyon, na França.
É nesse panorama de crise econômica que nasce Nicolau Maquiavel, no dia 3 de maio de 1469, filho de Bernardo, advogado pertencente aos ramos mais pobres da aristocracia toscana. Do fim da sua adolescência em diante sua biografia confunde-se com a história de Florença e da Itália, da qual não pode ser desligada sob pena de não ser possível compreender-lhe o significado.
Em 1594 quando os Médicis são expulsos de Florença e instala-se o severo regime republicano do monge Savonarola, Maquiavel inicia-se na vida pública trabalhando na chancelaria em cargos de pouca importância. Quatro anos depois, a oposição interna, sustentada pelo papa Alexandre VI, depõe, enforca e queima Savonarola, e Maquiavel é indicado para o posto de Segundo Chanceler da República.
Como funcionário permanente, é mero executor das decisões dos ottimati, em nome dos quais administra os negócios e relações externas da república. É comissionado no conselho dos dez da guerra e enfrenta os problemas decorrentes da decadência do império florentino em relação às cidades vizinhas, apoiadas por potências estrangeiras. Especialmente importante é a longa guerra contra Pisa, bastião comercial e principal escoadouro dos produtos de Florença. O episódio mais marcante do conflito é o da participação do condottiere Paolo Vitelli, comandante das tropas florentinas. Depois de algumas vitórias significativas, Vitelli detém-se às portas da cidade inimiga. Alega razões de conveniência militar e nega todas as acusações de ter-se vendido aos pisanos, mas, apesar dos protestos de inocência, é executado.
"A ‘questão Vitelli’ suscita pela primeira vez um dos temas permanentes da obra de Maquiavel: a necessidade de organização de uma milícia nacional, formada por soldados locais disciplinados. A soberania política - pensa ele - depende de exército próprio, constituído por soldados leais a convencidos de que lutam pela causa da pátria." (MAQUIAVEL. 1996)
Em setembro do mesmo ano do ataque frustado a Pisa celebra-se finalmente a paz entre Florença e França, que até então apoiava Pisa, mas agora necessitava de mãos livres para dominar o reino de Nápoles. Ao mesmo tempo, a intrincada política italiana da Renascença faz com que os franceses se aliem também ao papado, pondo em cheque os interesses florentinos em Rimini, Pesaro, Urbino, Faenza e Imola. Apesar disso, em 1499, as tropas franco-florentinas atacam e sitiam Pisa, mas não conseguem a vitória. O soberano francês, Luís XIII, atribui o fracasso à estreiteza da burguesia de Florença, incapaz de cuidar devidamente do aprovisionamento das forças, e Maquiavel é enviado à corte do monarca, como assessor de Francesco della Casa. Com os franceses aprende como era insignificante o peso de um Estado pequeno como Florença nas relações internacionais e, principalmente, que se deve confiar pouco em aliados demasiadamente poderosos.
 


Cesare de Bórgia
Outras embaixadas seriam feitas pelo secretário florentino, junto a Cesare Bórgia (1475-1507) e ao papa Júlio II, e com ambos aprenderia também lições fundamenteis sobre a ciência e a técnica da política: Cesare Bórgia, filho do papa Alexandre VI e poderoso condottiere, invade Faenza em 1501 e avança sobre Florença, exigindo o retorno dos Médicis e um contrato como defensor da cidade. O território florentino do Val de Chiana se subleva e facilita a entrada do invasor. Enquanto isso, os aliados franceses hesitam em socorrer Florença e a república ameaçada envia Maquiavel, juntamente com Francesco Soderini, bispo de Volterra, para parlamentar e ganhar tempo de invasor. Finalmente as tropas francesas decidem intervir e as forças do condottiere abandonam os territórios ocupados.
"O episódio tem grande importância para Maquiavel, porque foi o primeiro encontro com aquele que viria a ser o modelo de O Príncipe e por fazer germinar uma parte de sua produção teórica posterior. Encarregado de fazer um relatório sobre como tratar os revoltos do Val de Chiana, Maquiavel afirma ser a história a mestra dos atos humanos, especialmente dos governantes, e que o mundo sempre foi habitado por homens com as mesmas paixões, sempre existindo governantes e governados, bons e maus súditos. Aqueles que se rebelam devem, portanto, ser punidos." (MAQUIAVEL. 1996)
 


Casa de Maquiavel em San Casciano
"A despeito da criação das milícias e de todo o empenho de seu chanceler, a carreira política de Maquiavel estava para sofrer sério abalo. Enquanto Florença alia-se aos franceses, o papado inclina-se pela Espanha e a oposição de interesses tem como resultado a derrocada dos governantes da cidade. Um pequeno exército cerca Florença e, ao mesmo tempo, eclode um levante interno pelo retorno dos Médicis. O golfanoleiro Piero Soderini é destituído do poder e Maquiavel não tem mais lugar na nova ordem das coisas. É preso, torturado, acusado de sedição e confinado em sua propriedade particular em San Casciano." (MAQUIAVEL. 1996) Em San Casciano, Maquiavel procura reconquistar os favores da família que reassumira o poder; escreve O Príncipe e o dedica a Lourenço de Médicis. Não atinge o intento na extensão desejada, mas de qualquer forma consegue voltar para Florença.
Em 1527, o saque de Roma pelas forças do imperador Carlos V, do Sacro Império, liberta Florença do jugo dos Médicis. O acontecimento é saudado por Maquiavel, que via nele a possibilidade de voltar ao comando da chancelaria. Mas os novos poderosos da república esqueceram-se do amor que ele sempre teve pela cidade e por sua liberdade. Foi o último de seus desapontamentos. Falece no dia 21 de junho de 1527.
 
ANÁLISE GERAL DA OBRA - O PRÌNCÍPE
 
 

"Toda ação é designada em termos
do fim que se procura atingir".
  O Príncipe é dirigido a um príncipe que esteja governando um Estado e o aconselha sobre como manter seu governo da forma mais eficiente possível. Essa eficiência é a ciência política de Maquiavel.
Ele começa descrevendo os diferentes tipos de Estado e como cada tipo afeta a forma de governo do príncipe. Também ensina como um príncipe pode conquistar um Estado e manter o domínio sobre ele. Por exemplo, no caso dos principados hereditários, por já estarem afeiçoados à família do príncipe, é mais fácil de mantê-los: é só continuar agindo de acordo com seus antecessores. E mesmo que o príncipe não seja bom e acabe perdendo o Estado, ele o readquire por pior que seja o ocupante.
Entretanto, o difícil é manter os principados novos que na verdade não são novos, e sim mistos por terem sido incorporados a um Estado hereditário. Diz que "as sua variações nascem principalmente de uma dificuldade comum a todos os principados novos, a saber, que os homens mudam de boa vontade de senhor, supondo melhorar, e estas crenças os fazem tomar armas contra o senhor atual. De fato, enganam-se e vêem por experiência própria haverem piorado. Isso depende de outra necessidade natural e ordinária que faz com que um novo príncipe careça ofender os novos súditos com a sua tropa e por meio de infindas injúrias, que acarreta uma recente conquista." (MAQUIAVEL. 1996) Portanto, são inimigos do príncipe todas as pessoas que se sentiram ofendidas com a ocupação do principado. Também não se pode ter como amigo aqueles que o colocaram ali, pois estes não podem ser satisfeitos como pensavam. Porém é necessário ter cuidados e não usar contra eles "remédios fortes", pois o príncipe depende deles, e mesmo que tenha um exército forte é necessário a ajuda dos habitantes para entrar numa província.
É interessante notar que Maquiavel apresenta os problemas e as dificuldades, e isso tudo é demonstrado de uma forma que perece não haver solução. Porém, logo em seguida ele apresenta não só a solução para os problemas como também conselhos, os quais o governante deve seguir se quiser ser bem sucedido. Seguindo o mesmo raciocínio, se um príncipe anexa um Estado a outro mais antigo, e sendo este da mesma província e da mesma língua, ele será facilmente conquistado. Porém, para mantê-lo deve-se extinguir o sangue do antigo governante e não alterar as leis nem os impostos. Agindo dessa forma, em pouco tempo está feita a união ao antigo Estado.
No entanto, surgem dificuldades quando se conquista uma província de costumes, língua e leis diferentes. Nesse caso é preciso que o príncipe tenha habilidade e sorte. O melhor é ir o príncipe habitá-la, pois assim poderá perceber os problemas e tentar solucioná-los mais rapidamente. E estando o príncipe mais perto, os súditos ficam satisfeitos, os ataques externos serão mais raros e é muito mais difícil o príncipe perder a província, mas ele não fizer nada disso ele só terá notícias delas quando esta já estiver perdida.
"Outro remédio eficaz é organizar colônias, em um ou dois lugares, as quais serão uma espécie de grilhões postos à província, pois é necessário fazer isso, ou ter lá muita força armada. Com as colônias não se gasta muito, e sem grandes despesas podem ser feitas e mantidas. Os únicos prejudicados com elas serão aqueles a quem se tomam os campos e as casas, para dá-los aos novos habitantes. Mas os prejudicados sendo minoria na população do Estado, e dispersos e reduzidos à pobreza, não poderão causar dano ao príncipe, e os outros que não foram prejudicados deverão por isso aquietar-se, por medo de que lhes aconteça o mesmo. Enfim, acho que essas colônias não custam muito e são fiéis; ofendem menos, e também os ofendidos não podem ser nocivos ao príncipe, como se explicou acima. Deve-se notar que os homens devem ser mimados ou exterminados, pois se se vingam de ofensas leves, das graves já não podem fazê-lo. Assim, a injúria que se faz de ser tal, que não se tema a vingança.
Mas conservando, em vez de colônias, força armada, gasta-se muito mais, e tem de ser despendida nela toda a receita da província. A conquista torna-se, pois, perda, e ofende muito mais, porque prejudica todo o Estado com as mudanças de alojamento das tropas. Estes incômodos todos os sentem, e todos por fim se tornam inimigos que podem fazer mal, ainda batido na própria casa, por estas razões, pois, é inútil conservar força armada, ao contrário de manter colônias.
Também numa província diferente por línguas, costumes e leis, faça-se o príncipe de chefe e defensor dos mais fracos, e trate de enfraquecer os poderosos da própria província, além de guarda-se de que entre por a caso um estrangeiro tão poderoso quanto ele." (MAQUIAVEL. 1996)
A passagem do livro citada acima é uma das mais interessantes, engraçadas e que ao mesmo tempo não deixa de ser contemporânea. Como se pode notar, o autor pensou nos mínimos detalhes para que o príncipe seja bem sucedido na sua conquista. E o mais interessante é que nesses parágrafos pode-se perceber que, de acordo com os seus ensinamentos, os fins justificam os meios, muito embora isso não esteja escrito dessa forma. Entretanto, quando Maquiavel afirma que quando se utiliza as colônias os únicos prejudicados serão aqueles que perderem suas terras, mas estes sendo minoria não poderão prejudicar o príncipe, ou seja, o meio utilizado para se fazer as colônias pode até não ser o mais correto, mas se o fim for bom, o meio foi justificado. Um outro ponto interessante é quando o autor diz que o príncipe deve se fazer defensor dos mais fracos. O que na verdade ocorre hoje em dia, pois muitos políticos se utilizam dessa tática para conquistar a confiança do povo e conseguir mais votos.
No caso de Estados que antes de serem conquistados estavam habituados a reger-se por leis próprias e em liberdade, existem três formas, segundo Maquiavel, de manter sua posse: arruiná-los, ir habitá-los ou deixá-los viver com suas leis, arrecadando um tributo e criar um governo de poucos. No entanto, Maquiavel chega a ser até engraçado ao dizer que "em verdade não há garantia de posse mais segura do que a ruína". Segundo ele, o príncipe que se torna senhor de um Estado tradicionalmente livre e não o destrói será destruído.
 

Um outro detalhe muito importante que pode ser percebido no decorrer de toda obra são os exemplos históricos. Maquiavel fundamenta toda a sua teoria na história dos grandes homens e dos grandes feitos do passado. Segundo ele, "…os homens trilham quase sempre estradas já percorridas. Um homem prudente deve assim escolher os caminhos já percorridos pelos grandes homens e imitá-los; assim, mesmo que não seja possível seguir fielmente esse caminho, nem pela imitação alcançar totalmente as virtudes dos grandes, sempre se aproveita muita coisa". (MAQUIAVEL. 1996) O mais interessante é que, através desses exemplos, ele comprova tudo o que está sendo dito e convence o leitor com os seus argumentos que são muito pertinentes e se encaixam perfeitamente no que ele está querendo dizer.

Ponte sobre o Rio Arno, em Florença
Outro aspecto marcante de sua obra é quando são tratados os meios de se tornar príncipe, que podem ser dois: pelo valor ou pela fortuna. Entretanto ele adverte que aqueles que se tornaram príncipes pela fortuna tem muita dificuldade para se manter no poder. Porém, a fortuna e o valor não são as únicas formas de se tornar príncipe. Existem outras duas: pela maldade e por mercê do favor de seus conterrâneos, mas Maquiavel diz que os príncipes que realizaram matanças e não tem nem piedade nem religião, podem até conquistar o mando, mas não a glória.
Analisaremos agora a parte da obra relacionada aos gêneros de milícia. De acordo com Maquiavel, é necessário a um príncipe estabelecer sólidos fundamentos; sem isso, segundo ele, é certa a sua ruína. As principais bases que os Estados têm são boas leis e boas armas. E as forças com que um príncipe mantém o seu Estado são próprias ou mercenárias, auxiliares ou mistas. As mercenárias e auxiliares são úteis e perigosas. Se algum príncipe tiver o seu Estado apoiado em tal classe de forças, não estará nunca seguro, porque essas tropas são ambiciosas, indisciplinadas, infiéis, são insolentes para com os amigos e covardes perante os inimigos. Isso porque o que as mantém em campo não é o amor, mas sim um pequeno pagamento. Segundo Maquiavel, um dos problemas da Itália é ter sido governada muitos anos com armas mercenárias.
Com relação às tropas auxiliares, de acordo com o autor, não são mais do que tropas inúteis e quem valha-se dessas tropas quem não quiser vencer, pois elas são mais perigosas do que as mercenárias. Para Maquiavel, os príncipes prudentes sempre repeliram tais forças, para valer-se das suas próprias, preferindo antes perder com estas a vencer com o auxilio das outras, considerando falsa a vitória com forças alheias. O príncipe não deve, pois ter outro objetivo nem outro pensamento a não ser a guerra por ser esta a única arte que se espera de quem comanda.
O príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel. Daí surge uma questão muito debatida: é melhor ser amado ou temido? A resposta de Maquiavel é que o melhor é ser as duas coisas, mas como é difícil reunir ao mesmo tempo essas duas qualidades, é muito melhor ser temido do que amado, quando se tenha que falhar numa das duas. "Os homens hesitam menos em ofender aos que se fazem amar do que aos que se fazem temer, porque o amor é mantido por um vínculo de obrigação, o qual, devido a serem os homens pérfidos é rompido sempre que lhes aprouver, ao passo que o temor que se infunde é alimentado pelo receio de castigo, que é um sentimento que não se abandona nunca. Deve portanto o príncipe fazer-se temer de maneira que, se não se fizer amado, pelo menos evite o ódio". (MAQUIAVEL. 1996)
Maquiavel faleceu sem ter visto realizados os ideais pelos quais se bateu durante toda a vida. Também não viu concretizado, enquanto viveu, o ideal de uma Itália poderosa e unificada. Deixou, porém, um valioso legado: o conjunto de idéias elaborados em cinco ou seis anos de meditação forçada pelo exílio. O objeto de suas reflexões é a realidade política, pensada em termo de prática humana concreta, e o centro maior de seu interesse é o fenômeno do poder formalizado na instituição do Estado. Não se trata de estudar o tipo ideal de Estado, mas compreender como as organizações políticas se fundam, se desenvolvem, persistem e decaem.
Talvez nem ele mesmo soubesse avaliar a importância desses pensamentos dentro do panorama mais amplo da história, pois especulou sempre sobre os problemas mais imediatos que se apresentavam. Apesar disso, revolucionou a história das idéias políticas, constituindo um marco que a dividiu em duas fases distintas.
 
ANÁLISE DOS CONCEITOS
"Se ensinei aos príncipes de que
modo se estabelece a tirania, ao
mesmo tempo mostrarei ao povo os
meios para dela se defender".
"É necessário ser príncipe para
conhecer perfeitamente a natureza
do povo, e pertencer ao povo para
conhecer a natureza dos príncipes".


É nesse contexto de instabilidade política que o humanista Nicolau Maquiavel formula em 1513 os conceitos da obra – O Príncipe, o que lhe garantiu o título de fundador da Ciência Política Moderna, pois, sob as luzes renascentistas, tal obra representou um marco das Ciências Humanas. Ao delinear tais ensaios políticos, Maquiavel rompe com a tradição humanista baseada no abstrato, ou seja, em conceitos ideais de sociedade. Esse rompimento com o pensamento político anterior (escolástica) é caracterizado pela defesa do método empírico, isto é, o objetivo de suas reflexões é a realidade política, pensada em termos da prática humana concreta. O enfoque de suas análises é o estudo do poder formalizado na instituição do Estado.
 


Maquiavel escrevendo O Príncipe
em sua biblioteca particular
Contudo, esse exame empírico depende de uma filosofia da história baseada no princípio de que o fenômeno histórico não é linear, mas constituído por ciclos. Ou seja, Maquiavel acredita que a observação dos fatos passados é essencial para o estudo do presente. Baseando-se nesse princípio, Maquiavel retornará ao passado clássico greco-romano exemplificando os processos históricos. Tal concepção do acontecer histórico complementa-se com uma compreensão da psicologia humana. Nesse sentido, Maquiavel determina as causas da prosperidade e decadência dos Estados antigos, compondo assim, um modelo analítico para o estudo das sociedades contemporâneas, sem contudo desprezar as peculiaridades da circunstância sob a qual se pretende agir. Os elementos básicos definidores do método maquiavélico são: Utilitarismo – "Escrever coisa útil para quem, a entenda; Empirismo – "Procurar a verdade efetiva das coisas"; Antiutopismo – "Muitos imaginaram repúblicas e principados que jamais foram vistos"; Realismo – "Aquele que abandona aquilo que se faz por aquilo que se deveria fazer, conhece antes a ruína do que a própria preservação".  Em síntese, O Príncipe é um manual para governantes que visa a auxiliar um novo príncipe a manter o poder e o controle no seu Estado. Apresenta exemplos da espécie de situações e problemas que esse príncipe poderá enfrentar, e aconselha-o de modo circunstanciado quanto ao modo de solucioná-los. 
Há na obra um esboço de sugestão de que o novo príncipe terá chegado ao poder, devido a uma conjugação do destino com o próprio valor e de que, para conservar o controle, ele será obrigado a agir com grande sutileza – e mesmo com astúcia e crueldade. A genialidade de Maquiavel personificada n´O Príncipe, cuja obra foi promotora de uma ruptura com a tradição filosófica, reside na originalidade de seus ensinamentos. O desdobramento cíclico permanece, para Maquiavel, no quadro teórico básico, de interpretação da história enquanto ciência. Ao desdobramento cíclico junta-se um outro nível de determinações mais próximas e concretas, compreendidas sobre a denominação geral clássica – virtú e fortuna.
 

No capítulo inicial d´ O Príncipe, Maquiavel postula haver duas principais vias pelas quais se adquire um principado – pelo exercício da virtú ou pelo dom da fortuna. Segundo o autor, o carisma da virtú é próprio daquele que se conforma à natureza de seu tempo, apreende-lhe o sentido e se capacita a realizar praticamente a necessidade das circunstâncias, isto é, dos momentos propícios fornecidos pela fortuna. Algumas figuras maquiavélicas – Moisés, Ciro e Rômulo – "criaram grandes e duradouras instituições", devido à virtú. Já a decadência de Cesare Borgia foi decorrente da fortuna que o abandonou. Por intermédio de uma história comparada, Maquiavel conclui que "apenas por meio da virtú" um príncipe pode vencer "a instabilidade da fortuna" e assim " conservar seu estado". No penúltimo capítulo o autor comprova sua tese ao demonstrar que a decadência italiana era reflexo da ausência de virtú, capaz de domar os ímpetos da fortuna. 

Santa Maria Novella, Florença
Autores como Isaiah Berlin e Quenten Skinner, estudiosos do universo maquiavélico, constataram que o traço de maior originalidade de Maquiavel é a preocupação em romper e até mesmo denunciar a ingenuidade das teorias políticas de seus contemporâneos. Munido por um espírito empírico e realista, Maquiavel traçou as bases de uma nova concepção política referente ao conceito de virtú, o que fez d´ O Príncipe alvo de equivocadas interpretações.
A corrente filosófica tradicional sustenta a tese de que a virtú caracterizada por qualidades morais individuais, como a justiça, deve ser completada pelas qualidades ou virtudes cristãs como a piedade e a fé. Ou seja, para o príncipe alcançar seus objetivos, deve estar certo de seguir os ditames da moralidade cristã. Segundo Maquiavel, esses pensadores não conseguiram perceber a incompatibilidade de uma "moral cristã", que atenda ao indivíduo e uma "moral política" que atenda ao coletivo, no caso, ao Estado. Essa incompatibilidade reside na natureza humana, pois, segundo Maquiavel, os homens são ingratos, caprichosos e mentirosos. Conseqüentemente, a moral cristã baseada na misericórdia, caridade e sacrifício é praticável apenas no plano do imaginário utópico de uma sociedade cristã formada por atitudes humanas ideais. Maquiavel comprova tal tese no capítulo XV. (...)" Seria muito louvável que um príncipe possuísse todas as qualidades consideradas boas. Não sendo isto porém inteiramente possível, devido as próprias condições humanas, é necessário a um príncipe aprender a poder não ser bom". (MAQUIAVEL. 1999)
Um governo bem sucedido aos moldes das instituições romanas seria realizável se o príncipe adotasse uma postura realista frente à natureza do poder político, bem como a natureza humana. Desse modo, surge o conceito de virtú engendrada na concepção da moral política baseada na astúcia, força, estabilidade e vigor de seus governantes. Para Maquiavel, virtú é um conjunto de qualidades, sejam elas quais forem, cuja, aquisição o príncipe possa achar necessária a fim de "manter seu estado e realizar grandes feitos". Dominado por uma visão clássica, humanista e patriótica, Maquiavel acredita que "os fins justificam os meios", ou seja, para a libertação da Itália do domínio bárbaro, bem como da decadência, o príncipe de virtú será capaz de "não se afastar do bem, mas saber entrar no mal, se necessário".
Nesse contexto, ao discorrer sobre "O Principado Civil", Maquiavel descreve a relação entre o príncipe e o povo, fundamental para a consolidação do Estado, antecipando o conceito posteriormente conhecido como a "teoria de luta de classes". Segundo Maquiavel, o principado provém do povo ou dos grandes, segundo a oportunidade que tiver uma ou outra dessas partes. Cria-se, assim, a seguinte antítese: "Enquanto o povo não quer ser oprimido pelos grandes... os grandes desejam oprimir o povo". (MAQUIAVEL. 1999) Para Maquiavel, a energia criadora de uma sociedade advém do sistema de oposição entre os grandes e o povo e, assim, os conflitos sociais são necessários para a consolidação do Estado, cabendo ao príncipe de virtú possuir uma "astúcia afortunada" para tirar as melhores possibilidades de tal oposição. Contudo, o autor enfatiza que é necessário ao príncipe "ter o povo como amigo, caso contrário, não terá remédio na adversidade" (MAQUIAVEL. 1999), pois na ânsia de não ser oprimido o povo possui fins mais honestos do que os grandes.
Quando Maquiavel defende a tese de que o príncipe "deve evitar as coisas que o tornam odioso e desprezível" satisfazendo o povo e fazendo-o contente, "porque esta é uma das principais funções que cabem a um príncipe", pensadores iluministas, como Rousseau, acreditavam que o autor disfarçava o amor pela liberdade, simulando dar lições aos reis, quando na verdade as dava ao povo. Já as afirmações maquiavélicas que ensinavam os príncipes a mesclarem "o leão e a raposa" simulando e dissimulando atitudes, fizeram com que pensadores como Voltaire condenassem o que consideraram amoralismo em política. Qual era, portanto, a verdadeira intenção de Maquiavel?
Ao analisar o último capítulo da obra dirigida a Lorenzo de Medici, observa-se que ao estabelecer um paralelo entre o povo hebreu (escravo no Egito) e o povo italiano (escravo dos bárbaros), Maquiavel, por intermédio de sua obra, teve como principal objetivo ver a Itália livre da crueldade e insolência dos bárbaros. Para tanto, era necessária a disposição de um príncipe munido de fortuna e virtú para a realização de tão nobre feito, reunindo em sua pessoa boas ou más qualidades, conforme as exigências das circunstâncias. Não obstante, para atingir tal fim, os meios seriam buscados a qualquer custo.
É inegável a contribuição de Maquiavel à história das idéias, especialmente à Ciência Política. Maquiavel concebeu as obras humanas como algo concreto e definidor da natureza humana, ou seja, ele simplesmente fez da prática uma teoria. Em tal concepção está a genialidade maquiavélica perpetuada no Príncipe, pois ao longo de quatro séculos tal obra ainda atormenta a humanidade. O grande mérito do Príncipe foi desmascarar o pseudo-moralismo ocidental consolidado sobre os dogmas cristãos, o que faz da obra universal.
 
PENSANDO MAQUIAVEL
 


Piazza Santa Croce, Florença
"Os regimes não se mantém com
padre - nossos". "Quem quiser fazer profissão de
bondade não pode evitar sua ruína 
entre tantos que são maus "

  Nietzsche, A vontade de poder
"Também o papado nunca esteve em posição de seguir uma política cristã; e quando os reformadores se envolvem em política, como aconteceu com Lutero, vemos que simplesmente seguem Maquiavel com qualquer imoralista ou tirano." (STRATHERN. 2000)
Bertrand Russel, História da Filosofia Ocidental
"Muito do convencional vitupério associado ao nome [de Maquiavel] deve-se à indignação de hipócritas que odeiam a franca confissão das malfeitorias." (STRATHERN. 2000)
Isaiah Berlin, ensaio sobre Maquiavel
"Podemos salvar a própria alma ou encontrar, preservar e servir um grande e glorioso Estado, mas nem sempre podemos fazer a duas coisas ao mesmo tempo." (STRATHERN. 2000)
Leon Trotsky, em sua biografia de Stalin
"Esse retrocesso ao mais cruel maquiavelismo parece incompreensível para quem até ontem descansou na confortável confiança de que a história do homem desenrola-se numa linha ascendente de progresso material e cultural." (STRATHERN. 2000)
Benito Mussolini (El Príncipe. Argentina, Editorial Sopena.)
"Não direi nada novo.
A questão é esta: há quatro séculos de distância, o que há de vivo ainda n’ O Príncipe? Os conselhos de Maquiavel poderiam ter alguma utilidade também para os chefes dos Estados modernos? O valor do sistema político d’ O Príncipe está circunscrito à época em que foi escrito o volume, e portanto limitado a ela e em parte caduco, ou é, ao contrário, universal e atual? É realmente atual?
Minha tese responde a estas perguntas.
Afirmo que a doutrina de Maquiavel está viva hoje, depois de mais de quatro séculos, já que, se bem que os aspectos exteriores de nossa, vida mudaram muito, não se tem verificado profundas variações no espírito dos indivíduos e dos povos." ( Martin Clauet Editores. 1986)
Antonio Gramsci, Escritor e Político italiano, (Maquiavel, A Política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira.)
"O caráter fundamental d´O Príncipe consiste em que ele não é um trabalho sistemático, mas um livro vivo em que a ideologia política e a ciência política fundem-se na forma dramática do "mito". Entre a utopia e o tratado escolástico, as formas através das quais se configurava a ciência política até Maquiavel, este deu à sua concepção a forma fantástica e artística, pela qual o elemento doutrinal e racional incorpora-se num condottiere, que representa plasticamente e "antropomorficamente" o símbolo da "vontade coletiva". O processo de deformação de uma determinada vontade coletiva, para um determinado fim político, é representado não através de disquisições e classificações pedantescas de princípios e critérios de um método de ação, mas como qualidades, traços característicos, deveres, necessidades de uma pessoa concreta, tudo o que faz trabalhar a fantasia artística de quem se quer convencer e dar forma mais concreta às paixões políticas.
O Príncipe de Maquiavel poderia ser estudado como uma exemplificação histórica do "mito"soreliano, isto é, de uma ideologia política que se apresenta não como fria utopia nem como raciocínio doutrinário, mas como uma criação da fantasia concreta que atua sobre um povo disperso e pulverizado para despertar e organizar a sua vontade coletiva. O caráter utópico d’ O Príncipe consiste em que o Príncipe não existia na realidade histórica, não se apresentava ao povo italiano com características de imediatismo objetivo, mas era uma pura abstração doutrinária, o símbolo do chefe, do condottiere ideal; mas os elementos passionais, míticos, contidos em todo o livro, com ação dramática de grande efeito, juntam-se e tornam-se reais na conclusão, na invocação de um príncipe "realmente existente". Em todo o livro, Maquiavel mostra como deve ser o Príncipe para levar um povo à fundação do novo Estado, e o desenvolvimento é conduzido com rigor lógico, com relevo científico; na conclusão, o próprio Maquiavel faz-se povo, confunde-se com o povo, mas não com um povo "genericamente" entendido, mas com o povo que Maquiavel convenceu com o seu desenvolvimento anterior, do qual e/e se torna e se sente consciência e expressão, com o qual ele sente-se identificado: parece que todo o trabalho "lógico" não passa de uma reflexão do povo, um raciocínio interior que se manifesta na consciência popular e acaba num grito apaixonado, imediato. A paixão, de raciocínio sobre si mesma, transformando-se em "afeto", febre, fanatismo de ação. Eis por que o epílogo d´O Príncipe não é qualquer coisa de extrínseco, de "impingido" de fora, de retórico, mas deve ser explicado como elemento necessário da obra, mais ainda, como aquele elemento que lança a sua verdadeira luz sobre toda a obra e faz dela um ‘‘manifesto político"." (Martin Clauet Editores. 1986)
 
 



Lorenzo de Médici
CARTA DE NICOLAU MAQUIAVEL "A um príncipe pouco devem
importar as conspirações se é
amado pelo povo, mas, quando este
é sei inimigo e o odeia, deve temer 
tudo e a todos".
"Ao Magnífico Lorenzo, Filho De Piero De Médicis
As mais das vezes, costumam aqueles que desejam granjear as graças de um príncipe trazer-lhe os objetos que lhes são mais caros, ou com os quais o vêem, deleitar-se; assim, muitas vezes, eles são presenteados com cavalos, armas, tecidos de ouro, pedras preciosas e outros ornamentos dignos de sua grandeza. Desejando eu oferecer a Vossa Magnificência um testemunho qualquer de minha obrigação, não achei, entre os meus cabedais, coisa que me seja mais cara ou que tanto estime quanto o conhecimento das ações dos grandes homens apreendido por uma longa experiência das coisas modernas e uma contínua lição das antigas; as quais, tendo eu, com grande diligência, longamente cogitado, examinando-as, agora mando a Vossa Magnificência, reduzidas a um pequeno volume.
E conquanto julgue indigna esta obra da presença de Vossa Magnificência, não confio menos em que, por sua humanidade, deva ser aceita, considerado que não lhe posso fazer maior presente que lhe dar a faculdade de poder em tempo muito breve aprender tudo aquilo que, em tantos anos e à custa de tantos incomôdos e perigos, hei conhecido. Não ornei esta obra e nem a enchi de períodos sonoros ou de palavras empoladas e floreios ou de qualquer outra lisonja ou ornamento extrínseco com que muitos costumam descrever ou ornar as próprias obras; porque não quis que coisa alguma seja seu ornato e a faça agradável senão a variedade da matéria e a gravidade do assunto. Nem quero que de repute presunção o fato de um homem de baixo e ínfimo estado discorrer e regular sobre o governo dos príncipes; pois assim como os que desenham os contornos dos países se colocam na planície para considerar a natureza dos montes, e para considerar a das planícies ascendem aos montes, assim também para conhecer bem a natureza dos povos é necessário ser príncipe, e para conhecer a dos príncipes é necessário ser do povo.
Tome, pois, Vossa Magnificência este presente com a intenção com que eu o mando. Se esta obra for diligentemente considerada e lida, Vossa Magnificência conhecerá o meu extremo desejo que alcance aquela grandeza que a Fortuna e outras qualidades lhe prometem. E se Vossa Magnificência, do ápice da sua altura, alguma vez volver os olhos para baixo, saberá quão sem razão suporto uma grande e contínua má sorte." (MAQUIAVEL. 1996)
 
ALGUMAS OUTRAS OBRAS DE MAQUIAVEL
 


Palazzo degli Uffizi, Florença
"Não sei falar de seda ou lã,
benefícios ou pedras; preciso
discorrer sobre as coisas do Estado
ou fazer voto de silêncio".


A obra de Maquiavel não se restringe apenas ao livro O Príncipe, ela é muito mais vasta. Dentre elas temos: A Arte da Guerra; Discursos Sobre a Primeira Década de Tito Lívio; A Mandrágora (teatro); Clizia; A Primeira Decenal; Histórias Florentinas; Vida de Castruccio Castracani e muitos "escritos políticos" que foram feitos no decorrer de sua vida.
BIBLIOGRAFIA
"A natureza criou o homem de tal
modo que ele pode desejar tudo
sem poder obter tudo".


BERLIN, Isaiah. "A Originalidade de Maquiavel". In MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe, São Paulo, Ediouro, 2000.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe, Os Pensadores, Vol. 06, São Paulo, ed. Nova Cultural, 1996.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe, São Paulo, Martins Fontes, 1999.
________ - O Pensamento Vivo de Maquiavel, São Paulo, Martin Clauet Editores, 1986.
SKINNER, Quentin. As Fundações do Pensamento Político Moderno, São Paulo, Companhia das Letras, 1998.
STRATHERN, Paul. Maquiavel (1469 - 1527) em 90 minutos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000.

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